Opiniao

«É urgente inventar o amor»

A referência desta fotografia, que tirei em Sines, é o bem conhecido poema de Eugénio de Andrade, que afirma: «É urgente o amor». E, no mesmo poema, também diz: «É urgente destruir certas palavras, / ódio, solidão e crueldade, / (...) / É urgente inventar alegria». Ora, tomando esta referência, o autor da afirmação na parede diz que: «É urgente inventar o amor». E, se é urgente inventar o amor, é urgente acreditar que tal é possível. Sem acreditarmos, não conseguiremos tornar o amor no centro da vida.

É através do amor que verdadeiramente nos apercebemos de quem é o outro, mas é também através do amor que, por vezes, nos perdemos, e, sem distanciamento crítico, acabamos, como diz António Reis, por constatar: «Já não sei / onde / começa e acaba / a tua face // Já não sei / onde são dedos / ou gestos / as minhas mãos»…

É através desta unidade com o outro que conseguimos ganhar força para enfrentar todos e tudo o que gravita à nossa volta. É o amor que dá alento para viver, para conviver e para sobreviver. O amor é o tal fogo que nos consome, mas que, simultaneamente, nos faz «querer estar preso por vontade». É, pois, um alimento para a alma, que nos ajuda a encarar o mundo de forma diferente, e a apreciar, com mais gosto, a vida. Ou, como diz Fiama Hasse Pais Brandão: «O amor é o olhar total»!

O ser amado transforma-se, pois, no bem mais precioso, naquilo por que se anseia. Nas palavras da poeta americana Edna St. Vincent Millay: «Mais preciosa era a luz em vossos olhos do que todas as rosas do mundo». O ser amado passa, então, a ter as melhores qualidades e a ser o mais belo, o mais inteligente, o mais carinhoso, o mais amável de todos os seres do mundo.   

O amor como que inebria e turva o olhar, deixando quem ama num estado difícil de descrever ou explicar, sentindo um amor capaz de vencer as barreiras da distância, do tempo ou da morte. Como diz Edgar Allan Poe, no conhecido poema Annabel Lee, através da belíssima tradução de Fernando Pessoa: «Mas o nosso amor era mais que o amor / De muitos mais velhos a amar, / De muitos de mais meditar, / E nem os anjos do céu lá em cima, / Nem demónios debaixo do mar / Poderão separar a minha alma da alma / Da linda que eu soube amar».

Poetas há, também, como Pablo Neruda, que condicionam o amor à sua durabilidade – só enquanto a amada o amar, o poeta a amará: «O meu amor alimenta-se do teu amor, / e enquanto viveres estará nos teus braços / sem sair dos meus». No momento em que a amada o deixar, o poeta deixará de amá-la. Trata-se, neste caso, de um sentimento recíproco e não unilateral, como costuma surgir, tantas vezes, na literatura; um sentimento que precisa de duas pessoas para acontecer.

É, pois, como diz o autor da frase pintada na parede, «urgente inventar o amor» e não só amar. É assim porque só amando se pode verdadeiramente desfrutar da vida.

 

Maria Eugénia Leitão

Escrito em parceria com o blogue da Letrário, Translation Services