Cultura

NOS Primavera Sound, dia 2: O novo normal

Seja hip-hop, seja rock, (jazz ou pop), houve poetas de karaoke, bandas, sessões de jazz semi-improvisado, guitarras e máquina na Primavera de todas as estações. 

Na fila para o café, há quem se queixe deste já não ser o Primavera de outros. O que para um festival com seis anos de casa no Porto não deixa de ser irónico.

"E o Paredes de Coura? Mudou completamente. Agora, tenho de ir a Lisboa ver concertos", lamentava alguém que sem guitarras não consegue viver mas os tempos não estão só a mudar, já mudaram.

A segunda noite de NOS Primavera Sound foi uma Torre de Babel de possibilidades, géneros, fenómenos micro e macro que, no todo, refletem a cultura de fragmento e dispersão da cultura pop atual. E se a edição 2017 fora a mais conseguida por olhar sem reservas para os factos, a deste ano perdeu todas as vergonhas e é capaz de conciliar todas as vontades sem perder o mais importante: a identidade.

Quando entramos no recinto, as Breeders recusam a reforma antecipada e atacam o novo single "Wait In The Car". No passado recente, a banda de Kim Deal teria honras de horário nobre - aconteceu com os My Bloody Valentine, para incompreensão geral, e com os quase-desconhecidos em Portugal The Replacements - mas este ano foram os cabecilhas do hip-hop americano - o novo rock dos a dolescentes, e não só - a tomar conta do palco principal.

Veio Vince Staples tomar conta do terreno, sozinho sem ajudantes. Um palco inteiro só para ele, para nos teletransportar para as ruas de Compton, sobre bases industrais; house no limite, mas sempre no perigo do bréu.

Risco assumido, expressão facial vigilante e linguagem corporal de controlo. Não faltaram "Norf Norf", "Señorita" e "Rain Come Down", um retrato involuntário de uma Primavera com ar de Outono que não chegou a ser Inverno. 

Como a primeira parte de uma estrela em que a constelação se inverte. A$ap Rocky, o mais aguardado da noite, pôs os dentes de ouro de fora e recebeu roupa interior de volta.

Se isto não é rock(y), é o quê? O mosh, a histeria nas grandes, as letras decoradas para o grande teste pela pequena multidão que se acotovelava na linha da frente são a cultura do rock a acontecer sem guitarras mas se Staples impressionou pela surpresa, o "cabeça de cartaz" perdeu algum interesse quando se deixou cair em lugares comuns que o novo "Testing" não denuncia.

A metalizada "Distorted Records" evidenciou algo que nem sempre é claro: na massificação dos últimos anos, continua a haver um lugar para experimentar. "A$ap Forever", e o familiar sample de "Porcelain" de Moby, repetido à exaustão, aproximou. Mas o grande trunfo chama-se "Praise The Lord", um debate transatlântico com Skepta, que elevou os índices de adrenalina. 

E após uma zona algo mortiça - salva pela fabulosa "L$D" - o final com "Yamborghini High" (do A$ap Mob), "Fuckin' Problem" (com Drake, Kendrick Lamar e 2 Chainz), "Plain Jane" (de A$ap Ferg) e "It Ain't Safe" voltou a encher o depósito de gasolina rockeira. O concerto pode ter várias leituras, emocionais no compromissos ou racionais no reconhecimento do contexto, mas não foi de todo um acidente. E o caminho é por aqui.

Nem um vídeo-árbitro teria informação disponível para decidir entre Thundercat (23h30), Four Tet (23h40) e Fever Ray (00h00). Perdeu Kieran Hebden que chegava em fundo à lição jazzística de Thundercat - qual Herbie Hancock na libertinagem e Jaco Pastorius no virtuosismo - embora já sem a solenidade secular do género. 

Stephen Bruner dedicou o concerto à memória de Anthony Bourdain. "Merda, era um tipo excelente", lamentou. 

A lotação esgotada foi-se perdendo à medida que outras propostas chegavam através da aplicação do festival mas há um jazz em renovação e reaproximação. E esse renascimento também passa por ele e por uma visão livre que se perdeu para as convenções nas últimas décadas.

Pelo mesmo palco, tinham passado as irmãs franco-cubanas Ibeyi. A aposta no magnífico segundo álbum "Ash", do ano passado, foi inteligente. O abuso de "Deathless", o elixir da eterna juventudade, excessiva.

A canção é fabulosa mas estendeu-se durante múltilplos refrões e apelos populares. E repetiu-se no final do concerto. Não era preciso tanto, mas perdoa-se o exagero. Um regresso em sala (tal como Thundercat) pede-se.

Só restou tempo para o miolo do concerto de Fever Ray. O necessário para apreciar a herança visual de Bjork, e as vozes símias às de Karin Dreijer que recordaram a provocatória aula de aeróbica dos The Knife em Paredes de Coura, quando ninguém percebeu se os próprios estavam em palco ou eram apenas um karaoke musical e uma caricatura visual.

Extasiante, "To The Moon and Back", do novo e nervoso "Plunge", contaminou o corpo da anarquia que as intenções da sueca contém. E "IDK", produzida por Nidia (da Príncipe") é a explosão necessária para uma manifestação de arte total. Na noite de todos os todos que já não são só para alguns.