Cultura

Um Dom Quixote ‘maldito’ até ao fim

Centro Nacional de Cinema francês autorizou a exploração comercial do filme de Terry Gilliam em França. Paulo Branco reafirma que o contrato que assinou com o ex-Monty Python continua válido e interpôs mais uma providência cautelar.

Mais uma autorização, mais um processo. Depois de o Centro Nacional do Cinema (CNC) francês ter dado na quinta-feira luz verde à estreia de O Homem Que Matou Dom Quixote, de Terry Gilliam, nas salas francesas, Paulo Branco interpôs em Paris uma nova providência cautelar, para impedir a exploração comercial do filme em França. Isto na mesma semana em que o Tribunal de Grande Instância de Paris autorizou a projeção do filme ‘maldito’ do ex-Monty Python na sessão de encerramento do 71.º Festival de Cinema de Cannes, que o produtor português tentou impedir na justiça depois de ter sido anunciado pelos programadores.

No visto de exploração concedido pelo CNC para «todo o público», o organismo responsável pelo cinema francês reconhece a Ukbar Filmes como a única coprodutora portuguesa, ao lado da francesa Kinology, da espanhola Tornasol Films, produtora delegada do filme, e da Entre Chien et Loup, da Bélgica. Mas Paulo Branco alega serem seus os direitos sobre o argumento do filme, depois de em 2016 ter assinado contrato com o realizador, que pediu depois a sua anulação, por alegados problemas de financiamento, e avançou para a rodagem com uma outra produtora portuguesa, a Ukbar, que teve uma participação de 10% no orçamento total do filme, de 16 milhões de euros, e que também esta semana o próprio Instituto do Cinema Português reconheceu como coprodutora portuguesa oficial. 

A notícia da autorização para a exploração comercial em França foi avançada pela imprensa francesa na quinta-feira, na semana mais polémica da batalha judicial que tem oposto Paulo Branco, produtor inicial do filme, ao realizador, apenas um dia depois de ter sido conhecida a decisão do Tribunal de Grande Instância de Paris que permitiu a exibição do filme Cannes com a condição de que no início da sessão seja projetada uma nota dando conta de que a autorização para a exibição no festival acontece sem prejuízo do resultado dos vários processos em curso nos tribunais franceses e do Reino Unido (e deixando a cargo de Terry Gilliam, a Star Invest Films France e a Kinology, coprodutora francesa, as expensas judiciais pelo processo). Paulo Branco não demorou a anunciar que processaria o festival pelos danos eventualmente causados pela decisão de estrear o filme na sessão de encerramento desta edição.

Ao SOL, o produtor português garantiu ainda que, apesar da autorização para Cannes, o filme não estava em condições de ser explorado comercialmente. «É tudo fogo de artifício», dizia, sublinhando que a justiça francesa tinha já decidido que o contrato firmado com o ex-Monty Python em 2016 se mantinha válido. Do lado da Ukbar, a produtora Pandora da Cunha Telles afirmava o contrário: «Neste momento, não há nada que diga que o filme está impedido de ser explorado comercialmente».

Também esta semana, a publicação IndieWire noticiou, citando «fontes próximas da produção» que a Amazon teria desistido da distribuição do filme nos Estados Unidos. Continua, porém, sem haver confirmação oficial. Em Portugal, um dos países onde o filme foi rodado, a par de Espanha, durante o verão passado, não há ainda data prevista para a estreia, que estará a cargo da NOS. 
Num processo que parece interminável, produtores, distribuidores e o realizador aguardam agora pela decisão judicial que determinará a estreia ou não do filme nas salas francesas, logo depois de Cannes. Mais um compasso de espera para aquele que desde a viragem do século, ainda muito antes de Paulo Branco ter anunciado que comprara os direitos do filme inspirado no clássico de Cervantes, era já conhecido como «o filme maldito» de Terry Gilliam, pela saga de peripécias que chegou a dar um documentário, em 2002: Lost in La Mancha.
O Homem Que Matou Dom Quixote é um projeto para o qual o ex-Monty Python avançou pela primeira vez já em 2000, com Johnny Depp e Jean Rochefort como protagonistas. Nessa altura, o filme chegou a começar a ser rodado em Navarra, num processo interrompido por problemas vários, já relacionados com falta de dinheiro mas também com uma lesão de Rochefort. Houve depois uma segunda tentativa, dessa vez com John Hurt e Jack O’Connell, mas também falhada. 
Depois de vários percalços acabou por avançar uma coprodução entre Espanha, Portugal, França e Bélgica. A rodagem entre Portugal e Espanha, no verão passado, também esteve envolta em polémica:segundo uma reportagem da RTP, as filmagens terão provocado estragos num claustro do convento de Cristo, em Tomar.
A história é a de um homem que viaja no tempo, do séc. XXI até ao séc. XVII, onde se cruza com o protagonista da obra de Cervantes. E tem como atores principais Adam Driver, Jonathan Pryce e Joana Ribeiro, que em Portugal protagonizou recentemente a série Madre Paula, de Patrícia Müller.
Há dias, Pandora da Cunha Telles dizia, em declarações ao SOL, que esperava que «os contornos novelescos que está a assumir esta história» não prejudicassem o filme, «o primeiro elegível para o programa de incentivos fiscais» lançado recentemente pelo governo português para atrair rodagens de coproduções estrangeiras para Portugal. «É um enorme cartão-de-visita para que mais filmes desta envergadura venham a ser rodados em Portugal. Conseguimos fazer um filme que há 20 anos estava maldito e temos uma atriz portuguesa, a Joana Ribeiro, como protagonista, ao lado do Adam Driver, num filme de encerramento de Cannes. Esperamos que seja o primeiro de muitos».