Sociedade

CP à beira do colapso

As alterações nos horários, a falta de manutenção e as queixas deixaram a gestão da empresa debaixo de fogo. Regulador e partidos têm pressionado e querem respostas do Governo.

O serviço da CP tem estado debaixo de fogo. A falta de investimento tem resultado na supressão de comboios, alterações várias nos horários e até falta de manutenção das composições. Há até quem fale mesmo no «colapso da empresa». 

Todos os problemas da empresa de transportes fizeram com que a administração começasse a ficar ‘tremida’ e muito se falou, nos últimos dias, sobre a saída dos membros do conselho de administração da CP, liderado por Carlos Nogueira. Mas o Governo já veio assegurar que a atual administração vai continuar em funções. 

A situação da CP tem vindo a piorar e o número de queixas disparou. O aumento foi de tal forma significativo que obrigou o regulador a pedir informações mais detalhadas sobre os atrasos e cancelamentos. Esta semana, a plataforma Portal da Queixa mostrava que as reclamações relativas à CP aumentaram 89% no primeiro semestre deste ano. No fundo, pode dizer-se, olhando para os números do ano passado, que duplicaram. 

As avarias são um dos pontos críticos e estão no centro de todas as atenções nos últimos dias. A empresa viu-se forçada a suprimir comboios e limitar a venda de bilhetes por causa da vaga de calor. Aconteceu em várias zonas do país o sistema de ar condicionado não ser capaz de refrigerar, quando as temperaturas em Portugal atingiam os 42.ºC. 

Ainda assim, no ano passado, já se percebia que a situação da empresa se vinha a complicar de dia para dia. No relatório da Qualidade do Serviço da CP e Satisfação do Cliente, de 2017, pode ler-se que houve um aumento de 19% no número de queixas entre 2016 e 2017. Por esta altura, chegou-se a atingir uma média de 66 reclamações por dia. 

De acordo com a CP, a maior parte destas queixas referiam-se, principalmente, às dificuldades com os sistemas de vendas de bilhetes e problemas com a circulação de comboios. Havia já algum desconforto em relação aos atrasos e cancelamentos. 

«No ano de 2017 registou-se uma diminuição da pontualidade e regularidade de todos os tráfegos, com maior relevância no serviço de longo curso, tendo o índice de pontualidade global baixado 4% face ao ano anterior», explica o relatório, publicado em junho deste ano. A CP justifica-se com «alguns acontecimentos excecionais», nomeadamente «diversas ocorrências relativas a avarias de material motor, com maior impacto no serviço interregional/regional Oeste e Algarve».  

Outras situações, como obras em alguns troços afetaram mais de 21 mil comboios. Recorde-se que também a cobrança de bilhetes trouxe complicações à empresa. A CP já admitiu que estas falhas, sobretudo, nos dias de maior procura, reduziram as receitas. No intercidades, por exemplo, a cobrança a bordo é uma das situações mais graves. A empresa reconhece que o problema se tem agravado nas últimas semanas e destaca Lisboa e Faro como os locais mais problemáticos.

Regulador pressiona 

Foi ainda feito um levantamento sobre as linhas em que se têm registado problemas. E é a partir daqui que o regulador poderá avaliar se existe ou não uma situação de incumprimento de obrigações de serviço público. Também os direitos dos passageiros têm merecido especial atenção. O facto de estarem ou não respeitados também está a ser avaliado. 

Com a situação a piorar, os partidos já começaram a questionar e pressionar o Governo para tomar medidas. No entanto, o Executivo continua a rejeitar que a empresa esteja numa situação de colapso. Em setembro, espera-se que Pedro Marques, ministro do Planeamento e Infraestruturas, esclareça vários pontos críticos no Parlamento.  

O CDS e o PSD têm lançado várias críticas, principalmente, ao Governo. Ainda que o Executivo negue a possibilidade de colapso, José Reizinho, representante dos trabalhadores, não esconde que há falta de capacidade de resposta. O principal motivo é a falta de equipamento e trabalhadores. E, este é um dos pontos que também gerado muito polémica. A CP tem 44 milhões de euros para investir este ano, mas só gastou 4,7 milhões de euros. De acordo com a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO), nos primeiros seis meses do ano, a empresa apenas executou 10,6% da verba que estava prevista no Orçamento do Estado. A análise da UTAO acrescenta, aliás, que, muito embora exista uma tendência de subida do número de passageiros nos últimos anos, a empresa tem estado a gastar cada vez menos e em várias frentes. 

A verdade é que, desde que tomou posse, é assim que a administração de Carlos Gomes tem liderado: no meio de cortes e contenção de custos. Ainda assim, há quem avance que estão a ser feitos investimentos. Podem é não ser no que muitos consideram ser pontos fundamentais. Recentemente, era tema na imprensa um contrato de 500 mil euros feito com uma empresa de publicidade para ativar a marca. O SOL tentou, sem sucesso, contactar a empresa até ao fecho desta edição.