Opiniao

A gota de água

"Não está na natureza de Sócrates calar-se quando é atacado"

As notícias de que Manuel Pinho continuou a receber dinheiro do Banco Espírito Santo enquanto esteve no Governo foram a gota de água que fez transbordar o copo do PS.

Voltemos um pouco atrás.

Embora o Partido Socialista se tenha demarcado de José Sócrates quando este foi preso, com António Costa a enviar aos dirigentes e militantes um sms em que separava bem as águas, os socialistas sempre evitaram falar do caso – e, em surdina, muitos militantes continuavam a defender o ex-primeiro-ministro, acusando a direita de estar por detrás das acusações que lhe faziam. 

Assim, durante muito tempo não se viu um único socialista condenar Sócrates formalmente – isso ficava para os comentadores afetos à dita ‘direita’, ou para jornais como o SOL ou o Correio da Manhã.

Inversamente, Sócrates também evitava falar abertamente do PS.

Fazia um remoque aqui, outro ali, queixava-se de falta de solidariedade, mas nunca atacava de frente o partido, nem o seu líder, nem nenhum dirigente destacado.

Havia uma espécie de ‘pacto de silêncio’ assumido pelas duas partes: os socialistas não participavam no coro contra Sócrates, Sócrates não atacava o Partido Socialista.

Curiosamente, havia de ser uma figura lateral, Manuel Pinho, a fazer transbordar o copo.

Ao ser acusado de ter recebido dinheiro de Ricardo Salgado para beneficiar a EDP (e, por tabela, o BES) na questão das rendas, Pinho fez tocar todas as campainhas no PS.

Mesmo que a corrupção não se provasse, uma coisa era certa: Pinho continuara a receber secretamente dinheiro do BES enquanto fora ministro.

Não havia escapatória possível.

E, aí, os socialistas não tiveram outro remédio senão reconhecer os factos e admitir que o comportamento de Pinho fora a todos os títulos condenável.

Mas esta semana o caso subiu um patamar.

Foram divulgadas conversas de José Sócrates com Manuel Pinho que mostravam a grande cumplicidade entre os dois homens.

Como todos se recordam, Sócrates despediu Pinho do Governo depois do episódio dos ’corninhos’.

Perante isto, poder-se-ia pensar que as relações entre ambos teriam ficado estragadas.

Mas não: Manuel Pinho saiu sem fazer ondas e comportou-se a seguir com a discrição de um cavalheiro.

E agora percebeu-se porquê: Pinho, depois de sair, foi para os Estados Unidos, que era o que queria, com apoios da EDP e o ‘beneplácito’ do Governo português, além de promessas de coordenação de programas patrocinados por entidades nacionais envolvendo uma espécie de ‘pós-graduações’ atamancadas – a que ele próprio chamou «lavagens ao cérebro».

Enfim, uma aldrabice, a que Sócrates se associou.

Ora, esta cumplicidade manifesta entre José Sócrates e Manuel Pinho levou a que, finalmente, o PS dissesse o que lhe ia na alma.

Nesta quarta-feira, o presidente do partido, Carlos César, veio classificar como «uma vergonha» o comportamento de Manuel Pinho – e ainda mais o de José Sócrates, por ser primeiro-ministro.

E, simultaneamente, o porta-voz do PS, João Galamba, veio dizer o mesmo, considerando que as condutas de Pinho e Sócrates «envergonham qualquer socialista». Ele, que, recorde-se, defendeu Sócrates até ao fim, e ainda há bem pouco tempo atacava com a sua conhecida subtileza os que denunciavam os seus desmandos.

E também Ana Catarina Mendes veio condenar Manuel Pinho no mesmo dia.

Não se tratou, pois, de uma coincidência.

Houve uma diretiva no PS expedida ao mais alto nível – leia-se, António Costa – para condenar explícita e publicamente Manuel Pinho e José Sócrates.

E isto porquê?

Porque Costa começou a perceber que a não assunção clara, por parte do partido, dos crimes de Pinho e Sócrates, era muito perigosa e estava a fazer muito mal ao PS.

Estava a colar ao PS o rótulo de ‘partido dos corruptos’ (como, aliás, Ana Gomes notou há duas semanas).

Havia que fazer qualquer coisa.

E a nível do topo, para não haver dúvidas.

Não podendo António Costa fazê-la, mandou avançar os seus três coronéis: o presidente do partido, o porta-voz do partido e a secretária-geral adjunta do partido.

Que usaram todos a mesma ideia: «vergonha».

E só depois disto António Costa interveio, admitindo que, a confirmarem-se as ilegalidades, «será uma desonra para a democracia».

O pacto de silêncio que durara três anos e meio chegava ao fim.

O fingimento acabava.

Finalmente o PS condenava aberta e formalmente José Sócrates.

A esta tomada de posição do partido, Sócrates reagiu da única forma possível: batendo com a porta.

Resta saber como vai agora responder publicamente às contundentes declarações dos seus ex-amigos Carlos César e João Galamba.

Porque não está na natureza de Sócrates calar-se quando é atacado.