Opiniao

“Não sei nada sobre isso”

Acho que já contei aqui esta história, mas, como não tenho a certeza, vou contá-la novamente, correndo o risco de me repetir.

Há uns meses atrás, perguntei a um amigo, licenciado em História, se sabia alguma coisa sobre a batalha de Agincourt. A resposta veio rápida, e um bocado irada: “Não sei nada sobre a isso! Foi a 25 de outubro de 1415, no decorrer da guerra dos 100 anos, e a infantaria inglesa, embora em inferioridade numérica, derrotou a cavalaria francesa, que ficou atolada na lama…” Etc, etc. Portanto, a partir da frase inicial, “não sei o que quer que seja”, fez-me a descrição pormenorizada desta decisiva batalha, não omitindo os pormenores mais macabros, como o facto de os prisioneiros franceses terem sido todos executados pelos vencedores ingleses.

Há sempre o que sabemos, e o que não sabemos. Há os inseguros, como este meu amigo, que não sabia o que quer que fosse sobre a batalha de Agincourt, mas que depois foi capaz de a descrever. No outro extremo, temos os arrogantes. Já houve – não sei exatamente quem foi – quem escreveu que a arrogância é o pior dos defeitos humanos, pois o arrogante recusa-se a receber informação do exterior, não conseguindo dessa forma corrigir os seus erros.

E depois, temos José Sócrates. O texto que Fernanda Câncio ontem escreveu, e que ainda hoje é a história mais lida na edição online do Diário de Notícias, foi o artigo jornalístico mais corajoso que eu já vi escrito em Portugal, desde que tenho memória.

Nesse artigo, Fernanda Câncio procura avaliar, de uma forma impecavelmente objetiva, a atuação do ex-primeiro-ministro e ex-companheiro. Certamente, um exercício difícil e doloroso, que terá demorado anos a gizar, antes de ontem lhe ter dado letra de forma.

O essencial da sua tese, pelo que eu percebi, é que Sócrates é um monstro de egoísmo, que não teve quaisquer escrúpulos de, com as suas mentiras, prejudicar fortemente amigos, apoiantes, e o partido político do qual se agora se desvinculou. Mas os danos já estão feitos. Numerosos leitores, nas caixas de comentários deste jornal (e possivelmente, também nas de outros) referem-se a António Costa como “o nº2 do 44”. Se a situação económica de Portugal não melhorasse continuamente, como ainda hoje o INE veio revelar, com a substancial descida do desemprego e o aumento do emprego, os valores que as sondagens dão ao PS nas sondagens seriam bastante inferiores. Por cortesia de Sócrates.

E é como aquelas histórias em que Fulano, Beltrano, ou Sicrano, são apontados como tendo-se tornado homossexuais (Sócrates incluindo). Por mais que a alegação seja desmentida, a dúvida, ou a certeza, fica sempre implantada em algumas mentes (e note-se que não tenho o que quer que seja contra a homossexualidade, apesar de não a praticar). Mas dá sempre um bom assunto de conversa em ocasiões sociais.

Há alguns anos, conheci pessoalmente um mentiroso patológico. À primeira vista, nada faz supor que estamos perante um mentiroso. Mas depois as coisas começam a não bater certo. Ele queria começar uma empresa, e eu ofereci-me para o ajudar. Era preciso contratar uma pessoa. Colocámos um anúncio na internet, e muito rapidamente tínhamos dezenas de candidaturas. Reduzimos o leque a três candidaturas, e agendámos uma manhã para fazer as entrevistas. E, nessa manhã, estava eu a despachar-me para sair de casa, recebi uma mensagem desse mentiroso: as três candidatas tinham, em simultâneo, desistido. Com o nível de desemprego existente em Portugal, e com a escassez de oportunidades existente na altura, esta foi a primeira mentira importante em que o apanhei.

Mas não foi a que custou mais. E fiquei a pensar na facilidade com que os mentirosos passam atestados de estupidez aos outros. Porque este cavalheiro gabava-se de, com 28 anos de idade, ser doutorado. Isso impressionava-me um bocado. Até ao dia em que ele decidiu publicar um anúncio no jornal. E o que o tramou foi, por uma vez. dizer a verdade. Porque, em vez de colocar o título académico de PhD, usou o que realmente tinha: MsC. Isto é, este fulano, em lugar de ter terminado um doutoramento com 28 anos, tinha um mestrado. Para mim, foi a gota de água que fez transbordar o copo. Já não tenho contactos com ele, e não lhe desculpo ter-me mentido descaradamente

Acreditamos no que queremos acreditar. Aquele senhor, há alguns anos, sentado ao meu lado no barbeiro, comentava, em choque: “o primeiro-ministro é corrupto”. O meu amigo não sabia o que quer que fosse sobre a batalha de Agincourt, mas foi capaz de descrevê-la com detalhe apreciável. E Fernanda Câncio é uma mulher muito corajosa. Foi capaz de tratar com objetividade um tema, que, acredito, lhe seja deveras penoso. Mas Fernanda Câncio está do lado da verdade, contra alguém que pensava ser possível enganar toda a gente ao mesmo tempo, ignorando a célebre citação de Abraham Lincoln (“Pode-se enganar toda a gente durante algum tempo, e pode-se enganar algumas pessoas o tempo todo, mas é impossível enganar toda a gente durante todo o tempo).

A comparação é quase injusta. Lincoln ainda hoje é o presidente mais popular dos Estados Unidos, pois aboliu a escravatura, ganhou a guerra civil, e foi assassinado por defender os seus ideais. Sócrates foi o mentiroso patológico e indivíduo deslumbrado que foi nosso primeiro-ministro durante sete anos, e que provavelmente será julgado pela história como o pior primeiro-ministro que Portugal alguma vez teve (rivalizando com Santana Lopes, mas esse só foi primeiro-ministro durante sete meses, não durante sete anos, e não deixou Portugal à beira da bancarrota, como Sócrates e Teixeira dos Santos deixaram). Em suma: o nosso mentiroso compulsivo é imperdoável. Pelo menos, para a opinião pública. Quanto ao resto, a seu tempo, a justiça dirá.