Economia

Construtoras já rejeitam obras

Falta de material e de profissionais está a levar empresas a recusarem obras no privado. E no público também, por causa do baixo preço lançado nos concursos.

O setor da construção continua a dar sinais de alívio. Ao ponto de as construtoras estarem a recusar obras de menor dimensão, alegando falta de mão-de-obra e de material. A Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e Serviços (AECOPS) reconhece ao SOL que isso tem acontecido tanto no segmento da obra privada, como no da obra pública. Já as construtoras contactadas pelo SOL garantem que «o setor está longe dos níveis pré-crise».

Ricardo Pedrosa Gomes, presidente da associação, explica os motivos desta recusa de novas empreitadas: no privado, a procura é muito elevada e as empresas preferem obras de maior dimensão, que lhes conferem uma maior estabilidade na utilização temporal dos seus meios. «As obras de menor dimensão sempre ficaram para empresas mais pequenas, precisamente as que a crise dizimou. Eram sobretudo empresas de cariz familiar, cujos responsáveis eram antigos trabalhadores e que, na maior parte dos casos, emigraram para a Europa e não estão dispostos a regressar ao mercado nacional», refere o responsável.

Já no caso da obra pública, a razão prende-se, segundo Pedrosa Gomes, com a completa desadequação dos preços base dos concursos. «Os decisores públicos continuam a utilizar na formulação do preço base dos procedimentos valores do período da crise, que estão completamente desajustados da realidade». Uma vez que esse preço é o valor máximo que a proposta pode apresentar, «e sendo certo que as empresas não podem continuar a praticar preços abaixo do custo, elas começam a preferir responder à procura privada, conduzindo a que os procedimentos públicos fiquem desertos», nota o presidente da associação.

Para a AECOPS, este problema ficaria resolvido se fossem atualizados os valores base dos concursos públicos «com preços realistas e atualizáveis a partir de bases de dados credíveis, uma prática que é há muito reclamada pelo setor».

 

Crescimento abranda 

Após a estagnação dos últimos anos - fruto da dinâmica do segmento de reabilitação e também da construção de edifícios - o setor recuperou e deverá registar um crescimento de 4,5% em 2018 - depois de já ter assistido a um aumento de 5,9% no ano passado -, que constitui a segunda maior taxa de crescimento do setor no período 2001 a 2018.

A Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) lembra, no entanto, que este crescimento tem sido feito à base do investimento privado, impulsionado pelo turismo, pela capacidade de atração dos investidores estrangeiros e por um cenário de baixas taxas de juro.

Perante este cenário, a associação pede respostas ao Governo: «O tecido empresarial está, indiscutivelmente, numa melhor posição, mas o esforço e resiliência dos empresários deve ser correspondido com medidas adequadas que permitam uma efetiva consolidação da atividade das empresas», refere ao SOL. 

E lembra que a concorrência desleal, a clandestinidade, a recuperação do investimento público e a competitividade e estabilidade fiscais são alguns dos problemas que espera ver resolvidos pelo Executivo, nomeadamente no próximo Orçamento do Estado para 2019. «O OE deverá materializar muitas das medidas que já foram assumidas como essenciais para o país e para o setor», salienta a associação.

 

Recuperar terreno perdido

A crise da construção portuguesa foi a maior e mais prolongada da zona euro, com uma redução de cerca de 50% na produção e no emprego nos últimos quinze anos. «A fileira da construção e imobiliário atravessou até 2015 a mais grave e prolongada crise de que há memória. Foram extintos milhares de empresas e, consequentemente, perdidos mais de 430 mil postos de trabalho mas, fruto de um grande esforço de todos, resistiu um tecido empresarial que se reestruturou, que se diversificou e que se afirmou nos mercados externos a uma escala verdadeiramente global», salienta a AICCOPN.

A associação reconhece que o setor da construção e imobiliário tem vindo gradualmente a recuperar nos últimos três anos alguns dos postos de trabalho perdidos durante a crise, assegurando 537.759 postos de trabalho no 1.º trimestre do ano.

Ainda assim, a entidade admite que continuam a existir riscos. E deixa um apelo: «Durante anos o setor foi verdadeiramente dizimado. Hoje recuperou, adaptou-se e reajustou-se a um mercado que também mudou estruturalmente. Ou seja, o setor volta a cumprir o papel que sempre lhe coube desempenhar, mas para que assim seja, as empresas precisam de saber aquilo com que podem contar. O Estado tem de planificar e concretizar os investimentos que pretende realizar no futuro, em especial no quadro de investimentos para 2020/2030», refere ao SOL. 

A verdade é que a reabilitação urbana tem sido o principal motor deste crescimento. E os números falam por si: o segmento registou um crescimento de 42,8% em junho face a igual período do ano passado. Já nos primeiros seis meses do ano, quer o nível de atividade, quer o índice carteira de encomendas têm registado fortes crescimentos em termos homólogos, com variações mensais médias de 40,4% e 54,8%, respetivamente.

Pelas contas de Ricardo Pedrosa Gomes, o volume total de produção da construção deverá ultrapassar em 2018 os 11,7 mil milhões de euros, com o segmento da construção de edifícios a crescer 4,9%, para os 6,1 mil milhões de euros, e o segmento da engenharia civil a aumentar 4%, para os 5,6 mil milhões de euros. «A manutenção de um nível elevado de produção das empresas de construção resultará, por um lado, da continuação de um acentuado dinamismo no mercado imobiliário e, por outro, de um reforço na execução de projetos desenvolvidos ao abrigo dos fundos comunitários inscritos», afirma.

No entanto, esta dinâmica é mais expressiva em determinadas zonas das grandes cidades, em especial de Lisboa e do Porto, daí os responsáveis do setor acreditarem que ainda há muito espaço para crescer noutros locais do país, uma vez que a reabilitação urbana ainda é um fenómeno localizado. «A reabilitação ainda está longe de atingir a escala e, sobretudo, a abrangência territorial necessárias», salientam. 

O que é certo é que o crescimento da reabilitação é, regra geral, auto-sustentado, asseguram as associações do setor. Isto significa que, quantos mais edifícios reabilitados e espaços envolventes revitalizados, maior será a valorização dos investimentos e das casas e, por consequência, maior a procura de habitação e o investimento.