Cultura

MADONNA, como só ela

Desde ‘Like a Virgin’, título para polémica que seria só a primeira, ou desde antes. Desde o tempo da escola, no Michigan, que aos 19 anos trocou por Nova Iorque, numa viagem para o desconhecido, que do risco Madonna nunca abdicou. A rainha da pop, a «verdadeira feminista», segundo Paglia, a mulher que ajudou a criar o mundo como o conhecemos, como foi também descrita, sopra hoje 60 velas no seu novo país: Portugal.

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Vamos falar de agora, do último ano. «Falar sobre o resto não faz muito sentido, pois não?», avisava Madonna em início de entrevista à Vogue Itália, para a edição deste agosto que retrata a sua vida em Lisboa e à qual dá a primeira grande entrevista desde que se mudou com os quatro filhos mais novos para a capital portuguesa. Eis Madonna, à beira dos 60 anos. Madonna, que logo ao segundo disco se fez sucesso mundial, que ainda em início de carreira, nessa década de 1980, tempo em que os cognomes viravam moda na música, ganharia para si o de «rainha da pop», para o segurar até hoje, novo século e três décadas depois, à beira de completar 60 anos. «Ao longo de três décadas, manteve o seu lugar de alarme cultural contra a mente fechada das massas nos Estados Unidos», afirma a socióloga Roseanne Giannini Quinn em All You Need is Your Own Imagination: Madonna and Lady Gaga Create Culture. 

De acordo com a Billboard, continua a ser ela, Madonna Louise Veronica Ciccone, a maior cantora - entre mulheres e homens também - de todos os tempos. Com 75 milhões de discos vendidos, só nos Estados Unidos. Mais 200 milhões por todo o mundo. «A Madonna tem aquela coisa que não se explica - a coisa que faz de alguém uma estrela», escreveu Britney Spears sobre a artista para a Rolling Stone. «Quando ela entra, é impossível não reparar. Está tão confortável com ela, e não tem medo de viver a vida ao máximo, de dizer o que sente sem se importar com o que os outros pensam. Há algo de infantil nisso, é uma coisa linda, maravilhosa.» Mas, em factos, aos seus olhos, Madonna é o quê? «É a primeira estrela pop a controlar todos os aspetos da sua carreira e a assumir a responsabilidada da criação da sua imagem, independentemente da reprovação que possa ter. Ela provou que pode fazer várias coisas - música, cinema e ser uma mãe, também. A sua música tornou-se icónica. Músicas como Holiday ou Live to Tell são intemporais», muito além do êxito descartável. E conta Spears sobre quando pôde falar com Madonna pela primeira vez, num concerto em 2001. «Quando tinha 8 ou 9 anos, corria e cantava pela sala com o desejo de ser como ela. Todas as minhas amigas continuam a ouvir coisas dela, continuamos hipnotizadas por ela. A sua presença em palco inspirou uma série de artistas, e vê-se a sua influência nas gerações mais novas. A Madonna fez tanto, e anda cá há tanto tempo, e continua a parecer tão bem! Passou anos debaixo da opinião pública, e isso é algo com o qual pode ser muito difícil de lidar. Mas ela continuou e começou a escrever com o coração. A Madonna tem tanta luz dentro dela e dá tão mais nas vistas do que qualquer um de nós. Agarrou-se àquilo em que acreditava e fez o que sentia. É parte da sua arte isso - ser ela própria.»

Ela própria desde sempre, provavelmente, mas já lá vamos. Madonna como ela própria viu-a o mundo inteiro por uma das primeiras vezes quando o fogo cruzado pelo polémico single do seu segundo disco, Like a Virgin, de 1984, não a impediu nesse ano de subir ao palco na cerimónia de entrega de prémios da MTV como queria, como achava que devia. «Só me lembro do meu empresário, o Freddy [produtor musical que acabaria por cofundar, em 1992, a Maverick Records, de Madonna], aos gritos comigo: ‘Oh meu Deus, o que é que fizeste?’», contou em entrevista para um documentário produzido pela estação. Freddy De Mann referia-se a Madonna, vestida de noiva, a começar a interpretação de Like a Virgin em cima de um bolo gigante para acabar, vestida de noiva, a rastejar pelo chão. «Era a coisa mais corajosa e com mais conteúdo sexual que alguma vez tinha sido feito em televisão.»

Prova de que Madonna a ser ela própria será sempre, ou quase, a receita certa para o que não tem receita - o sucesso - é que esse ficou como um dos momentos mais icónicos da história das atribuições de prémios da MTV. Desse mesmo disco, apenas o segundo de estúdio, vinha uma primeira faixa que se tornaria noutro dos seus maiores êxitos: Material Girl. «Gostava dos dois porque eram icónicos e provocadores ao mesmo tempo, mas também diferentes de mim. Não sou uma pessoa materialista, e certamente não era virgem. Já agora, o que é que é ser como uma virgem? Gostava de brincar com as palavras, achei que eram inteligentes. São tão geeky, são cool.» E o abalo que causaram esses dois singles, com os quais partiria para a sua primeira digressão pela América do Norte, com os Beastie Boys - a ‘Virgin Tour’ - não seria nada comparado com o que estava para vir. 

 

Sexo, religião e feminismo

Era o ano de 1985, o mesmo em que estreavam os dois filmes que marcavam as primeiras incursões de Madonna também pelo cinema: Vision Quest, de Harold Becker, e Desperately Seeking Susan, de Susan Seidelman. O papel mais emblemático no grande ecrã viria quase dez anos depois, em Evita, musical de Alan Parker que protagonizou, como Eva Péron, ao lado de Antonio Banderas, para o qual interpretou Don’t Cry For Me Argentina (1996), e que lhe deu o Globo de Ouro de melhor atriz em filme musical ou comédia.

Por essa altura teve a sua primeira filha, mas recuemos de novo até ao que veio depois de 1985. O ano em que se casou, também, com o ator Sean Penn, no qual se inspirou e a quem dedicou o seu terceiro disco, True Blue. Com Live To Tell e o que foi considerado pela MTV o melhor vídeo musical feminino em 1987, Papa Don’t Preach - «Papa I know you’re going to be upset/ ‘Cause I was always your little girl/ But you should know by now/ I’m not a baby» - abrir caminho para Like a Prayer, single homónimo para o quarto álbum de estúdio, já colado à viragem para a década de 1990, mais demolidor do que qualquer um dos outros. O alvo era agora claro, se dúvidas houvesse, o videoclipe esclarecia. Era Madonna (chamada Madonna em alusão à representação da Virgem Maria), educada numa família italiana católica, entre crucifixos a arder, mãos em chagas e um beijo a um santo negro como cenário para o refrão «When you call my name it’s like a little prayer/ I’m down on my knees, I wanna take you there/ In the midnight hour I can feel your power/ Just like a prayer you know I’ll take you there».

Controverso ao ponto de João Paulo II ter emitido um comunicado a condená-lo, ao qual Madonna respondeu, em Itália, num momento recuperado por Alek Keshishian no documentário Madonna: Truth or Dare (1991). «Sou italo-americana e tenho orgulho nisso. Orgulho em ser americana porque é o país em que cresci, o país que me deu as oportunidades para ser quem sou hoje e um país que acredita na liberdade de expressão e artística. Tenho também orgulho em ser italiana porque é a herança do meu pai e por que é essa a razão para ser apaixonada pelas coisas em que acredito. É também a razão pela qual o meu sangue ferve quando sou mal interpretada ou injustamente julgada pelas minhas crenças. Sei que o Vaticano e certas comunidades católicas estão a acusar o meu espetáculo de ser pecaminoso e blasfemo, que estão a tentar impedir as pessoas de o verem. Se estão tão certos de que sou pecadora então deixem-no, àquele que não pecou, atirar-me a primeira pedra», continuou, num discurso em que não seria essa a única referência bíblica. «Se não acreditam nesta liberdade, estão a aprisionar a mente de todos. Quando uma mente é aprisionada, a vida espiritual morre, quando um espírito morre, então não há razão para viver. A cada noite, antes de entrar em palco, digo uma oração, não só para que o concerto corra bem mas para que a audiência o receba de coração e mente abertos e o veja como uma celebração do amor, da vida e da humanidade.»

Logo no ano seguinte ficaria provado que talvez nem o país que defendera como seu e livre estivesse preparado para ela. Em 1990, a MTV impedia a exibição do teledisco de Justify My Love, considerado pornográfico e que contava com o modelo Tony Ward, na altura namorado de Madonna. O tema em causa tinha sido escrito em conjunto com Lenny Kravitz como um dos dois temas inéditos a acrescentar à compilação dos seus êxitos lançada nesse ano. Foi a propósito da censura da MTV que a feminista norte-americana Camille Paglia disse sobre ela ser «a verdadeira feminista». E explicou: «Ela expõe o puritanismo e a ideologia sufocante do feminismo americano, preso a um choramingar adolescente. A Madonna ensinou as jovens mulheres a serem completamente femininas e sexuais enquanto exercem o controlo das suas vidas. Ela mostra às raparigas como podem ser atraentes, sensuais, ativas, ambiciosas, agressivas e engraçadas - tudo ao mesmo tempo.» Sobre feminismo, diria Madonna ainda: «Posso vestir-me de boazona, o que for, mas estou no comando. Vocês sabem. Sou dona das minhas fantasias. Ponho-me nestas situações com homens e isso não faz as pessoas pensarem que não comando a minha carreira ou a minha vida. E não é sobre isso o feminismo, igualdade para homens e mulheres? Não comando a minha vida, não faço as coisas que quero? Não tomo as minhas decisões?»

 

O poder de um espartilho

Foi também esse, 1990, o ano da ‘Blond Ambition Tour’, que a Rolling Stone cotaria como a melhor digressão da década. Aquela em que Madonna apareceu pela primeira vez com o icónico espartilho desenhado por Jean Paul Gaultier, inspirado nos soutiens cónicos dos anos 50 e na tendência da década de 80 de trazer a roupa interior para fora. Usou-o pela primeira vez na apresentação de Like a Virgin, no concerto inaugural da digressão, no Japão. Momento que a crítica de moda Suzy Menkes descreveu em The Fashion World of Jean Paul Gaultier (2011) como aquele em que a passerelle e o palco se fundiram.

Nessa digressão, Like a Virgin voltaria a causar polémica por uma simulação de masturbação em palco. «Sei que eu não sou a melhor cantora e sei que não sou a melhor dançarina. Mas, caramba, eu posso criar e ser provocadora na medida em que quiser . O objetivo desta digressão é quebrar tabus inúteis», reagiu Madonna na altura. 

Estava criada a imagem de Madonna-ícone, incontornável, rainha da pop era título definitivo. E a pop não apenas pela pop. Escreveu a crítica cultural Sara Marcus num artigo intitulado How Madonna Liberated America, publicado pela Salon: «O seu ataque visionário ao pudor americano, a sua forma reveladora de levar a libertação sexual ao americano médio mudou o país para melhor. E isto não é apenas passado; estamos ainda a vivê-lo. Se isto parece elementar hoje, é apenas porque passámos tanto tempo no mundo que Madonna criou que já não conseguimos imaginar outro. Mas, ao longo das décadas de 1980 e 90, foram a sua figura e as suas jogadas eróticas que de forma consistente fizeram andar para a frente aquilo para que o americano médio estava preparado. Ela desafiou-nos a acompanhá-la.»

De onde veio tudo isto? Vamos lá a Bay City, no Michigan, onde nasceu Madonna, a 16 de agosto de 1958. Terceira filha numa família de seis irmãos, filha de Antonio Ciccone, filho de imigrantes italianos, e de Madonna Louise Ciccone, de ascendência franco-canadiana. Com uma educação católica, que se lhe colou para a vida, até no nome, teve uma juventude «solitária, à procura de alguma coisa», segundo contou numa das suas entrevistas à Vanity Fair, depois de ter perdido a mãe prematuramente, ainda em 1963. «Não se pode dizer que fosse rebelde, de certa forma. Queria ser boa nalguma coisa. Não depilava as axilas nem usava maquilhagem como as raparigas normais. Mas estudei. Queria ser alguém.» Atormentada pelo medo de perder o pai, com o qual acabaria por manter, depois de se ter voltado a casar, uma relação conturbada por muitos anos, na adolescência não demorou a ganhar fama de miúda rebelde na escola. Salvavam-na as boas notas. 

No liceu, foi melhor aluna da escola e líder de claque ao mesmo tempo. E pela dança poderia ter crescido a sua carreira. Em 1977, já tinha começado a dançar ballet, largou os estudos superiores para rumar a Nova Iorque. Conta-se que com 35 dólares no bolso, com o sonho de uma carreira na dança. E foi em Nova Iorque que, depois de integrar grupos musicais como Breakfast Club e Emmy, que em 1982 lançou o seu primeiro single, Everybody, em 1983 o seu primeiro disco: Madonna, pela Sire Records. Só esse primeiro disco venceu dez milhões de cópias. No ano seguinte viria Like a Virgin e o resto é a história contada. 

No ano passado, primeiro entre rumores, depois como notícia confirmada, mudou-se para Portugal com os quatro filhos mais novos. Movida pelo sonho de David, de 12 anos, com uma carreira no futebol, decidiu rumar à Europa e inscrevê-lo no Benfica, em Lisboa. Capa da Vogue Itália deste mês, a partir de Lisboa, conta como aos 60 anos a aventura é diferente da que viveu quando aos 19 anos se mudou sozinha para Nova Iorque. «É um tipo de desafio diferente. Quando me mudei para Nova Iorque era só eu, tomar conta da criança que havia em mim. Continuo em modo de sobrevivência, mas agora tenho quatro crianças em quem pensar, a sua educação, cuidar deles e certificar-me de que estão felizes.»