Desporto

Mundial: ficou-nos curto nas mangas

A seleção nacional entrou na Rússia como campeã da Europa e saiu sem deixar saudades. Pela amostra neste Campeonato do Mundo, o futuro parece muito longe de ser brilhante.

SOCHI – Portugal foi um dos intérpretes do primeiro grande jogo deste Campeonato do Mundo, aquele inesquecível três-a-três com a Espanha que parecia ir lançar Cristiano Ronaldo para ocupar o palco do momento que falta na sua carreira. Depois, apagou-se como uma vela que se extingue devagarinho, envolto em equívocos vários e numa crua falta de talento que o mero rigor tático ou a teimosia estrutural não consegue disfarçar, principalmente quando o capitão da Seleção nacional de vê a contas com jaulas defensivas que fazem dele uma fera nervosa mas inconsequente.

Essa ferida profunda não cicatriza assim de um momento para o outro nem à custa de banhos de colódio. Não consigo alinhar na tal ordem ordenada de uma horda que promete amanhãs que cantam para a Seleção portuguesa. Não vejo brilhar nenhum sol intenso em dias vindouros tal como não o tenho visto, de há alguns anos para cá, a despeito da inegável grande conquista do Campeonato da Europa, em pleno Estádio de França, em Paris, perante a França, e que ficará para sempre, como escrevi nessa noite, num ambiente de euforia que se propagou à bancada de imprensa, na aldeia branca da nossa memória.

Parece-me que, inevitavelmente, o título europeu arrastou consigo uma série de responsabilidades que não fomos capazes de cumprir, ainda por cima discutido, diminuído, quase desprezado como foi por mais de meio mundo que, de repente, se deparou com um nova versão da Grécia de 2004. Estes dois anos que nos separavam do Mundial russo seriam uma fase de afirmação de Portugal como grande equipa, capaz de surgir por aqui com ambições sempre alvo de algum comedimento mas decididamente sustentadas. Vamos e venhamos: faltou-nos aquilo que em bom português se chama arcaboiço. E não me venham, em seguida, falar das vergonhas da Alemanha, campeão do mundo corrida a pontapés com um cão vadio, porque todos nós suportamos bem os desaires alemães desde que o kaiser tinha aquele bigode ridículo que parecia levantado à custa de balões.

O Eça tinha razão

Os portugueses têm muita queda para a resistência coletiva. Portuguesinhos valentes como o Raposão do divino Eça que foi à Terra Santa em busca de uma relíquia de Cristo para a Titi mas, metendo os pés pelas mãos, não conseguiu mais do que desembrulhar do papel pardo a pecaminosa camisa de noite da prostituta Mary.

Não vejo Ronaldo caminhar para novo. Muito menos Quaresma. E foram eles o talento único de um Portugal sem talento neste Mundial no qual se devia ter apresentado na fila principal dos verdadeiros protagonistas.

Serei pessimista, talvez. Prefiro ver-me com realista. Não há na nova geração nem Ronaldos nem Quaresmas, nem muito menos Figos e Rui Costas, nem Decos nem Maniches, escolham os nomes que escolheram que marcaram a realidade da equipa nacional de há 15 anos para cá.

Não me tragam à colação a qualidade infinita de jovens jogadores que a tendo não a exprimem. E, ao mesmo tempo, na França, um garotinho de 18 anos chamado Mbappé não perde, por sua vez, a a oportunidade de entrar de peito enfunado pelo portão dourado dos grandes nomes.

Equívocos? Sim, muitos equívocos. Não de agora. Não é de agora esse meio-campo lento e pastoso do passa e repassa mas que disso não passa. Não é de agora uma dupla de centrais que envelhece a olhos vistos e que não encontra gente que a substitua. Não é de agora que os laterais são permissivos e surpreendidos por movimentos como o que deu o primeiro golo ao Uruguai, de ponta a ponta, entre dois avançados com os quais só podemos sonhar num mundo perfeito como o nosso não é. Não é de agora a falta de imaginação e de criatividade coletiva que se limita a atirar sobre as costas largas de um Ronaldo superlativo a resolução de problemas que o conjunto nem chega a entender que existem. 

Onde está essa maravilhosa nova geração que nos irá garantir um lugar único no paradoxo universal. Renato Sanches deixou de existir; Bernardo Silva é, na direita, um menino perdido que o mar das defesas adversárias vai engolindo, vaga a vaga; Gonçalo Guedes corre sem parar sem ter bola, sem surgir na frente dos guarda-redes, sem ser nem carne nem peixe numa altura da vida na qual deveria estar transformado em lombinho do melhor.

Peço perdão pela franqueza, se ela ofende. Portugal, após o jogo com a Espanha, limitou-se a ser pífio. Teceram-se loas à forma como reagiu ao segundo golo uruguaio e eu, lá no meu lugar privilegiado da bancada de imprensa, com vista vasta para o relvado, ia, minuto a minuto, percebendo que caíra num buraco do qual não haveria saída. Mas alguém, lá nos confins da sua mais escorreita consciência, não sentiu a derrota como inevitável, irremissível? Muito bem, há por vezes golpes de fortuna inesperados, caídos do céu aos trambolhões como a distração da defesa dos celestes no golo de Pepe. Eis o facto: estávamos perante a sombra de uma equipa derrotada.

Saída triste...

Não consigo olhar para o que se passou na Rússia com a lupa do futuro, e era bom que alguém se dedicasse a isso com a acuidade de um cientista rigoroso. Não consigo, neste momento, ver um Portugal para lá de Ronaldo e este terá sido, se não certamente, provavelmente o último da sua carreira mitológica. 

Ser campeão da Europa, por si só, não traz nada mais do que a vontade contrária de nos vencerem a todo o custo. O Portugalzinho do Europeu de França, sofrido e padecido, acumulando empates e desempates, prolongamentos e penáltis e o mais que se está para saber pode muito bem ter subido ao pináculo da sua glória como seleção, mas não se tornou nem temido nem preocupante. Continuou a ser o mesmo, apesar da taça que rebrilha em tons de prata nas vitrinas da federação.

A forma como equipas menores como Marrocos ou o Irão sentiram a frustração de não saírem de campo com resultados positivos foi a imagem mais dolorosa da nossa vulnerabilidade. Volto ao Eça e à sua imarcescível sabedoria. E à frase assassina de João da Ega, n’Os Maias: «Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos da alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...»

O título de campeões da Europa fica-nos curto nas mangas, não há como negá-lo. Não retiro um milésimo de milímetro a esse triunfo incomparável de Paris. Mas há momentos em que temos de saber merecer a glória conquistada. E isso não se consegue nem com temores, nem com mezinhas, nem com a fé inabalável de que Deus, do alto da sua suprema bondade, só tem olhos para nós e não para os outros.

Portugal saiu deste Campeonato do Mundo sem deixar saudades. Alguns lamentam, obviamente, não terem um tudo nada mais de Ronaldo, esse ser benfazejo que nos eleva para lá de uma realidade banal. Regressámos a casa pior do que chegámos. Trazíamos ao pescoço a ordem lavrada de um campeão, e fomos embora como perdedores previsíveis. Olhemos o futuro pelo prisma de uma realidade insofismável. É preciso muito, muito, mas muito mais do que tem sido feito. A menos que Ronaldo tenha em si o dom de ser eterno.