Speakers’ Corner

Trump first

A Arte da Negociação (1987) é uma epopeia biográfica dos vastos talentos do Presidente americano. Donald Trump quer o pedestal de Sun Tzu: o primeiro está para o negócio como o segundo está para a guerra.

Nas mini-recensões de contracapa, lugar de elogio fácil, lê-se que Trump «é um negociador no mesmo sentido em que os leões são carnívoros e a água é molhada» (cortesia do Chicago Tribune). Olhando para o que se passou em Helsínquia na cimeira com Vladimir Putin, o leão perdeu o apetite.  

Putin quer paridade da Rússia com os EUA. Trump dá-lhe isso. 

Putin quer deixar andar a sua política de desconstrução europeia. Trump faz isso pelo Kremlin. 

Putin quer manter em aberto todas as opções no ‘estrangeiro próximo’. Trump serve-lhe um rodízio estratégico em bandeja de prata. 

Parece mais servidão que negociação. 

Que tipo de ascendente é que Putin tem sobre Trump? Como é que o ganhou? Como é que chegamos ao ponto em que o Presidente americano é o principal detonador das instituições e dos interesses do seu próprio país? Como é que o partido de Reagan e D. Eisenhower chegou a isto? Perguntas como estas ocuparam boa parte do espaço público norte-americano. E não terão resposta em breve. 

As teses conspirativas são sempre uma explicação possível para o descalabro de Trump. Elas serão também as que menos nos permitem ver a realidade. 

O falhanço de Trump em matéria de política externa (tornada profecia autor realizável) deve-se a uma conjugação explosiva de três ingredientes: ideias radicais, ausência de método e estilo errático.  

Primeiro as ideias. A doutrina Trump, o ‘América First’, é definida em termos mercantilistas e unilaterais. Os aliados ou adversários definem-se não por valores (como a liberdade ou a democracia) mas pelo peso nos pratos da balança comercial. Alemanha e UE, porque apresentam excedentes comerciais na relação com os EUA, são inimigos. Ao mesmo tempo, Trump compreendeu que o poder americano é mais ostensivo fora do contexto multilateral. Desfazer essa ordem, que ele reputa como uma construção das elites liberais, é uma prioridade. 

Segundo, o método. Para quem procura avanços decisivos na agenda diplomática, cimeiras como a de Helsínquia exigem meses de preparação e trocas intensas de comunicações entre os staffs presidenciais. Como se confirmou em Singapura, na espalhafatosa mas inconsequente cimeira com Kim Jong Un, não é exatamente isso que move Trump. Interessa-lhe o espetáculo de demonstração de poder como instrumento de manobra política doméstica. Não é por acaso que cada viagem começa com o Air Force One a disparar tweets com chantagens, insultos ou ameaças aos interlocutores. 

Com Trump só há uma regra: o desafio de todas as regras de conduta presidencial. 

Terceiro, o estilo. Os americanos, que gostam de contar tudo, concluíram que a palavra mais usada por Trump em toda a corrida eleitoral foi «eu», seguida de «muito» e «tremendo». Apanhou o padrão? O elogio é predicado de todo o sujeito Trump. 

«Ninguém faz muros melhores do que eu», «ninguém respeita as mulheres como eu», «ninguém sabe mais de comércio do que eu». A retórica trumpiana é pobre e repetitiva, caminha em frases curtas e pausas longas, tem pouca paixão pela gramática e muito amor pela hipérbole. Em casa funciona. Mas na arena diplomática, onde todas as palavras são calibradas, a conversa é outra. O estilo caótico de Trump é moralmente perigoso (porque beneficia os infratores) e autodestrutivo (porque fragiliza a liderança americana no mundo).

Como o livro, pelo menos o discurso tem a vantagem de nos revelar o verdadeiro projeto político do Presidente: ‘Trump first’.

É com isso que o mundo tem de lidar nos próximos anos.