Internacional

Grécia. A tragédia voltou

As chamas mostraram-se imparáveis, avançando em três frentes. Morreram 86 pessoas e centenas ficaram feridas no incêndio mais mortífero das últimas décadas no país.

Imparáveis, as chamas queimaram tudo por onde passaram sem que ninguém lhes conseguisse fazer frente. «Aconteceu muito depresa. O fogo estava longe, então começaram a cair as fagulhas perto de nós. E aí o fogo já estava à nossa volta», contou Nikos Stravrinidis ao The National Herald. Encurraladas entre as chamas e o mar, várias centenas de pessoas tentaram fugir, em pânico e desordenadamente, como puderam. Uns viram-se encurralados com os seus carros e começaram a correr para onde podiam, outros dirigiram-se logo para as praias e aí esperaram pelos barcos das equipas de socorro, com o fumo a toldar-lhes a visão e a impregnar-lhes os pulmões. Muitos outros não o conseguiram fazer e, sem alternativas, não lhes restou esperar por um milagre que acabou por não chegar. Foi o caso de 26 pessoas que, abraçadas, morreram numa das zonas a que as chamas avançaram sem perdão. Os relatos de desespero e de luta pela sobrevivência são muitos – e cada um mais dramático que o outro. Um deles é a história de uma rapariga de 13 anos, que, desesperada por fugir às chamas, saltou de um penhasco para o mar. Teve morte imediata. «Era como no 11 de setembro. Fez-me lembrar como as pessoas saltavam das Torres Gémeas», disse Maria Patsiou, que assistiu à distância ao drama da rapariga. «É terrível ver a pessoa ao pé de ti a afogar-se e tu sem poderes fazer nada para a ajudar. Não podes», desabafou Nikros, que, com a mulher e dois amigos, entraram pelo mar adentro para fugir ao fogo. Aguentaram duas horas à tona da água até que um barco de pesca os alcançou. Uma mulher e o seu filho, que os acompanhavam, não conseguiram sobreviver.

Apagadas as chamas na manhã de terça-feira, a extensão da terra queimada, dos carros destruídos e das casas reduzidas a cinzas relembram um cenário de «Armageddon», como descreveu o diário grego Ethnos na sua primeira página. No balanço que ainda não é final, 86 pessoas morreram, quase duas centenas ficaram feridas e mais de 40 estão desaparecidas, mil casas ficaram destruídas e dezenas de carros calcinados. Foi o incêndio mais mortífero nas últimas décadas no país. Uma zona que até há poucos dias atrás era um grande destino de férias, é hoje uma manta de negro que se estende pelo horizonte. «Mati já não existe como localidade», desabafou um morador à Skai TV. «Vi cadáveres, carros queimados. Tenho sorte de estar vivo». 

O incêndio apanhou todas as pessoas desprevenidas, incluindo as autoridades. E as temperaturas elevadas, a floresta densa e o vento a soprar a 100 quilómetros por hora também não ajudaram. No final da tarde de segunda-feira, deflagraram, quase simultaneamente, 15 focos de incêndio em três frentes distintas. Uma das frentes avançou pelo bosque de pinheiros nas proximidades da vila de Ineta, a 50 km a oeste de Atenas, e obrigou à evacuação de três vilas. O segundo começou no monte Penteli, a nordeste de Atenas, e avançou sobre Rafina. Sem as autoridades conseguirem parar as chamas, a governadora de Ática, Rena Dourou, declarou o estado de emergência, mas nem por isso a tragédia de Mati pôde ser evitada. Por sua parte, o governo grego destacou toda a sua frota áerea de combate a incêndios para o local, enquanto mais de 600 bombeiros combatiam as chamas, e pediu ajuda aos restantes Estados-membros da União Europeia. Portugal, Espanha, Alemanha, Polónia e França enviaram aviões, homens e veículos.  Portugal enviou a Força Especial de Bombeiros, composta por 50 elementos. «Esse pedido foi feito na segunda-feira ao final do dia pelo Governo grego. Fizemos uma avaliação com grande urgência», explicou o ministro da Administração Interna português, Eduardo Cabrita. 

Apoios internacionais tão necessários para debelar as chamas. O presidente da câmara de Rafina-Pikermi, Vagelis Bournos, criticou a falta de bombeiros  por as frentes serem vastas e não hesitou em culpar as políticas de austeridade encetadas pelos sucessivos governos gregos desde 2010, quando a troika aterrou no aeroporto de Atenas.

O incêndio ainda lavrava quando as autoridades anunciaram que não descartavam a possibilidade de a causa ter sido fogo posto. «Quinze fogos começaram simultaneamente em três frentes diferentes em Ática», explicou o porta-voz do Governo grego, Dimistris Tzanakopoulos. Mais tarde, a procuradora do Supremo Tribunal grego, Xeni Dmitriou, ordenou uma investigação às causas do incêndio. «Temos sérias indicações e provas significantes de atividade criminosa», explicou o ministro da Ordem Pública, Nikos  Toskas, acrescentando que «existem muitas provas físicas» a apontarem nesse sentido. 

Não é raro os incêndios no país serem causados por fogo posto para que se desocupem áreas de floresta para depois se avançar com a construção de imóveis. Foi o que aconteceu no trágico incêndio de 2007, quando morreram 84 pessoas. 

Entretanto, as equipas de socorro, voluntários e familiares próximos continuam a vasculhar entre os destroços por vítimas. Por o estado dos corpos impedir a identificação visual, os médicos legistas têm-nas identificado por meio de recolhas de ADN dos seus familiares.