Opiniao

O prazer da leitura ao ar livre

Seja na praia, no campo, na varanda de um apartamento, num jardim, numa esplanada ou no quintal lá de casa, há um lado a que poderíamos chamar ‘epicurista’ em ler fora de portas

A noite está quente e saio de casa para me instalar numa cadeira de costas reclináveis que temos no quintal. Corre uma brisa muito ligeira – as árvores em volta, que nas noites de ventania se inclinam e quase parecem espernear, encontram-se praticamente imóveis. Acima delas, enormes nuvens brancas dirigem-se com mansidão de Norte para Sul.

Tenho um livro aberto nas mãos – A Índia Portuguesa em Meados do Século XVII, de Charles R. Boxer – mas antes de iniciar a leitura lembro-me de uma conversa com um familiar, há uns anos, numa ocasião festiva. Falávamos de férias.

«Ah, o pequeno-almoço! Não há nada como o sabor dos ovos mexidos às oito da manhã num parque de campismo, cozinhados num daqueles fogõezinhos Camping Gaz», dizia ele com um entusiasmo contagiante. «Já tentei fazer em casa e noutros sítios, mas nunca têm o mesmo sabor».

Nunca comi ovos mexidos num parque de campismo. Ainda assim, sei bem o que esse familiar me estava a dizer. Ao ar livre a comida tem um sabor diferente, mais ‘aberto’, talvez mais intenso – o que é, aliás, um dos atrativos dos piqueniques. De uma coisa tenho a certeza: uma sandes comida à sombra dos pinheiros não tem o mesmo sabor que a mesma sandes comida na barafunda de um centro comercial. E as batatas fritas da praia, que parecem sempre mais salgadinhas e apaladadas?

Pois bem, tal como a comida, também a leitura ao ar livre se reveste de um encanto especial. Seja na praia, no campo, na varanda de um apartamento, num jardim, numa esplanada ou no quintal lá de casa, há um lado a que poderíamos chamar ‘epicurista’ em ler fora de portas. Enquanto percorro as páginas do livro de Charles Boxer nesta noite quente de junho, por exemplo, parece que sinto na pele a carícia de uma noite de verão indiano. E nem as melgas a zumbir-me demasiado perto dos ouvidos afastam de mim essa sensação de bem-estar. Que privilégio esta combinação rara de silêncio, temperatura amena, ar puro e um bom livro!

Lá em cima, as nuvens brancas continuam na sua rota de transumância em direção ao Sul. Vou seguir-lhes o exemplo e rumar ao Algarve. Para duas semanas de férias e – já devem ter adivinhado – de leituras ao ar livre.