Desporto

Taça de Portugal. E as capas foram negras na arena das Salésias

No dia 25 de junho de 1939, a Académica bateu o Benfica (4-3) na primeira final da Taça de Portugal jogada sob este nome. Esperaria 73 anos para repetir a proeza

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Primeiro chamou-se Campeonato de Portugal, de 1921 até 1938. Depois, o relatório e contas da Federação Portuguesa de Futebol da época de 1938-39, no seu art.o vi, estabeleceu: “Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos e Ligas de Portugal passaram a designar-se, respetivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal.” Seguia o que já fora consignado no i Congresso Nacional do Futebol sob o título “A Organização Nacional do Futebol e as suas Grandes Competições Nacionais”.

Deixemos a burocracia.

Primeira final da Taça de Portugal com este nome: Académica-Benfica.

Dia 25 de junho de 1939.

Formidável enchente nas Salésias!

Nesse tempo, a palavra formidável fazia muito parte do léxico português.

E as Salésias eram imponentes.

O Benfica não podia deixar de ser favorito. Tinha gente como Espírito Santo e Valadas, e Albino, e Francisco Ferreira.

Veio um árbitro de Setúbal chamado Palhinhas.

Havia festa.

As equipas trocavam objetos artísticos numa era sem galhardetes.

Eram 18h15.

O jogo começa duro. Os homens que vieram de Coimbra vivem a sua primeira final.

José Maria Antunes, Faustino e Octaviano são agressivos, contundentes.

Carneiro é autor de uma cabeçada magnífica; Martins responde à altura.

Uns atacam, outros contra-atacam.

E invertem-se os papéis de minuto a minuto.

Estão passados oito minutos, Valadas arranca um centro primoroso, Tibério estica-se mas de nada lhe vale, Rogério marca: 1-0 para o Benfica.

Mas os estudantes mantêm-se serenos. E vão em busca do empate, decididos, impantes nas suas camisolas negras que brilham ao sol. Como touros na arena.

Manuel da Costa é o mais perigoso desses touros que têm pela frente adversários encarnados. Uma metáfora, talvez.

É o próprio Manuel da Costa que faz o empate, aos 37 minutos.

O favoritismo dos lisboetas dilui-se com o correr da tarde, que caminha para a noite. Já ninguém é capaz de apostar claramente num vencedor. Os acontecimentos desaconselham-no por completo. A Académica tem energia, tem força, técnica e temperamento.

Que bela surpresa nas Salésias!

Entusiasmo Eis outra palavra bem aplicada a essa primeira final da Taça de Portugal que se jogou sob este nome.

Entusiasmo de um lado e de outro.

Crescente o da Académica; decrescente o do Benfica.

Quarenta segundos da segunda parte e eis que os rapazes das capas negras se adiantam no marcador através de um golo de Gomes.

O público festeja. Há muita gente vinda de Coimbra. E muitos antigos estudantes que vivem em Lisboa e não esquecem os seus tempos na Lusa Atenas.

Mas o Benfica não dobra. Rogério faz o 2-2. Continua tudo em aberto.

Há um golo anulado aos encarnados.

As reclamações são fracas e infrutíferas.

Sente-se que algo está para acontecer.

Um mau atraso de João Correia permite a Carneiro antecipar-se. Sozinho frente a Martins, não tem como falhar e não falha.

A Académica está outra vez em vantagem.

E agora decidida a agarrá-la com unhas e dentes e a não deixá-la fugir.

No minuto seguinte, Carneiro corre pela esquerda, fica sem ângulo para visar a baliza e, ainda assim, persiste na teimosia. O remate é forte, mas não há como explicar a forma como o guarda-redes do Benfica se movimenta em gestos atrapalhados: golo!

Uma onda de simpatia invadiu as Salésias. Os espetadores parecem ser quase todos a favor dos conimbricenses, ainda que houvesse uma maioria de benfiquistas. Uma empatia inequívoca.

Os jogadores do Benfica parecem sucumbir ao cansaço. Não se negam ao esforço, mas os seus lances carecem de lucidez. A diferença de dois golos pesa-lhes muito sobre os ombros, por mais que os queiram manter erguidos numa manifestação de pundonor.

A 17 minutos do fim, Brito põe o resultado em 3-4. Ninguém o sabe ainda, mas será final.

Os últimos dez minutos disputam-se no meio-campo da Académica, mas há nos jogadores das camisolas pretas uma confiança inabalável na vitória inédita.

Francisco Ferreira ergue-se como uma torre vermelha, um soldado que carrega o estandarte do assalto derradeiro.

Grande Francisco Ferreira!

A Académica deixou de ser 11 jogadores em campo e passou a ser um só. Camaradas, fraternos, apegam-se à luta e a uma daquelas fés de mover montanhas.

Conquistam a primeira Taça de Portugal da sua história. Esperarão 73 anos para repetir o feito.