Opiniao

A trivela

Eu sei. A verdade das verdades é que, politicamente, estamos no campeonato do mundo de futebol.

Interessará portanto menos discretear sobre os conflitos laborais, ou a dívida, ou o equilíbrio entre a receita e a despesa, ou o pobre do orçamento.

E mesmo as grandes questões que atravessam a Europa nada são perante a eliminação da Alemanha.

Que acordo existe para a reforma da zona euro? Não se sabe. A França segue para os oitavos.

Que solução conjunta se preconiza para terminar com o problema dos refugiados?

A Grécia e a Itália não se apuraram sequer. E recebem continuadamente.

E os demais?

Recebem ou empurram?

Celebram acordos silenciosos para que países africanos sirvam de grandes campos de refugiados, de zonas de triagem para afastar os indesejáveis, ou mesmo de campos de morte para quem não consegue superar os obstáculos.

A Argélia não esteve e no seu deserto morreram e morrem milhares. A Turquia não veio e vai fazendo a guerra contra uns e contra outros e recebendo os que fogem de outros e de uns.

De vez em quando, os populismos do sítio recusam os desgraçados e os ditadores de ocasião ameaçam romper os acordos.

A boa (má) consciência europeia aumenta os decibéis da denúncia e recorda os bons princípios do humanismo, da tolerância e da solidariedade. Verbera os comportamentos desviantes. Entra em acordo para acolher simbolicamente parte de umas centenas de náufragos adiados.

Pedem a intervenção do VAR para apreciar a falta. 

Muitos que estão fora de jogo assinalam o penalty.

É perigoso este jogo. 

Catarina, não a grande, corre a Bruxelas a denunciar o ministro Centeno.

Os belgas estão a jogar bem…

Ele tem dias.

É como o ministro da Ciência. Enquanto cientista protesta, enquanto ministro corta.

Aqueloutro, enquanto ministro finge que remata, enquanto presidente do Ecofin manda a bola fora.

Ora, francamente, como é que Catarina pode ser membro da claque apoiante?

Aplaude com a vontade de fazer rebentar um petardo, grita golo quando ele acontece na própria baliza, sufoca com o cachecol apertado.

Jerónimo, ao menos não. Só usa o pé esquerdo para fintar o destino.

Todos sabem como é mais fácil defrontar uma equipa desunida, em paz podre com o seu treinador, murmurando discordância, defendendo quando deve atacar e atacando quando deve defender.

Destruindo a tática, dando trunfos ao adversário, beneficiando o infrator.

Deixando no ar a ideia do grito desesperado do capitão de equipa quando convida «a quem for de mim que me siga!» e a imagem de sozinho avançar ficando todos os pretensamente seus para trás.

Todos sabem como o Mundial concorre com a inteligência artificial e prende. Como lança uma cortina de nevoeiro sobre o que interessa. Como é verdadeiramente oportuno e conveniente e bom.

Até Trump tem a oportunidade de receber Marcelo e fazer uma graça com a concorrência de Ronaldo. Até ele é chamado ao soccer. 

Pontapé, por pontapé, concorre com a Europa. Uns deixam morrer emigrantes no mar, ele ergue um muro e separa-os.

Não sabe, não pode saber tudo…

O futuro é dos criativos.

Nada resiste a uma boa trivela.

Remata-se em jeito, ganha força. Aponta-se num sentido, sai noutro.

É ela que nos salva…