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Ser criança é coisa séria e com as brincadeiras não se brinca

Muitos pais podem olhar para as brincadeiras como uma perda de tempo em relação às aprendizagens escolares, mas não podiam estar mais enganados. Há estudos para todos os gostos, mas a conclusão é simples: brincar é um promotor de felicidade e desenvolvimento

Não há dia próprio para dedicar às brincadeiras, mas o pretexto de ser Dia Mundial da Criança vem a calhar. Aproveite para guardar a consola, esqueça os trabalhos de casa e aposte em passar algum tempo livre para ensinar aos seus filhos os velhos jogos tradicionais – uma riqueza pedagógica que une gerações, de grande importância para o desenvolvimento dos mais novos e que não custa quase nada. 

São vários os estudos que sublinham a grande importância das brincadeiras na vida das crianças e são muitos os psicólogos que enumeram vantagens. Apesar de haver mais acesso à informação, através das novas tecnologias, a verdade é que se pode estar a criar o mito de que as crianças não precisam dos mais velhos, irmãos, pais, avós ou professores, para aprender. E de que aprender é acumular informação. 

No entanto, isto não podia estar mais longe da verdade. Os mais velhos ensinam os mais novos e as brincadeiras e jogos são de grande importância em todo este processo. De acordo com os vários especialistas, os jogos tradicionais, por exemplo, obrigam à proximidade física e ainda à interação entre pessoas. Também é fácil usar as brincadeiras e os vários jogos como forma de explicar a função de ter regras, a importância de as respeitar e ainda ensinar conceitos como a vitória e a derrota. 

Crianças que se sujam são mais felizes Para alguns pais, deixar as crianças brincar ao ar livre pode trazer o problema da sujidade e até dos arranhões, mas, depois de ler isto, pense duas vezes antes da repreensão. De acordo com vários psicólogos, brincar ao ar livre é do melhor que há. Não há dúvida aqui: falamos de um verdadeiro promotor de felicidade. Significa que as crianças estão a ter oportunidade de fazer o que devem: é de grande importância poderem explorar o ambiente que os rodeia. O resultado é a felicidade. Pode parecer que não, mas as brincadeiras são, na verdade, uma coisa séria na vida dos mais novos. 

De acordo com Helena Águeda Marujo, investigadora na área da psicologia positiva, “a importância da brincadeira ao ar livre para o desenvolvimento de crianças felizes é extrema, até mesmo vital”. Brincar é fundamental para a saúde afetiva e relacional, cognitiva e física. E, por isso, Helena Águeda Marujo reforça: “A escola é apenas uma parcela da vida, e cada vez com menos peso se não for entendida de forma holística, global, integradora, formadora do caráter e das virtudes, ensinando até a felicidade.” 

E, mais uma vez, ganha especial relevo o peso de a aposta ser feita ao ar livre. “As emoções positivas que advêm de brincar nestas condições estimulam até o sistema imunitário em vez de o enfraquecer, como muitos pensam. A serotonina está associada a este brincar no exterior, sujar e desorganizar a arrumação da vida certinha e limpinha.” 
Para alguns pais, as nódoas podem ser um verdadeiro pesadelo mas, para os especialistas, são as manchas mais importantes do dia-a-dia. “O prazer que uma criança tem ao enfiar os pés nas poças, sujar-se na terra, moldar bolos de areia ou fazer carreiros de água alimenta um lado do desenvolvimento que não se pode perder.” Vários estudos têm, aliás, comprovado esta teoria. 

Já no final do ano passado, um estudo sobre a felicidade em Portugal e Espanha apontava para o pouco tempo passado entre pais e filhos e a falta de tempo para brincar como maiores causadores de infelicidade. De acordo com a investigação, serão poucos os pais com o privilégio de reservar tempo de qualidade para os filhos. Em muitos casos falta a atenção, a intimidade, os mimos e as brincadeiras. Mas não são os pais quem mais perde com a falta deste contacto com as crianças: são elas. 

De acordo com os resultados, mais de metade das crianças portuguesas são, na opinião dos pais, “muito felizes” (51,6%), contra 8,8% dos que oscilam entre a felicidade e a tristeza. Mas, quando questionados acerca dos principais motivos de infelicidade das crianças, não passar tempo suficiente com os pais (26,3%) e não ter tempo suficiente para brincar (21,37%) aparecem em destaque. 

No entender de Rui Lima, professor e autor do livro “A Escola que Temos e a Escola que Queremos”, é preciso combater a falta de tempo, mas também é importante lembrar que a esta questão tem de ser somada “a crescente pressão imposta às crianças e jovens, tanto por pais como por escolas, em que o desempenho académico, a competição dos pares e a necessidade constante de alcançar a perfeição em todas as atividades têm, certamente, um impacto negativo na felicidade das crianças”. 

Também aqui é ponto assente que “sentir-se querido e valorizado, partilhar tempo com os pais e explorar o mundo através da brincadeira real são os fatores-chave na felicidade das crianças”.

Até aqui, percebe-se a fórmula da felicidade. No entanto, nem tudo é assim tão simples e pode não ser fácil de aplicar. Um outro estudo, de 2015, chamava a atenção para o facto de as crianças estarem cada vez mais sedentárias e com menos liberdade para brincar. Carlos Neto, coordenador do estudo, referiu na altura que “as nossas crianças estão fechadas, amarradas, em casa, não têm liberdade de ação, não vão a pé para a escola, não brincam na rua. Estamos a viver uma situação insustentável, o que designo por sedentarismo infantil”.

Todos concordam que as crianças têm de brincar, de preferência na rua e em família. Por isso, nada melhor do que começar já hoje e aproveitar as sugestões que o i lhe deixa nestas e nas páginas seguintes. 

Ensine jogos tradicionais

STOP

Jogadores: 2 ou mais 

Só precisam de um folha A4 e de uma caneta. Na horizontal escrevem-se várias categorias – nomes, países, capitais, animais, cores, plantas, marcas... Cada categoria tem uma coluna. A última coluna é para contabilizar os pontos de cada jogada. Um jogador diz mentalmente o alfabeto e outro diz stop, definindo assim a letra que terá de ser usada para todas as categorias.

FORCA

Jogadores: 2 ou mais 

É necessária uma folha de papel A4. Desenha-se uma forca. O primeiro jogador pensa numa palavra e desenha tantos traços quantas letras tiver a palavra. Cada jogador tem direito a sugerir uma letra. Se a letra existir na palavra mistério, ela é colocada no seu local correspondente. Se não existir, o jogador vai à forca, sendo desenhado continuadamente o enforcado. 

MACACA

Jogadores: 2 ou mais

Precisam apenas de giz para desenhar no chão e uma pequena pedra. Cada casa da macaca é numerada de 1 a 8. O primeiro jogador lança a malha para a casa 1. A seguir salta para as casas 2 e 3 a pé coxinho, passando por cima da casa 1, onde está a malha, e nesta não se pode tocar. Não pode pisar nunca os riscos do desenho. Retoma, sempre ao pé coxinho.

MACAQUINHO DO CHINÊS

Jogadores: mais de 3

Um jogador fixa uma parede enquanto os outros se posicionam junto a uma linha real ou imaginária predefinida. O jogador conta “1, 2, 3, macaquinho do chinês” e, enquanto isso, os outros têm de se movimentar rapidamente e ficar em estátua quando ele se virar para olhar. O jogador que for apanhado a mexer-se volta ao ponto de partida. Ganha quem chegar primeiro à linha.

SALTAR AO EIXO

Jogadores: mais de 3

Os jogadores colocam o corpo dobrado de forma a que as costas fiquem para cima. O primeiro jogador começa a correr e tem de saltar sobre as costas de todos os companheiros que são o eixo. Quando chega ao fim coloca-se também ele dobrado e o jogador seguinte tenta executar todos os saltos. Se não conseguir saltar, sai do jogo.

CABRA-CEGA

Jogadores: mais de 8

Um jogador fica com os olhos tapados por um lenço e terá de girar três vezes sobre si mesmo para perder o sentido de orientação. Os outros jogadores fazem uma roda e vão trocando de lugares enquanto a cabra-cega tenta apanhar um deles. É preciso adivinhar quem apanhou. Se a resposta for correta, o jogador que foi apanhado passa para o lugar da cabra-cega.

PIÃO

Jogadores: 2 ou mais 

Faz-se um círculo no chão para onde os jogadores lançam o pião, segundo uma ordem previamente sorteada. Sempre que um jogador conseguir retirar o pião de outro jogador ganha um ponto. Cada jogo tem três séries de lançamentos. Vence quem conseguir obter mais pontos. 

TELEFONE ESTRAGADO

Jogadores: mais de 5

O primeiro jogador inventa um segredo breve. Tem de o dizer ao ouvido do jogador à sua direita, que por sua vez tem de o contar ao outro jogador a seu lado, e assim sucessivamente até a mensagem percorrer todos os jogadores. O último jogador repete em voz alta o que ouviu, que normalmente já foi adulterado em relação à mensagem inicial.