Opiniao

AVC – Desleixo ou desespero?

Sendo sabido que a prevenção é possível, qual a razão para se deixar instalar uma doença que pode matar?

Ao passar os olhos há poucos meses pela revista da Ordem dos Médicos, uma notícia despertou-me a atenção. 

O título, muito elucidativo, convidava a uma análise mais profunda: Temos que ser nós, os 10 milhões de portugueses, a evitar o AVC. Esta afirmação foi proferida durante os trabalhos do 12.º Congresso Português do AVC que decorreu no Porto em fevereiro – e, curiosamente, o seu autor foi José Miguel Júdice, convidado e conhecido jurista, o que não deixa de ser interessante. 

Prosseguindo o seu discurso – e falando principalmente para médicos – lançou um desafio extraordinário: «Uma das vossas obrigações é, através da prevenção e da educação, fazer com que nós cada vez mais precisemos menos de vós!», frisando que é preciso evitar uma «cultura do desleixo». 

Noutra ocasião, o Dr. José de Castro Lopes, presidente do Congresso e da Sociedade Portuguesa de Acidente Vascular Cerebral, questionava abertamente: «Sendo o AVC uma doença prevenível e evitável, por que é que existe?». 

Esta pergunta pertinente e sempre oportuna pode ser feita por qualquer pessoa àqueles que têm maiores responsabilidades na matéria, exigindo-lhes uma explicação. Afinal, por que é que uma doença evitável continua a existir? Sendo sabido que a prevenção é possível, qual a razão para se deixar instalar uma doença que pode matar, ou, na melhor das hipóteses, causar danos irreparáveis na vida de um ser humano? 

Em minha opinião, baseando-me na experiência clínica, não é muito difícil chegar ao diagnóstico. Há uma evidente falha na prevenção – e, em vez de se apostar a sério no combate aos fatores de risco, as opções recaem noutro tipo de prioridades, nomeadamente burocrático-administrativas, deixando à solta tudo aquilo que pode levar ao AVC. 

Por outro lado, também são poucas as pessoas dispostas a cuidar bem da sua saúde, umas por desconhecimento, mas a maioria por não estar para abdicar dos seus hábitos e estilos de vida, refugiando-se na esperança de que as coisas más da vida só acontecem aos outros, cultivando assim o tal ‘desleixo’ atrás falado.

Os centros de saúde, representando os cuidados primários – cabendo-lhes, por isso, a responsabilidade da prevenção –, têm vindo aos poucos a ceder o seu espaço e a perder terreno, sendo hoje uns meros gabinetes de contabilidade geridos por uma informática feroz que tudo controla e onde tudo é avaliado em função de indicadores estatísticos, sem qualquer utilidade prática nem valor clínico. 

E como ‘quem semeia ventos, colhe tempestades’, os resultados estão à vista – e continuam cada vez mais a ir parar aos hospitais doenças já estabelecidas que escaparam ao controle dos cuidados primários. É isto que queremos? 
E para os que gostam de números e indicadores, o que é que custará mais ao país: investir em força na prevenção ou pagar os custos das sequelas do AVC, com internamentos hospitalares prolongados e fisioterapias de longa duração? É nessas alturas – quando se passa para a fase do desespero, pelas limitações que estas doenças acarretam (ainda por cima sem o país estar devidamente preparado com estruturas de retaguarda suficientes para cuidar destes doentes) – que se chega tristemente à conclusão da falta que faz uma prevenção rigorosa e eficaz!

Já aqui referi que Portugal ocupa um lugar muito baixo em termos de prevenção do AVC, comparativamente com outros países do mundo. É preciso inverter rapidamente esta tendência. Os médicos têm de estar disponíveis e decididos a declarar guerra aos fatores de risco junto dos doentes; e, quanto à população, é fundamental seguir à risca as recomendações apenas dos seus médicos assistentes e estar preparada para modificar estilos de vida errados ou alterar comportamentos nocivos. Se estas condições estiverem todas reunidas e houver um empenhamento comum, a situação ainda pode ser controlada. Se continuarmos no ‘deixa andar’ e mantivermos a ‘cultura do desleixo’, não nos admiremos que mais tarde ou mais cedo o desespero se instale e apresente a fatura do nosso desmazelo continuado.

A decisão está nas nossas mãos.