Opiniao

Casamento de conveniência...

Santos Silva elevou a fasquia para a repetição da ‘geringonça’ e foi substituído por Siza Vieira

Houve tempo em que o debate sobre o ‘estado da Nação’ era um ato sério de prestação de contas do exercício pelo Governo e uma oportunidade para as oposições questionarem as opções feitas e os resultados obtidos.
Quem tenha acompanhado o último terá ficado com a penosa sensação de que os parceiros da ‘geringonça’ – já assumida no discurso oficial – transformaram a avaliação num romance cor-de-rosa, onde se cruzaram ‘juras de amor’ com a rejeição de quaisquer tentações ‘extraconjugais’...

Apesar da solução inédita, ninguém de boa-fé conseguiria antecipar tais ‘jogos de alcova’, sob os auspícios de S. Bento. 
Foi um exercício de encantamento mútuo, ao qual não faltou sequer um ‘piscar de olho’ de Catarina Martins, depois de um seu ‘pajem’ ter lançado uma arrebatada pergunta: será que «o coração do primeiro-ministro contempla a geringonça?». 
Percebeu-se que o Bloco acha que é tempo de ‘dar o nó’ num futuro próximo, talvez para abrir caminho ao ‘namoro’ de Mariana Mortágua com as Finanças, profetizado pelo ‘oráculo’ Francisco Louçã.

Quem ainda tencionasse saber como está a Nação ficou na mesma. A infantilização da política tem horror ao debate de ideias.    

A degradação da escola e dos hospitais públicos, a ‘guerrilha’ dos professores, as incertezas e barafundas na Justiça, as condições precárias do transporte ferroviário ou o esgotamento do aeroporto da Portela ficaram no tinteiro. E a enorme dívida pública também, como se fosse irrelevante a intenção do BCE de ‘fechar a torneira’, quando o crescimento económico não passa de anémico (dos 28 países da União, há 20 que vão crescer este ano mais do que Portugal). 

Como disse Fernando Negrão, mais assertivo do que é costume, a «propaganda» do Governo tem um problema, «que é essa coisa incómoda chamada realidade».
E a realidade esteve ausente ou esfumou-se no hemiciclo. No ’país das maravilhas’ de que nos falam, mandam os sindicatos, mandam as corporações, obedecem e pagam os mesmos.     

O que importou a António Costa foi controlar os ‘danos colaterais’ provocados pela declaração de Santos Silva, que – excedendo ou não o que fora combinado – elevou a fasquia para a repetição da ‘geringonça’, deixando o PCP e o BE atormentados com questões ‘identitárias’.  

Acabou ‘castigado’ no ‘banco dos suplentes’, enquanto um recém-chegado ao Governo, Pedro Siza Vieira, ainda ministro por ser amigo de António Costa (já que ’distraído’ em matéria de incompatibilidades e tardio na escusa sobre a OPA da EDP) cumpriu o ritual de fecho do debate. A ética republicana não os apoquenta. 

O diagnóstico do ‘estado da Nação’ converteu-se no exame ao ‘estado da geringonça’, ou, como reagiu Fernando Negrão, «o seu ministro pôs a sua tão amada solução governativa nos cuidados intensivos».
À cautela, Costa garantiu que «a ‘geringonça’ está não só no nosso coração como na nossa cabeça».

À parte estes ‘mimos’, faltou a avaliação urgente do país, sujeito a cativações cegas que têm vindo a deteriorar os serviços públicos, cujos quadros são inflacionados com ‘boys’ e ‘girls’ – muitos em regime de ‘substituição’, para contornar a regra dos concursos e garantir votos. 

O Estado continua a ser o grande empregador e a despesa não pára de aumentar. A austeridade continua sentada connosco à mesa, encoberta por impostos indiretos, taxas e taxinhas, que agravam a fatura do contribuinte. 

Onde o Governo é eficaz é na propaganda, como já acontecera com Sócrates.  
De facto, o último Inquérito Social Europeu, realizado em finais de 2016, revela uma melhoria no ‘estado de alma’ dos portugueses, que se sentem mais felizes… 
Embora Portugal apareça numa posição intermédia ou abaixo da média nos principais índices de bem-estar, recupera no otimismo, a benefício de uma opinião favorável ao Governo. A memória é curta.  
Ou seja; estamos pior em não poucos setores – com o Serviço Nacional de Saúde à cabeça –, mas os portugueses sentem-se melhor. Um paradoxo.  
O ‘idílio’ contranatura anestesia quase tanto como o futebol. O ‘estado da Nação’ deu nisto: partilha de ‘afetos’ e muita festa. Haja pão e circo…

Nota em rodapé: O Presidente da República reafirmou, preocupado, «a exigência de esclarecimento cabal do ocorrido com armamento em Tancos». Marques Mendes, conselheiro de Estado, comentou o assunto na SIC como «uma vergonha nacional». Contudo, nem o ministro da Defesa nem o chefe do Estado-Maior do Exército se demitiram ou foram demitidos. 
O ex-ministro Manuel Pinho foi ouvido no Parlamento e aos costumes disse nada. Outra «vergonha» que pesa sobre o PS. Suspeita-se que António Costa esteja quase a ir de férias…

Nota em rodapé 2: Este Pátio das Cantigas também vai de férias. Reaparece no próximo dia 11 de agosto.