Opiniao

«Contigo será muitas vezes bom dia»

Esta frase, pintada num prédio da Alta de Lisboa, é mais uma mensagem de amor, ao dizer: «Contigo será muitas vezes bom dia». Dá para perceber que quem a escreveu está apaixonado, porque sente que a presença da pessoa amada na vida dele, todos os dias, dá sentido à vida e torna os dias bons.

Acordar todos os dias ao lado de quem se ama é um privilégio inigualável e é, naturalmente, motivo para se considerar que cada dia é bom, que cada dia vale a pena ser vivido.

Como diz Sérgio Godinho, em Coração Mais Que Perfeito: «A verdadeira família não é a de sangue, é a das aparições, dos acasos ao dobrar da esquina e das escolhas feitas por instinto e intuição». A verdadeira família é, muitas vezes, a que escolhemos, a que constituímos, apesar de, em muitos casos, a família de sangue ser também um feliz acaso e constituir uma rede de suporte sólida e unida. Tudo depende da família onde se nasce e das pessoas que a constituem. Muitos são os que, felizmente, nasceram em famílias de que se podem orgulhar e com que podem contar. E esses laços são reforçados por novos elementos que passam a fazer parte da família, sejam escolhidos por nós ou pelos nossos familiares; aqueles com quem sentimos que «será muitas vezes bom dia»; aqueles que estão a nosso lado, todos os dias ou ocasionalmente, mas com quem sentimos grande empatia; aqueles com quem partilhamos a alegria de estarmos vivos.

A propósito da investigação que fez sobre a mente e o papel determinante que os sentimentos desempenham, António Damásio, em entrevista a Clara Ferreira Alves, afirmou: «O que nos consola na vitória de “Deep Blue” sobre Kasparov é que “Deep Blue” nunca sentirá a euforia da vitória. A alegria de vencer o desafio. E sem a alegria o exercício é inútil. Se não tiveres uma vida, não tens a alegria de estar viva». E esta última frase, embora pronunciada em sentido extremo, de oposição entre um ser vivo e um computador (ou inteligência artificial), que não possui vida, aplica-se também a todos os seres vivos, porque, infelizmente, nem todos têm vida real, nem todos fazem da vida um espaço e um tempo com sentido. Ora, quando assim é, não sentem a alegria de estarem vivos, não usufruem plenamente de tudo o que de bom ou de menos bom a vida nos reserva, não beneficiam da vida dos sentidos e não a interpretam realmente por dentro. É como se pairassem acima da vida, sem que esta lhes pudesse tocar, como se estivessem anestesiados perante a realidade e as suas infinitas possibilidades.

Viver e sentir são, pois, sinónimos. Não há sentimentos sem vida nem vida sem sentimentos – sentimentos de alegria, de tristeza, de dor, de orgulho, de prazer, de bem-estar, de frio, de calor… E a investigação de António e Hannah Damásio vem confirmar cientificamente esta evidência de que os sentimentos estão no centro da existência.

Já Alberto Caeiro descrevia os sentimentos assim: «os meus pensamentos são todos sensações. / Penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés / E com o nariz e a boca. / Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido».

É interessante que a ciência acabe por demonstrar aquilo que empiricamente já sabíamos e aquilo que faz mais sentido, porque, no fundo, o que nos separa dos animais e, agora, da inteligência artificial, são os sentimentos. Logo, teriam de ser os sentimentos a ocupar o lugar principal no ser humano.

É, pois, a vida emocional que determina aquilo que somos e como agimos. E ter muitos dias bons ao lado de alguém faz parte de uma vida emocional rica. Sobretudo quando essa pessoa nos sorri…

 

Maria Eugénia Leitão

Escrito em parceria com o blogue da Letrário, Translation Services