Opiniao

Deixem-se de histórias

Costa diz que o PS  ‘não é a Carochinha’. Rio nega ter  ‘cara de João Ratão’. Eles lá sabem por que o dizem

Nem o PS nem o PSD têm congresso antes das próximas legislativas, marcadas o mais tardar para outubro de 2019.

O que quer dizer que tanto PS como PSD já definiram e sufragaram as estratégias das respetivas direções e lideranças para esse combate eleitoral, incluindo as políticas de eventuais alianças num quadro em que dessas eleições não resulte uma maioria absoluta de um só partido.

Em tese, seria assim. Se é ou não, na hora se verá.

Mas, seja como for, é patético que os líderes dos dois maiores partidos portugueses, PSD e PS, andem por aí a desdobrar-se em declarações, como o fizeram esta semana, diabolizando o ‘bloco central’, ora dizendo um que não é «a Carochinha», ora negando o outro ter «cara de João Ratão» – até porque, refletindo sobre as declarações de um e de outro e olhando bem para ambos, se calhar, lá saberão eles por que terão tanta necessidade de andar a dizer o que dizem.

Quanto ao PS, depois do Congresso de Guimarães, ficou claro que António Costa não tem margem para recentrar o partido e libertar-se das grilhetas da esquerda a que se autocondenou para conquistar o poder após a derrota nas eleições passadas.

Se a ‘geringonça’ foi a fórmula mágica para António Costa formar Governo e derrubar Passos Coelho, foi também a boia de salvação a que se agarrou para, obviamente, não ser apeado da liderança do PS – da qual ele próprio apeara António José Seguro à guisa de este ter ganho ‘por poucochinho’ nas eleições europeias anteriores.

E o partido, como ficou bem demonstrado em Guimarães pela recetividade e ovação ao discurso de Pedro Nuno Santos, aí está para cobrar a fatura ao líder. 

Sim, António Costa ficou, mas amarrado à esquerda do partido, e para além do partido, e ao caminho que ele próprio desbravou e trilhou em 2015 e que o PS sufragou.

É por isso que, agora, quando Costa mandou avançar o seu ponta de lança, Augusto Santos Silva, na tentativa de soltar as amarras com BE e PCP e de recentrar o PS, e procurando estabelecer pontes para uma eventual solução de entendimento com o PSD de Rui Rio, logo se levantaram as vozes da esquerda socialista.

E é com isso que António Costa pode contar após outubro de 2019, se o PS não tiver maioria absoluta ou não garantir maioria parlamentar com o BE e cair na tentação de procurar negociar condições de governabilidade com o PSD de Rui Rio.

Mas se o ‘bloco central’ ameaça fazer cair o Carmo no PS, não faz tremer menos a Trindade no PSD.

Basta ver a rebelião parlamentar que imediatamente se preparou quando alguém ousou fazer circular que Rio admitia viabilizar o Orçamento de Estado para 2019.

À pressa, lá veio o líder social-democrata dizer que mudou a maneira de fazer política no partido e, agora, com ele, se não se diz à partida que o PSD vai chumbar a proposta de OE para 2019 é porque no ‘seu’ partido não se diz qual o sentido de voto antes de existirem propostas concretas e documentalmente suportadas.

Como se Rui Rio estivesse à espera que o PS apresentasse uma proposta de Orçamento passível de ser viabilizada pela bancada parlamentar do PSD.

É certo que para os opositores de Rio no interior do partido o ‘bloco central’ é visto como a boia de salvação a que ele tentará agarrar-se se tiver a mesma sorte – ou pior – que António Costa em 2015.

A expectativa de PSD e CDS somarem mais mandatos do que a esquerda unida é, pelo menos até agora, nula e Rio dificilmente sobreviverá politicamente a uma derrota nas legislativas – a não ser que, a exemplo do que Costa conseguiu em 2015, ainda assim consiga levar o partido ao poder, mesmo que seja a reboque do PS.

Mas pode o PSD voltar a servir de muleta ao PS, tal como aconteceu nos anos 80, com Soares e Mota Pinto?

Apesar de não faltarem defensores da solução, não pode!

O bloco central, como reconhecem, e bem, António Costa e Rui Rio, só se justifica num quadro verdadeiramente excecional, de emergência nacional, que mesmo para os mais céticos não está no horizonte próximo, ou, pelo menos, até outubro de 2019.

Daí que, embora os sound bytes da «Carochinha» e do «João Ratão» alimentem os noticiários e as redes sociais, Costa e Rio deviam deixar-se de histórias e mudar mesmo de maneira de fazer política.

Com mais seriedade e menos diversão.