Economia

Autoeuropa. Quase um ano de impasse

Fábrica de Palmela vai voltar a negociar com trabalhadores o regime de laboração contínua. Também o Parque Industrial que contratou mais 500 pessoas está à espera do desfecho.

O braço de ferro entre a administração e os trabalhadores da Autoeuropa começou há quase um ano. Em 11 meses assistiu-se a acordos chumbados e a mudanças na Comissão de Trabalhadores. O impasse voltou agora à fábrica de Palmela com o novo líder da estrutura de trabalhadores, Fausto Dionísio, a pedir que sejam reabertas as negociações em relação ao regime de laboração contínua. A administração já deu luz verde à abertura ao diálogo, depois de os operários terem entregue, esta semana, um abaixo-assinado.

«Na Volkswagen Autoeuropa, mantemos e manteremos sempre o diálogo com a comissão de trabalhadores, tal como sempre fizemos», garantiu a empresa, mas o SOL sabe que essas negociações só irão arrancar no final do mês, o que dá pouca margem de manobra, uma vez que os novos horários de trabalho serão implementados após as férias, em agosto. Também em termos de compensações financeiras não há grande espaço para negociar porque, ao que o SOL apurou, a administração já chegou ao limite do que pretendia oferecer a nível financeiro.

Em causa está a proposta da administração da fábrica de Palmela que prevê a atribuição de uma folga extrassemanal ao domingo por cada quatro semanas – uma situação que não está a agradar aos trabalhadores.

Além disso, no novo modelo laboral, os operários vão ganhar ao domingo o mesmo que nos dias úteis e vão receber 100% de um dia normal de trabalho por mês por cada dois turnos trabalhados ao fim de semana; serão ainda pagos 25% trimestralmente consoante o cumprimento do volume de produção.

Segundo a Comissão de Trabalhadores liderada por Fausto Dionísio, o documento foi subscrito de forma maciça e dá conta do descontentamento dos trabalhadores da Autoeuropa quanto à compensação decidida pela administração para o trabalho ao domingo.

Fausto Dionísio já tinha revelado que a Comissão de Trabalhadores apresentou uma contraproposta para que a empresa pagasse apenas um dos dois domingos que cada trabalhador deverá fazer durante o período de um mês com um acréscimo de 100%, até final deste ano, e que todos os domingos fossem pagos com o mesmo acréscimo de 100% a partir de janeiro de 2019. No entanto, foi recusada.

Os novos horários – a fábrica vai funcionar com 19 turnos de laboração depois das férias de agosto: três turnos diários de segunda a sexta e dois turnos diários ao sábado e domingo – foram uma consequência direta do aumento das encomendas do novo SUV. A meta já foi anunciada: atingir até final do ano um volume de produção na ordem dos 240 mil veículos – a maioria dos quais do modelo T-Roc.

O SOL sabe que, neste momento, já estão a ser produzidos diariamente 870 veículos, dos quais 650 correspondem ao novo SUV, o que dá uma produção de 26 a 27 T-Rocs por hora. Mas a ideia é aumentar para 28 a 29 por hora, com vista a dar resposta à crescente procura.

Aliás, o modelo que está a ser fabricado exclusivamente na Autoeuropa desde agosto vai ter um peso importante nas vendas da marca alemã: o T-Roc deverá representar 40% das vendas da marca até 2027.

Ex-coordenador sai 

A tensão vivida na fábrica de Palmela também se estende à relação entre os próprios trabalhadores. O ex-coordenador Fernando Gonçalves que, em maio, abandonou funções depois de ter sido realizado um referendo sobre a sua continuidade – apesar de 57% terem votado contra a sua destituição – deixou de ser trabalhador da Autoeuropa.
Tudo indicava que iria regressar à linha de produção, mas o SOL sabe que o mal estar era grande e não houve condições para o seu regresso devido à contestação interna, levando-o a negociar a sua saída com os recursos humanos.

Ao SOL, alguns trabalhadores não se mostram surpreendidos com esta saída, considerando mesmo que o trabalho de Fernando Gonçalves na liderança da CT representou «uma fraude» face às promessas que tinha feito aos colaboradores, e dão como exemplo o trabalho ao sábado. Gonçalves acreditava que seria possível encontrar soluções alternativas em diálogo com a empresa, mas a administração da Autoeuropa considerou que não havia possibilidade de produzir o volume de carros necessário sem o trabalho obrigatório aos sábados, pelo que o novo horário entrou mesmo em vigor no passado mês de fevereiro. «A única explicação que nos deu foi que a definição dos horários de trabalho é uma prerrogativa legal da empresa e, como tal, o parecer da CT tem apenas caráter consultivo», referem os trabalhadores.

Mas as críticas não ficam por aqui. O mesmo grupo de trabalhadores acusou Fernando Gonçalves de usar o veículo (modelo Sharan) que a administração atribuiu à comissão para fins pessoais – uma situação que ‘não caiu bem’ internamente. «Fernando Gonçalves foi um embaraço para a comissão de trabalhadores e a situação agravou-se quando se ‘vendeu’ por uma Sharan», revelaram. 

Parque industrial no impasse

Na expectativa continuam os trabalhadores do parque industrial da Autoeuropa – onde estão instaladas 19 empresas com um total de cerca de 3500 trabalhadores, dos quais 500 foram contratados nos últimos meses para fazer face à laboração contínua – que já se estão a organizar para arrancar com os novos horários, tal como acontece com a fábrica de Palmela.

As negociações de compensação para o novo horário de trabalho ainda não arrancaram porque estão a aguardar por um resultado da Autoeuropa. E ao SOL, Daniel Bernardino, coordenador das Comissões de Trabalhadores do Parque industrial explica o motivo: «Não podemos apresentar aos nossos colaboradores um valor que seja mais elevado do que aquele que será apresentado pela Autoeuropa porque senão podemos provocar uma maior instabilidade do que aquela que já se vive».