Hoje escrevo eu

O mochileiro tranquilo, o pragmático otimista e as autoridades histéricas

O combate aos incêndios não se faz sem populações nem contra as populações. Faz-se com as populações

A ordem é clara: não perder uma vida humana, custe o custar, arda o que arder. Não pode haver vítimas mortais!

E esta ordem foi dada pelo comando - claramente pelo poder político, com o primeiro-ministro à cabeça e com o natural assentimento do Presidente da República - e foi rigorosamente cumprida pela cadeia de comandados.

Com evidente excesso de zelo.

Porque o combate ao fogo, no caso de Monchique, ficou claramente prejudicado.

Os testemunhos de algarvios, de residentes e de turistas - mesmo descontando os naturais e emotivos exageros - são esclarecedores. Com o fogo a consumir a serra de Monchique e a ganhar contornos de descontrolo, os militares da GNR e os bombeiros preocuparam-se quase exclusivamente em evacuar as pessoas das zonas de risco ou de potencial risco para as suas vidas.

Confesso que não percebo nada de incêndios, nem de combate ao fogo.

Mas também confesso que ver militares da GNR e bombeiros em correria e berraria a arrombar portas e a entrar pelas janelas para obrigar o povo a abandonar as suas casas e o povo bem mais calmo a deitar mãos às mangueiras e aos baldes para defender as suas coisas faz-me muita confusão.

Porque, mesmo não percebendo nada de fogos, todos sabemos que os incêndios não se combatem sem as populações nem contra as populações. Combatem-se com as populações.

 

É bom que a prioridade das prioridades seja salvar as vidas humanas - e não voltem a repetir-se as tragédias de 2017.

Mas também é bom que as populações saibam que podem confiar no Estado e nas autoridades e nas cadeias de comando, quer do poder político quer em particular da Proteção Civil, para defender o seu património e o do Estado. Se todos desatarem a fugir aos primeiros sinais de fumo...

A obrigação de qualquer cidadão em condições de contribuir para a defesa do seu património, do do vizinho e da res publica é dar o seu contributo na medida das suas possibilidades, não é fugir nem abandonar o vizinho ou deixar de dar apoio e ajuda às autoridades e aos bombeiros.

No ano passado, a maioria das mortes, infelizmente, resultou de pessoas em fuga desesperada, isoladas ou deixadas à sua sorte.

O plano de entregar o combate aos incêndios florestais e rurais a bombeiros profissionais, colocar os bombeiros voluntários a prestar auxílio às populações e os militares na coordenação das operações parecia conduzir no bom caminho.

 

Mas o incêndio de Monchique e o descontrolo no comando e na coordenação de meios (o fogo chegou a estar dado como praticamente controlado por diversas vezes, acabando por reentrar em descontrolo repetidas vezes) provou que entre a estratégia anunciada e a sua operacionalização ainda vai longa distância.

Na verdade, continuam a existir ‘vacas sagradas’ que têm tanto de experiência nesta matéria dos incêndios como historial de insucessos e erros crassos no seu combate.

E o poder político, pactuando ou fechando os olhos, quando não mesmo rasgando-lhes elogios para procurar amenizar as suas próprias deficiências e incapacidades, só agrava a desconfiança.

Em Monchique, seja por coincidência seja por outro motivo qualquer, o incêndio descontrolado deixou de ser preocupante dois dias após o comando nacional ter tomado as rédeas do teatro das operações. Por que o fez apenas e só ao fim de cinco dias é que ficou por explicar. Por que deixou o comando entregue a quem já tinha confessadamente falhado em 2012 com consequências igualmente dramáticas, também não tem explicação.

 

Marcelo Rebelo de Sousa, de mochila às costas e vagueando de praia fluvial em praia fluvial, não se cansou de elogiar o trabalho da Proteção Civil nos incêndios deste ano. Incluindo com Monchique a arder descontroladamente.

Ficou só agora a saber-se que a Comissão Independente que investigou e analisou os incêndios de Pedrógão Grande teceu críticas ao Presidente da República e a outros altos titulares de cargos políticos por terem ‘invadido’ o teatro das operações e prejudicado as operações de comando.

Era evidente. Como evidentes são muitos outros erros que se repetem. 

Como quando a um Presidente tranquilo se junta um primeiro-ministro que, sempre otimista e pragmático (mas desta vez precipitado), esperou por um momento em que julgava já ter tudo sob controlo para proferir mais uma série de declarações infelizes - como parece ser seu apanágio quando sob a pressão dos incêndios.

O Presidente da República não precisa de meter-se no meio da serra a arder, mas também não precisa de aparecer de mochila, calções e polo a condizer, desdramatizando o que, mesmo sem vítimas mortais, não deixa de ser dramático. E mais dramático se torna quando as autoridades, zelosas cumpridoras das ordens superiores, entram em desvario e descontrolo.

Tudo isto é triste e, pior, parece ser nosso fado.