Opiniao

A miséria humana

Pai e filho foram com uma rapariga de 16 anos para um quarto de hotel, depois de uma festa, e mantiveram ambos com ela demoradas relações sexuais 

Estando a criminalidade a aumentar ou diminuir, a verdade é que os jornais vêm hoje repletos de notícias de burlas, roubos, assaltos à mão armada, carjackings, assassínios a sangue-frio, crimes passionais. 

Estes últimos já quase se banalizaram. Com terrível frequência, vemos homens a matarem as mulheres que os querem deixar ou trocar por outros. Parece que a pior coisa que pode acontecer a um homem é ser rejeitado pela mulher ou namorada. 

Mesmo homens que saíram de casa e deixaram as mulheres com quem viviam não aceitam que estas sigam a sua vida e iniciem outras relações. Quantos homens não matam as mulheres que tinham abandonado por estas começarem a viver com outras pessoas? Não é o amor que os move – é a autoestima ferida do macho, que não aceita ver-se substituído. Antes, as mulheres não lhes serviam; depois de os trocarem por outros, tornam-se objeto da sua raiva. 

Mas no meio desta panóplia de crimes que diariamente acontecem, há uns que nos chocam particularmente. 

Há cerca de um mês li uma notícia que me chamou de imediato a atenção. Um emigrante que acabara de chegar do estrangeiro (julgo que da Suíça) para se casar em Portugal foi preso pela Polícia Judiciária. Porquê? Pela suspeita de ter participado há cerca de dois anos, antes de sair do país, num crime de abusos sexuais a uma rapariga de 16 anos, num quarto de hotel em Viana do Castelo.

Dita assim, a notícia não é particularmente chocante. Eram ambos jovens, ele tinha 21 anos, ela era cinco anos mais nova mas já não era propriamente uma criança, e as relações até poderiam ter acontecido de comum acordo – embora a rapariga depois se queixasse.

Só que a história, desgraçadamente, não acaba aqui. É que a jovem, além de ser abusada pelo rapaz, foi também repetidamente abusada na mesma ocasião pelo pai deste, de 43 anos! Ou seja: pai e filho foram com a rapariga de 16 anos para um quarto de hotel, depois de uma festa, e mantiveram ambos com ela demoradas relações sexuais.

Ora, mesmo que as relações tivessem sido consentidas, o episódio seria sempre terrivelmente chocante. Pai e filho a terem relações sexuais à frente um do outro num quarto de hotel, de um modo prolongado no tempo, é um episódio difícil de imaginar. Em que a promiscuidade atinge um nível miserável.

Há famílias em que os pais andam nus em casa à frente dos filhos. Na minha família isso nunca aconteceu. Os meus pais nunca andaram nus em casa. Passei com o meu pai e os meus irmãos férias em parques de campismo, fizemos campismo selvagem, e nunca o meu pai se apresentou nu à nossa frente. Havia da parte dele um pudor natural. Fazia parte de uma certa distância que entendia dever estabelecer em relação aos filhos para não perder a ‘respeitabilidade’. 

Note-se que os nossos pais não eram nenhuns botas-de-elástico. Não eram pais austeros nem nos obrigavam a viver fechados, como num convento. Pelo contrário: eram pessoas abertas, modernas, progressistas. Mas havia linhas que não transpunham. Nem eles nem nós. E uma dessas linhas era a preservação da intimidade. 

Por isso, ainda mais impressão me fez ler essa notícia do abuso da rapariga por pai e filho no mesmo quarto de hotel. Abusar sexualmente de uma jovem de 16 anos – ou de qualquer outra idade – já é muito mau. Esse abuso ser praticado por duas pessoas é ainda pior – porque a jovem fica colocada numa situação mais humilhante e até mais intimidante. Agora, que essas duas pessoas sejam pai e filho, é simplesmente medonho.

É medonho para a rapariga saber que está a ser abusada por um pai e um filho. É medonho que o pai faça tal coisa à frente do filho, dando-lhe um exemplo deplorável. Finalmente, é medonho que o filho não tenha vergonha de cometer abusos sexuais à frente do pai.

É um daqueles episódios em que a miséria humana se revela em todo o seu esplendor. E que nenhuma pena é suficiente para condenar – porque a grande condenação tem de vir dos próprios, do seu íntimo, reconhecendo a enormidade que cometeram.