Falar Baixinho

Jogos que desafiam a vida

Os chamados ‘desafios’ praticados por crianças e jovens surgem cada vez em maior número e vêm de uma vontade não só de se entreterem mas de se superarem, de bater recordes, de serem melhores do que os outros. Já aqueles mais perigosos, que não param de nos chocar e que desafiam a vida, vivem da ânsia de pisar o risco, do sentimento de insegurança, da necessidade de reconhecimento e do desejo de pertença. Todos gostamos de ser reconhecidos pelos nossos feitos e qualidades e presentemente há uma forma quase imediata de isso acontecer. Se na convivência natural do dia-a-dia não estamos constantemente a elogiar e a fazer ‘gosto’ em tudo o que nos dizem ou fazem, as redes sociais parecem existir para preencher essa lacuna, para pentear o ego ou, pelo contrário, esmagar e humilhar. É uma praça pública onde todos se expõem, exibem e sujeitam à opinião dos outros.

A juventude de hoje e até alguns adultos parecem viver demasiado esta necessidade de se superar e ser reconhecidos e daí surgir uma infinidade de desafios que vemos correrem as escolas e ruas do país e do mundo, uns mais perigosos do que outros, do banal desafio da garrafa à já esquecida baleia azul. Se o primeiro é um jogo como qualquer outro, tão inofensivo quanto exasperante para quem está próximo, desafios perigosos como o da baleia avaliam o desespero e necessidade de afirmação perante os outros. Aqueles que levam desafios destes até ao fim conseguirão ser tão mais corajosos quanto maior a necessidade que têm de se afirmar ou de encontrar um propósito, chegando ao ponto de sentirem que provas tão absurdas como aquelas podem definir a sua personalidade ou aceitação perante os outros.

Se antigamente jovens mais tímidos, com baixa autoestima ou inseguros, tendiam a isolar-se, agora muitos procuram reconhecimento neste tipo de jogos. Como se houvesse alguma coisa em que sentissem que podem ser bons e até melhores do que todos os outros. Por detrás destes jogos há um tutor ou pelo menos a ideia de alguém ou alguma ideologia a que sentem que podem pertencer sem serem criticados ou ignorados, a que podem corresponder e ser apreciados. Sem se aperceberem que são sempre jogos destrutivos, em que o inventor sádico explora o desespero e vulnerabilidade de participantes capazes de se prejudicar só para obter algum reconhecimento, para sentirem que se conseguiram superar, que fazem parte de qualquer coisa. Não têm nada a perder e podem mesmo pôr tudo em jogo em troca de um ato de heroísmo.

Os jogos como o da baleia azul surgiram sem aviso e foram sentidos como um murro no estômago. Fizeram acordar uma sociedade pouco atenta que entregou os mais jovens às novas tecnologias desconhecendo os seus perigos, em que a máquina desafia o homem, e alertaram não só para a vulnerabilidade dos jovens como para a incapacidade dos pais de os controlarem e ajudarem.

O nosso desafio será o de conseguirmos estar atentos aos nossos filhos, amigos, alunos, familiares, tentarmos manter o diálogo aberto para as suas fragilidades, para que possam recorrer a nós e não a máquinas ou amigos virtuais quando se sentem tristes ou zangados e não acabarem por cometer algum grande disparate. Mas este é, cada vez mais, o maior desafio de todos.