Cultura

Super Bock Super Rock, dia 2: Há muito tempo que não se ouvia uma noite de rock assim

Slow J esmagou. Anderson.Paak conquistou. Travis Scott incendiou. A segunda noite do SBSR mostrou de que fibra é feito o rock do nosso tempo.

Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes

Slow J, cada vez maior e melhor

Três anos, três palcos para Slow J e sempre em ascenção. Há dois anos, já havia "Vida Boa" mas ainda não havia "The Art of Slowing Down", o clássico instantâneo, e o palco Antena 3 já era curto para tanta vontade de deixar marca.

No ano passado, o palco EDP foi uma assoalhada à medida do crescimento de alguém que é diferente dos outros. E este ano, o Palco Super Bock foi a casa certa para o alastrar de uma relação sincera entre música e público de alguém que, por contraste com a sua geração, não vive escravo das redes sociais. 

Durante o dia, alguns discursos emotivos antecipavam um dia histórico para o hip-hop. A resistência dos maiores festivais portugueses à mudança dá razão a esta teoria mas o que está em causa é a democratização do hip-hop e não a segmentação sustentada pelo crescimento da comunidade.

A principal razão da abrangência de Slow J é, além do talento ímpar, a rutura com fronteiras. Vimo-lo entrar em palco à guitarra na explosiva "Arte" - uma declaração de intenções de energia punk.

Pouco passa das oito horas e o Altice Arena já está tão composto como na noite anterior para os xx. O público sabe-a toda. 

A casa ficou maior e o concerto evoluiu na mesma medida. "The Art Of Slowing Down" é o miolo, mas as colaborações são aproveitadas.

Nerve é recebido calorosamente na doméstica "Às Vezes"; "Water" de Richie Campbell recebe o protagonista, a tempo de viajar para o MEO Marés Vivas à noite; em dia do 43º aniversário, Carlão e Slow J estreiam um dueto a ser editado do primeiro. "Um sonho", confessa Slow J que introduzira a canção (presumivelmente chamada "Hoje Não") recordando ter visto Carlão (Da Weasel) no primeiro festival a que foi - uma abada aos Red Hot Chili Peppers no Rock In Rio 2006.

O protegido Papillon e Plutónio ganham a frente em "Oxalá". E hão-de voltar no encore futebolístico "Nunca Pares".

É um concerto nada previsível, arriscado, dinâmico, com travagens e acelerações. Serenidade e euforia.

"Casa", o mais importante escrito recente da música portuguesa, ganha um final funaná. E "Vida Boa" une um pavilhão inteiro.

E pensar que este ainda é o começo da estrada para Slow J. Sobra visão, ambição e evolução - enquanto "The Art Of Slowing Down" é a obra de um homem quase sempre só, é evidente a vontade de unir esforços e agregar pessoas.

O maior talento de uma geração tem tudo para ser cada vez maior, sem deixar de ser melhor. Um dia, este pavilhão será só dele, como foi dos Da Weasel e, este ano, de Richie Campbell. 

Um todo chamado Anderson.Paak

Ele tem o coração da soul. Os ensinamentos de Dr. Dre. Toca bateria como Dave Grohl. E até dança.

Anderson.Paak estreou-se neste mesmo pavilhão na primeira parte de Bruno Mars, mas faltava um concerto em nome próprio para confirmar as suspeitas. E depois de vermos os dois no espaço de um mês, pobre de Bruno Mars a quem não falta nada a não ser o mais importante: uma identidade musical cativante e sedutora.

"Bubblin'", o novo single, ganha forças em palco. Ouvem-se "Heart Don't Stand a Chance", "Come Down" e "Lyk Dis" dos Nx Worries, a sociedade com o produtor Knxwledge.

Prova, lá está, de que o hip-hop é um género permeável e flexível, há inúmeras referências e citações musicais para quebrar preconceitos - num tempo como este de nacionalismos radicais, a liberdade é a única via possível para a permissão. 

Às tantas, Paak sai do palco e entrega o comando ao teclista. Este começa em "Cantaloupe Island" de Herbie Hancock, recria "N*ggas In Paris", ao piano e reconstrói "Pony" de Ginuwine com a ajuda de uma talk-box.

"Am I Wrong", o single cabeça de cartaz, é encurtado por um solo de bateria mas o compromisso com uma sala quase lotada não se perde. A média de idades é baixa - sinal de que, para as gerações recentes, este é o rock do Séc. XXI. Chame-se hip-hop, trap ou outra coisa qualquer.

Há público, há festa, há compromisso e identificação. Chega de saudade e de Alice In Chains.

Travis Scott, o espalha-brasas

A passagem de Future no ano passado ainda não fora bem digerida. E havia dúvidas sobre Travis Scott.

A fasquia fora elevada por Slow J e Anderson.Paak a um nível altíssimo - o mais alto de uma noite em festivais portugueses este ano. Do alto de um cubo digital, uma cabeça assoma. Apagam-se as luzes e o rapper surge em palco.

Do ponto de vista musical, é o concerto mais pobre da noite mas, para o caso, pouco importa. Scott é sobretudo um megafone em permanente incitamento.

Evitavam-se os canhões de fumos e os tiros a cada quebra - clichés que a ala dura do hip-hop precisa de deixar para trás com urgência. Mas há outras coisas para ver.

Há corredores e moche, energia transbordante, ferocidade e conhecimento de causa. O ambiente é insano. Se isto não é punk, o que será?

"Butterfly" deita a casa abaixo. Precedida por uma brincadeira com um telefone, "Pick Up The Phone" deixa o pavilhão em êxtase. E, no meio do pavilhão, "Goosebumps" é causa e consequência.

Em educação musical, a nota é baixa mas em sociologia, continuamos no domínio da história porque uma noite como esta ainda é pouco usual. Não chegou à perfeição de há dois anos, com Kendrick Lamar, mas esteve quase.