Olhar ao Centro

A História como ciência do futuro

«Tal como a ameaça soviética ajudou a integração europeia, talvez a agressividade de Putin ajude o euro».

Francisco Sarsfield Cabral

Não é de agora, mas de há quase vinte anos a esta parte. E parece que estamos condenados a viver ainda mais uns anos num ‘tempo’ coletivo e individual em que a ortodoxia e a religião dos números e dos indicadores económicos anulam - e muito - as humanidades e as palavras. 

Dirão muitos: «Habituem-se, porque é sinal dos tempos que vieram para ficar!». Podendo concordar, não considero isso benéfico. Para todos. Inclusive para os cultores da gestão pública, dos números, das ciências económicas e, como diria a minha sábia avó Evangelina se fosse viva, «do diabo das contas, que nos faz avarentos, sem coração, sem riso e pinga de tempo para outras coisas boas que a vida tem».

 

Paulatinamente, nas últimas décadas, em vários setores das nossas vidas, secundarizaram-se (para não qualificar de outra forma) as humanidades, e nas humanidades vários saberes como a cultura, a arte, a história e outros ramos do saber, não só clássico. 

Um dos saberes mais penalizados foi a história. Que, a par da geografia ou da geologia, foi desvalorizada - e até muitas vezes catalogada e diabolizada como ciência do passado, que já pouco tinha de útil, dentro e fora da academia. Com consequências negativas a vários níveis. Desde a perda de atratividade (e consequentemente de alunos) à perda de interesse para a investigação científica aplicada.

Viveu-se (e para alguns isso deverá acontecer ainda mais no futuro) com a ilusão de que a história era uma ciência morta.

 

O tempo em que o que contava era a gestão e mais gestão, economia e mais economia, engenharia e mais engenharia, já lá vai. O tempo em que tudo servia para que a religião dos números e de várias ciências exatas ocupasse o lugar das ciências sociais. 

E não fomos muitos os que protestámos pela vida fora, em vários fóruns, dizendo o quanto isto era negativo. Para os países, para as organizações públicas e não públicas, para as empresas, para as pessoas. 

Multiplicaram-se os analfabetos viciados em eletrónica e em gráficos e contas, que não passavam de iletrados. E que mais não eram (e muitos ainda são...) do que incultos e narcisistas carregados de deficiências e de falhas gravíssimas, não só na história e noutros saberes, mas sobretudo nos valores de vida. 

 

Assisti a tudo um pouco, como se costuma dizer. Alunos a perguntarem se a república de França tinha começado com Charles De Gaulle, se a monarquia dos EUA tinha reinado até Bill Clinton, já para não falar de gente ilustre que, no exercício das mais altas funções em órgãos de soberania - como a Assembleia da República e o Governo -, não sabia escrever uma linha e tínhamos de ser alguns de nós a fazê-lo (e até a escrever outras coisas mais relevantes).

Aliás, recentemente, ao consultar os diários dos últimos anos de Governo, encontrei um ‘espólio’ extraordinário sobre essas e outras coisas - que, isso sim, é material para a história tratar.

Tenho como adquirido que a história não é uma ciência do passado, que caiu em desuso e sem importância. Antes pelo contrário. É uma ciência do futuro. Uma ciência que trata, analisa, compara e afere cientificamente factos e acontecimentos diversos, do passado e do presente, por forma a enfrentarmos o futuro com melhor conhecimento, com melhores condições, para não só decidirmos bem como para conhecermos melhor aquilo que nos rodeia.

 

Entre o saber melhor e o decidir bem, as diferenças passaram a ser poucas. Mas mesmo assim são imprescindíveis para a governança pública de base estadual, supra estadual e europeia, continental e mundial. 

No mundo, é cada vez mais o número de organizações e de empresas que contratam gente qualificada das humanidades e afins. Sobretudo gente de história, de geografia e de relações internacionais. Porque, nuns casos, já perceberam o erro que pode resultar da desvalorização destes ramos do saber; e, por outro lado, já se focaram nas lições de vida e nas lições da história. 

Muitos já perceberam que a história é, sem dúvida, uma das rainhas das ciências sociais e humanas. Que tanta falta faz ao mundo, à Europa e a países como Portugal.

O caminho passa, pois, por valorizar a história. Por temperar a presença das ciências exatas. Da história podem vir soluções para muitos problemas do presente e do futuro.

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