Cultura

Travolta. ‘Acho apenas que fui afortunado’

O ator contou ao SOL como se preparou para interpretar o gangster John Gotti no biopic que chegou agora às salas.

Convenhamos: não é qualquer ator que se pode gabar de ter emojis feitos a partir de personagens suas. Isso é algo que diverte John Travolta, o ator de olhos azuis penetrantes que contagiou meio mundo em 1977 com o ritmo inebriante e os movimentos em Febre de Sábado à Noite. Logo no ano seguinte, recuperou um novo estilo em Grease (Brilhantina), passando depois por um período de menor visibilidade. Só em 1994 voltaria à ribalta, com Pulp Fiction, o filme de Quentin Tarantino e produzido pelo agora infame Harvey Weinstein que conquistou a Palma de Ouro em Cannes.

Travolta veste agora a pele de vilão, mas sem deixar de ser simpático e charmoso, assumindo o semblante do extravagante John Gotti, o mobster do crime organizado muito amado pelo público, no filme biográfico Gotti - Um Verdadeiro Padrinho Americano, em que contracena com a sua própria mulher, Kelly Preston, com quem vive há quase 30 anos.

Tivemos encontro com hora marcada em Cannes, para trocar impressões com o ator de 64 anos, horas antes de este mudar de roupa e dançar na praia a celebrar o 40.º aniversário de Grease.

Seguramente, a penthouse do glamoroso Hotel Carlton, provavelmente o mais badalado da Avenida Croisette, terá testemunhado encontros históricos com figuras ímpares do cinema. Este era, por isso, o cenário perfeito para conversar. Ei-lo a entrar na sala, de mão estendida, exibindo o sorriso e tal olhar azul brilhante que tão bem conhecemos. À primeira vista, nem um vestígio do caráter sombrio com que o ator de 64 anos assumiu a personalidade de John Gotti.

Acabei de ver agora mesmo o comunicado de imprensa sobre os 40 anos de Grease. Está pronto para dançar na praia?

Sim, lá estarei para apresentar o filme e convidar toda a gente para dançar na areia. Não é incrível como este filme continua a criar toda este energia?

Tal como Pulp Fiction ou Febre de Sábado à Noite, entre outros dos seus hits que parecem resistir ao tempo.

É verdade, todos esses filmes são ainda muito vistos. Parecem ser intemporais. O Pulp Fiction tem 24 anos, mas muita gente ainda o vê na net. Tal como o Grease e Febre de Sábado à Noite. Existem mesmo emojis de mim nesses filmes!... Quem imaginaria uma coisa dessas?

Emojis?  Não fazia ideia. Alguma vez sonhou que Pulp Fiction seria um fenómeno tão grande? 

De maneira nenhuma. Pensei que até poderia ser algo como Cães Danados (1992). Talvez até um pouco mais popular, porque tinha o Bruce [Willis] e eu. Poderia ser talvez mais pop. Por outro lado, é um filme longo, tem mais de duas horas e meia.

Quando faz um filme tem alguma perceção da sua longevidade?

É uma boa pergunta, mas não sei se haverá maneira de prever isso. Não quero parecer egocêntrico, acho apenas que fui afortunado, mas parece-me que tenho mais filmes intemporais do que grande parte dos meus colegas. Talvez por razões de cultura pop parece que continuam a interessar às novas gerações.

Como é que um ator se revê nesses ícones? Consegue distanciar-se deles?

Sim, consigo, porque já se afirmaram há bastante tempo. Encaro-os apenas como o vestido branco de Marilyn ou o blusão vermelho de James Dean, o boné do Brando ou o fato de banho da Elizabeth Taylor. Não os vejo de forma diferente de como olho para essas imagens que definem uma época ou um filme. Posso ter uma ligação mais próxima, mas encaro-os dentro da cultura com que cresci. 

Percebe-se que gosta de assumir riscos. Houve algum papel que se sentiu tentado a rejeitar?

Terei de ser um pouco cauteloso com essa resposta. Existirá algum tipo de equilíbrio ou redenção nessas personagens, se não tivermos cuidado. Mas houve muitos guiões em que disse: ‘não consigo resolver isto’.

O John Gotti é uma personagem muito sombria. É verdade que usou as sua roupas dele e até o mesmo seu perfume? Isso ajudou-o?

Sim, é verdade, usei o perfume dele. É interessante porque ele era mais baixo do que eu. Mas tinha o casaco dele, os botões de punho, o relógio, a camisa. E foi-me útil. Gostei realmente de usar essas coisas. Senti que me ajudaram.

É um pouco assustador, não acha?

Arrepiante, sim. Mas a família disse que podia usar o que quisesse. E eu aceitei. Eu queria isso mesmo.

O que descobriu sobre o John Gotti quando fez este filme?

Acima de tudo gostei de pesquisar as razões pelas quais as pessoas gostavam tanto dele, por que era ele tão popular. Entretanto percebi que ele não deixava que os negócios dele entrassem na vida privada. Até porque ajudava muita gente, doentes, pessoas carenciadas. Apesar da vida criminosa regressava sempre à sua comunidade. Era o lado mais leal da Cosa Nostra. Ele era muito dedicado à família e ao seu bairro. Ao mesmo tempo tinha aquela vida brutal e criminosa...

Qual será o segredo da sua longevidade? Pergunto, porque é um verdadeiro sobrevivente de Hollywood. Já fez de tudo e mantém intacta a sua credibilidade.

Tal como o meu amigo Gérard Depardieu já sobrevivemos a grandes dramas na nossa vida pessoal, mas conseguimos permanecer consistentes na nossa devoção de fazer bons filmes, trabalhar bem. Mesmo que alguns deles não funcionassem. Sempre foi isso que senti. Um dia, fiz a mesma pergunta ao Warren Beatty, que me respondeu: ‘Faz apenas bons filmes’. O que ele quis dizer com isso não foi fazer filmes de sucesso, mas aqueles que achava que seriam de qualidade. Seria a forma de não comprometer o meu gosto e de me empenhar totalmente. Acho que o Gérard fez isso, o Warren fez isso. 

Alguma vez pensou que se tornaria no ícone que conhecemos hoje?

Honestamente, não posso dizer isso. Mas sempre tive pessoas boas do meu lado que me ajudaram a sentir assim. E injetaram-me uma luz que me mostrou o caminho. Eu só queria representar e entreter as pessoas. E ao mesmo tempo divertir-me. Sinceramente, apenas pensei ganhar a vida como ator. Pagar as contas e manter o apartamento. Não sonhei com nada mais ambicioso. Bastava-me isso para ser feliz.

É verdade que quer fazer um filme de James Bond?

Sim. Tinha oito anos quando estreou o primeiro Bond e fiquei logo fascinado. Cresci a ver esses filmes e é algo da minha infância que permanece comigo. Não fico impressionado com os filmes da Marvel, mas com os Bond sim. Acho que posso fazer um bom vilão da saga Bond. Isso concretizaria os meus sonhos de infância.