Opiniao

Angola e o Partido Socialista

A viagem do líder do PSD, Rui Rio, a Angola, e sobretudo o facto de ter sido recebido pelo Presidente João Lourenço, suscitou uma vaga de comentários nos mais diversos tons.

Disse-se que foi uma provocação a António Costa, que tem uma visita agendada há meses – a qual, por isto e por aquilo, vem a ser sucessivamente adiada.

Até há poucas semanas, a razão do adiamento devia-se ao processo do ex-vice Presidente angolano Manuel Vicente, que a Justiça portuguesa pretendia julgar em Portugal.
Sempre achei esta ideia bizarra.

Faz algum sentido julgar-se em Portugal uma alta figura do Estado de outro país?
Argumenta-se que o crime foi cometido em Portugal, consistindo na suposta corrupção do procurador Orlando Figueira.
Só que esse alegado crime já resultava de outro processo em que Manuel Vicente era arguido – e que tinha que ver com dúvidas sobre a origem do dinheiro usado na compra de uns apartamentos.

Ora, aqui parece-me haver relativamente aos angolanos uma atitude diferente da que existe, por exemplo, em relação, a russos ou chineses.

A estes ninguém pergunta onde vão buscar o dinheiro – nem isso seria possível.

Julgo que os portugueses, sem eventualmente o consciencializarem, olham para os angolanos de um modo paternalista, resultante de cinco séculos de colonização.

O modo como encaramos os angolanos – para o bem e para o mal – não é o mesmo como vemos outros povos.
Achamos que temos em relação aos angolanos uma responsabilidade acrescida, não os olhamos como um povo soberano que é responsável pelo seu destino.

Se Putin, Macron ou Theresa May comprassem casa em Portugal alguém os questionaria sobre a origem do dinheiro? E passaria pela cabeça de um juiz julgá-los em Portugal?

Portanto, o envio do processo de Manuel Vicente para Angola foi um gesto de puro bom senso.

Eu também não gostaria que José Sócrates fosse julgado na Suíça por dúvidas quanto às origens dos dinheiros lá movimentados.

O lugar para José Sócrates ser julgado é Portugal – como o lugar para Manuel Vicente ser  julgado (ou não) é Angola.
Se Angola não o quiser fazer, é um problema do Estado angolano e não nosso.
Portugal facultou a Angola o que havia para facultar – o resto é com as autoridades angolanas.
É isto o que penso.

Voltando a Rui Rio e António Costa, é preciso dizer com todas as letras o que ainda não foi dito: os angolanos não gostam do Partido Socialista e dos líderes socialistas.
Sei do que falo.
Entrevistei altos responsáveis angolanos, falei com empresários e opinion makers – e todos são coincidentes num ponto: detestam o PS.

Sou certamente dos portugueses que melhor conhecem o atual Presidente da República, João Lourenço, pois fiz-lhe uma longa entrevista há cerca de 10 anos, quando ele era secretário-geral do MPLA.
Nas eleições portuguesas, os angolanos torcem sempre pela vitória do PSD – chame-se o líder Cavaco Silva, Durão Barroso, Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite, Passos Coelho ou Rui Rio.
Portanto, este convite para Rio ir a Luanda, ultrapassando António Costa, não me espanta nada.
Pelo contrário: confirma o que eu já sabia.

Esta aversão dos angolanos ao Partido Socialista vem do tempo em que Mário Soares era considerado persona non grata em Luanda, assim como toda a sua família: Maria Barroso era tida como hostil ao MPLA e o filho João Soares era considerado simpatizante da UNITA (tendo tido um desastre de avião quando vinha de um encontro com Savimbi, na Jamba).
Ora, a hostilidade à família Soares foi transferida para o PS, prolongando-se até hoje.
Recordo que António Guterres, quando era primeiro-ministro, fez uma visita a Angola e não foi recebido por José Eduardo dos Santos!
Disseram-me que a audiência esteve marcada por duas ou três vezes e que Guterres chegou a estar no Palácio da Cidade Alta, mas o encontro nunca se realizou.
Portanto, sempre que em Portugal estiver um Governo socialista não se esperem boas relações com Angola (apesar da aparente maior proximidade ideológica).
O último pretexto foi o processo de Manuel Vicente, mas a questão de fundo vem de longe.
E não vai mudar tão cedo.

P.S. – É absolutamente ridículo o país inteiro andar a discutir os 10 ou 15 lugares de estacionamento alugados a Madonna pela CML. Não simpatizo particularmente com Madonna, mas percebo que é um bom cartaz turístico para Lisboa ela ter vindo para cá  viver. Até seria bom que mais figuras ilustres cá viessem instalar-se. Mas, com polémicas como estas, quem terá vontade de o fazer? É um caso em que a mesquinhez nacional, a mediocridade e a inveja se revelam em todo o seu esplendor.