Sociedade

A nova vida do Hospital de São Marcos

Edifício icónico de Braga que foi em tempos um convento de Templários, albergarias e, ao longo de séculos, um hospital abriu este ano portas como hotel

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Dormir, comer, beber, nadar ou ir a um spa num edifício com mais de 500 anos de história não é para todos. Mas hoje, se rumarmos ao norte do país, já é possível passarmos horas ou dias de lazer num edifício que acolhe agora um hotel e que já foi em tempos um convento da Ordem dos Templários, um hospital público e uma escola de enfermagem. 

A história do antigo Hospital de São Marcos, que era a unidade pública hospitalar de Braga, remonta ao século XII. Mas o edifício icónico barroco, que está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1956, só começou a ser construído em 1508 por ordem do então arcebispo de Braga, D. Diogo de Sousa. Na altura, a sua função inicial foi substituir pequenas albergarias que existiam na cidade que é apontada como a mais antiga de Portugal, com mais de dois mil anos. Mas pouco tempo depois, foi ali que nasceu o primeiro hospital de Braga - com várias ligações a arcebispos e ao ensino na saúde - que era gerido pela câmara municipal.  

Antes disso, no edifício que foi construído onde existia uma ermida dedicada a São Marcos, com data do século XII, funcionou como um convento templário que foi extinto em 1312. 

E a ligação daquele local ao culto nunca desapareceu. 

Ao longo dos anos o edifício foi sendo ampliado e só mais de 300 anos depois, em 1836, ficou concluída a estrutura do edifício que hoje se conhece. Nesse ano ficaram concluídas as obras da igreja que ocupa o centro do edifício que é ladeado por dois corpos do antigo hospital. Mas, 30 anos antes das obras da igreja terminarem, já eram celebradas missas no local, onde se acredita estarem depositadas as relíquias de São Marcos. Ainda hoje a igreja, que tem de um lado um hotel e de outro uma farmácia, está em funcionamento.       

Nesse ano, em 1836, há muito que a gestão do hospital tinha passado para as mãos da Misericórdia. Em 1559, Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga e provedor da Misericórdia, considerou o que a autarquia administrava mal o Hospital de São Marcos entregando-o à Santa Casa da Misericórdia de Braga, que o geriu até 1975. 

As primeiras ligações do hospital ao ensino data de 1798, quando foi criada uma Escola Cirúrgica por iniciativa de Frei Caetano Brandão, um jesuíta regressado do Brasil e que era o arcebispo de Braga, em 1790.

Mais tarde, em 1875, foi reforçada a ligação do hospital à religião com a congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição a apoiar os cuidados de saúde. 

Pulando para os anos do século XX e depois de várias ampliações o hospital - que em 2007 contava  com 521 camas ativas, incluindo 37 camas do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental - acolheu também a Escola de Enfermagem e um Lar de Enfermeiras. A escola foi inaugurada em 1961 na presença do então chefe de Estado, Américo Tomás, e do ministro da Saúde e Assistência, Henrique Martins de Carvalho. 

Nos últimos sete anos o hospital estava desativado depois de em 2011 o grupo José de Mello Saúde ter transferido a unidade hospitalar para um edifício construído de raiz. Só em 2018 o antigo Hospital São Marcos ganhou uma nova vida. 

O grupo Vila Galé não ficou indiferente à vasta história do edifício onde apenas continuava em funcionamento a igreja. Foi então que um dos maiores grupos hoteleiros do país, que celebram este ano o 30.º aniversário, decidiu concessionar o hospital à Santa Casa para o transformar num hotel de quatro estrelas, num investimento que rondou cerca de oito milhões de euros. O edifício, que fica no coração de Braga, reabriu portas a 9 de junho mantendo a traça antiga mas com espaço para o moderno que não esquece a ligação aos arcebispos de Braga e à história de Portugal.    

Apesar dos quartos e dos espaços decorados com o estilo contemporâneo, enquanto se percorrem os corredores e o claustro do hotel, são vários os sinais da antiga vida do Hospital de São Marcos. 

São ainda visíveis nas paredes e no chão várias placas com datas remotas com honras de serviço aos médicos, enfermeiros, assistentes ou a freiras que ali ensinaram ou prestaram cuidados de saúde. É o caso da sala onde hoje funcionam o restaurante e o refeitório do hotel, que à entrada tem uma placa de pedra na parede a assinalar que ali era o bloco operatório. Encontram-se também os antigos bancos de madeira das salas de espera ou dos corredores onde em tempos funcionavam os consultórios.