Cultura

Pearl Jam: ser ou estar Alive?

Pela terceira vez no festival a que dão nome, os Pearl Jam já foram assimilados pelo mercado da saudade mas continuam a conquistar plateias graças à revolta dos anos 90.

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Em 2007, nascia o Alive. Já com o patrocinador que se mantém fiel mas ainda sem primeiro nome a amparalhar-lhe as ambições. Era um cartaz de fazer inveja. White Stripes (primeiro e único concerto em Portugal), Beastie Boys (idem, embora na noite seguinte tenham repetido a dose na Aula Magna), os regressados Smashing Pumpkins, Linkin Park e...Pearl Jam.

‘Alive, i’mstill alive’, o hino do álbum Ten, um dos pináculos do património rock de 1991, batizava involuntariamete o festival. Seria a primeira de três visitas. Ou três cartazes à beira da estrada dominados pela banda que é de Seattle mas também é de todo o mundo e para toda a gente. 

Estes Pearl Jam superaram todas as provas do tempo graças a uma fidelidade inviolável aos fãs, a concertos míticos e, claro, a hinos que o tempo não destruiu. Quando se fala na revolta dos anos 90, convém não perder de vista que Ten, o rochedo desse tempo, está a três anos de completar trinta; que se os anos 90 tardaram em dominar o mercado da saudade, não foi por bandas como os Pearl Jam que se mantiveram fiéis à sua matriz de rock combativo, embora, neste século, tenham revelado outra sensibilidade para escrever canções de amor ou reinventar outras como ‘Last Kiss’.
A passagem do tempo deixou-os orfãos, ou quase, enquanto banda de guitarras para grandes ajuntamentos. Eddie Vedder é o último dos ícones de Seattle – partiram Eddie Vedder (1994), Layne Staley (2002) e Chris Cornell (2017). Por isso, estes Pearl Jam são um derradeiro bastião de algo suficientemente poderoso para esgotar milhares de bilhetes em dias e arrastar 55 mil pessoas a Algés – fora todas as que não conseguiram garantir ingresso, nem num cada vez mais especulativo e crescente mercado negro.

A banda que hoje sobe ao palco NOS pelas 23h15 não tem um álbum novo para mostrar. O derradeiro, Lightning Bolt, data de 2013 e é irrelevante para o caso. Mas tem um single deste ano – ‘Can’t Deny Me’ – dedicado ao saco de boxe mais apetecível e justificado. Nada mais, nada menos que o Presidente dos EUA Donald Trump, a quem os Pearl Jam têm deixado repetidos recados desde a campanha que o elegeu.

‘The higher, the farther, the faster you fly / You may be rich but you can’t deny me / Got nothing, got nothing but the will to survive / You can’t control and you can’t deny me’, solta Eddie Vedder na canção. E há três dias no festival Rock Werchter, na Bélgica, um momento solitário de Eddie Vedder em palco serviu para chamar o marujo Jack Johnson ao palco para acompanhar o hino ‘Imagine’ de John Lennon. «Tentamos ser otimistas mesmo quando vemos notícias terríveis e não podemos acreditar que aquilo é real», lamentou Eddie Vedder. «As pessoas podem dar-se bem, de todas as nacionalidades, educação, classes sociais...». O vocalista dos Pearl Jam aludia ao projeto-lei de Trump para os imigrantes em que era proposta a separação de pais e filhos. 

Hoje, é provável que o líder da Casa Branca volte a estar debaixo de fogo. A idade e o amadurecimento nunca abateram a luta por causas. Os Pearl Jam e Eddie Vedder são conhecidos ativistas por causas ambientais, como a defesa das praias e dos oceanos, já receberam um prémio por se preocuparem com as emissões de dióxido de carbono enquanto estão na estrada e, com frequência, participam em acções solidárias, além de doarem fundos a instituições de cariz social.

Sim, é tudo rock’n’roll e 55 mil pessoas aguardam há meses por reviver o passado mas ainda há utopias por tornar reais.