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Antes de CR7, o internacional era Mateus

É o mais mundial dos vinhos portugueses e teve vários embaixadores improváveis. Eis a história do Mateus Rosé, o primeiro bestseller da Sogrape que já vendeu mais de mil milhões de garrafas.

«I get juiced on Mateus and just hang loose», cantava Elton John na música ‘Social Disease’ (1973). E o Mateus era mesmo o ‘nosso’: Mateus Rosé, o vinho de mesa português mais comercializado no mundo.

Criado em 1943, foi desde o início um vinho pensado para ser diferente. Começando logo na garrafa, saída da cabeça de Fernando van Zeller Guedes, primeiro presidente da Sogrape e que tinha posto na cabeça que «queria ser diferente».

Inspirado nos cantis dos soldados da I Guerra Mundial, criou uma garrafa mais bojuda e mais baixa que o habitual, que ficava à frente das outras nas prateleiras. O rótulo, também desenhado por ele, mostrava o Palácio de Mateus e ainda deu água pela barba à Sogrape, que para usar a imagem do edifício era obrigada a comprar uma parte da produção anual das vinhas do conde a um preço 40% superior ao preço mais alto praticado em Vila Real. A Sogrape acabou por comprar as vinhas aos descendentes do Conde de Mateus, acabando assim com o imbróglio.

Depois, este foi o primeiro rosé do mercado. E por último, mas não menos importante, teve um grande estratega que iria definir o retumbante sucesso comercial: logo na década de 40, Fernando Van Zeller resolveu enviar a todos os embaixadores portugueses no mundo uma garrafa de Mateus Rosé, «pedindo-lhes que provassem e, se gostassem, dessem a provar a um amigo local», explica a empresa. A estratégia pegou – ou, como diríamos hoje, ‘viralizou’, e o vinho tornou-se mundialmente conhecido a partir do momento em que conquistou a Inglaterra, que ditava as tendências mundiais. E a empresa conseguiu-o por duas vias: primeiro, patrocinaram, em 1961, a Corrida de Ascot e um prémio com o nome Mateus Rosé foi entregue ao vencedor da competição. Depois, chegou a mega campanha ‘As Lendas bebem Mateus’, com celebridades mundiais a serem fotografas a consumir o vinho. Falamos de nomes como Jimmi Hendrix, Elton John, Nubar Gulbenkian, Danny Bianchflower (capitão do Tottenham F.C.) e Amália Rodrigues, que apareceram, sorridentes e despreocupados, a beber o seu copo de rosé.

O Mateus Rosé tornou-se no vinho da moda e a penetração do mercado inglês ficou completa com uma história que quase virou mito: conta-se que, certa vez, a Rainha Isabel II pediu Mateus numa festa privada no hotel Savoy de Londres.

O vinho, que não fazia parte da lista, saltou diretamente para a carta permanente de vinhos. 

Em 1974, depois do 25 de Abril, a empresa recebe uma encomenda de pôr os olhos em bico: dois milhões de caixas de Mateus Rosé. «Parece que tinham medo das nacionalizações e do fim da marca e quiseram reservar 20 milhões de garrafas para não correrem o risco de ficar sem o seu rosé», contou Fernando Guedes em 2009 numa entrevista ao Expresso. 

Mas havia rosé para todos e o vinho continuou a ser presença querida nas mesas mais importantes do mundo nas décadas seguintes: Margaret Thatcher foi outra confessa consumidora. E Frank Borman, o astronauta norte-americano que comandou a primeira circum-navegação da Lua, teceu o seguinte comentário: «Só lamento, quando voava à volta da Lua, não ter vinho Mateus para me deliciar». A lista de consumidores famosos é longa, com alguns curiosos. Por exemplo, consta que Mateus Rosé era uma das bebidas que nunca faltava nas caves dos palácios de Saddam Husseim. 

Hoje, o Mateus Rosé continua a ter dimensão mundial: está em mais de 120 países e a empresa estima que já venderam qualquer coisa como mil milhões de garrafas. É obra.