Opiniao

Sem sombra como Peter Pan

Stabile, o primeiro jogador a fazer um hat-trick  num Mundial, foi tão invisível para  os defesas adversários como para o canalha Uriburu

Na esquina que fica entre as ruas de Monteagudo e de Caseros, no Barrio de Parque Patricios, em Buenos Aires, abundavam os ‘mataderos’ aos quais também chamavam de ‘corrales’. Foi aí que nasceu um miúdo enfezado, de mãe crioula e pai de ascendência italiana, chamado Guillermo. O fedelho era de tal forma escasso de carne e de músculo que, quando começou a jogar futebol no Sportivo Metán, o treinador para o poupar à dureza dos adversários o destacou para ponta-esquecida, lá na mais direita de todas as direitas, praticamente já fora da linha lateral.

Guillermo podia muito bem ser um feixe de ossos e cartilagens mas tinha coragem para dar e vender, de Parque Patricios até Las Barracas, já muito na fronteira da linha de comboio que bordeja La Bombonera, o estádio do Boca Juniors. Só que ele tinha o coração no Huracan. E com apenas 18 anos disputou contra o Boca, no campo neutro do Sportivo Barracas, a segunda final do campeonato. Já tinha uma alcunha: El Filtrador. E apelido na praça:Stabile.

Lameu, o avançado-centro do Huracan, estava lesionado. Stabile jogou na frente, ladeado por Loyzo e Rodriguez na direita e por Chiesa e Onzari na esquerda. E, vamos e venhamos: não jogou lá grande espiga. Mas o lugar passou a ser dele, trinca-espinhas e tudo.

Guillermo Stabile foi um daqueles avançados que fogem às definições mais simplistas. Era, basicamente, uma sombra. Ele que sendo tão, tão magro praticamente nem sombra tinha. Ou talvez a sombra resolvesse abandoná-lo como aconteceu com Peter Pan, o rapazinho-que-não-queria-crescer. Além do mais, o corpo desmedrado não lhe guardava espaço para as complicações labirínticas do sistema nervoso. Era de tal forma tranquilo e calmo que parecia anestesiado, e isso não é muito normal num argentino, ainda por cima de Parque Patricios onde se esquartejavam bois inteiros a golpes de cutelo.

Conta-se, aliás, que a sua afirmação na seleção argentina ficou a dever-se a um ataque de histerismo. Não dele, claro, que vivia com a ledice de quem anda pelo mundo como se fosse num prado, colhendo lírios entre os abrolhos. Mas já lá vou.

A Argentina viajou para o primeiro Campeonato do Mundo da história, em 1930, nas vésperas de um terrível golpe de Estado encabeçado por José Félix Benito Uriburu Uriburu, e que deu início à que ficou conhecida pela Década Infame. Bem podem dizer-me que golpes de Estado na América do Sul são tão corriqueiros como suicídios na Noruega, mas não deixei passar a coisa em claro, por uma questão de príncipio. Um canalha é sempre um canalha mesmo que tenha um nome tão burlesco como Uriburu, e a dobrar. 

Francisco Olazar era o treinador de uma seleção que defendia o prestígio de ter jogado a final do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos, dois anos antes, perdendo precisamente para o vizinho do outro lado do Rio da Prata. A estreia foi contra a França, que goleara (4-1) o México no jogo de abertura, e a confusão generalizou-se: à beira do final, com o resultado em 1-0, o francês Langiller desarvorou pelo meio campo dos argentinos e ia fazer um empate fácil quando o árbitro brasileiro, Almeida Rego, decidiu pôr um ponto final na brincadeira. E completamente final: perante a incredulidade de toda a gente, acabou a partida. Os adeptos uruguaios que, como é óbvio, torciam contra os argentinos, escabrearam por completo. Saltaram para dentro do campo e obrigaram o tal de Rego a dar mais cinco minutos. De nada serviu. Langiller não voltou a ter oportunidade de se escapulir e a Argentina ganhou na trampolinice.
Mas a invasão da turbamulta mexeu e muito com neurastenia de Roberto Cherro, o goleador-mor do Boca Juniors e titularíssimo da seleção de Olazar. Pois: azar o dele. Porteño que é porteño é macho e não atura chiliques mais próprio de moçoila lipotímica. Cherro saiu da equipa; era a vez de Stabile.

Guillermo Stabile entrou em campo contra o México como se fosse invisível. Está bem que era, como gosta de dizer a malta de Alcântara, um finguelinha, com pouco mais de cinquenta quilos no corpo de miúdo traquinas, mas devia haver limites para tanta impudicícia. Atravessava adversários com a pressa de quem quer viver num instante, morrer cedo e ser um cadáver bonito, algo que, definitivamente, não consegiu. Marcou três golos e ficou para sempre como o primeiro a ter o descaro de o fazer numa fase final de um Campeonato do Mundo. E foi por aí fora até à protérvia. Mais dois ao Chile, outros dois aos Estados Unidos e um na final, ao Uruguai, que não evitou a derrota por 2-4.

Um mês depois, estava na Europa, em Itália. Jogou no Génova, recusou a Juventus, e fugiu à incorporação em massa dos italo-argentinos no exército de Mussolini que partiu à conquista da Etiópia. Viveu em Paris, ainda passou pelo Red Star, e o canalha Uriburo Uriburo nunca lhe pôs a vista em cima. Também para ele foi invisível, como era para os defesas contrários.