Politica

Le Pen. 'Persona non grata'

Tão depressa foi convidada como deixou de ser. A presença de Marine Le Pen na Web Summit irritou parte das forças políticas portuguesas. E se alguns ficaram felizes com a decisão de Paddy Cosgrave de retirar o convite, outros acreditam que a decisão foi  um ato de censura ou uma vitória para a extrema-direita.

 

O convite feito a Marine Le Pen pela organização da Web Summit para integrar  um debate gerou polémica em Portugal. As redes sociais encheram-se de críticas e Paddy Cosgrave, CEO da empresa que organiza  a cimeira tecnológica, chegou mesmo a retirar o convite.

«Nunca devia ter sido convidada logo à partida», disse ao SOL João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria e um dos responsáveis pela organização da primeira edição do evento em Portugal. «O que está na origem do convite é a vontade de se discutir - no maior evento sobre tecnologia do mundo - quando a tecnologia é usada para fins menos próprios», explicou o ex-governante. «Se para essa discussão é necessária a presença de Le Pen? Não, não é necessária.»

O Bloco de Esquerda (BE) e o PCP foram os principais partidos a manifestar-se contra este convite feito à líder da Frente Nacional francesa. «O que está em causa são as posições completamente antidemocráticas e que apelam ao racismo, à xenofobia e ao ódio. Portanto, não estamos a falar da diferença de opinião nem do espetro político», afirma Marisa Matias, eurodeputada do BE. Já o PCP publicou um comunicado em que condena a promoção da «ideologia e figuras proeminentes da extrema-direita. Facto tão mais inaceitável quando se está a perante uma iniciativa realizada em Portugal com apoios públicos».

O apoio financeiro que o Governo faz à organização da Web Summit é a principal razão que levou os dois partidos que apoiam o Executivo de António Costa a protestar contra a presença da líder da Frente Nacional num evento com importância mundial. «A polémica teve precisamente a ver com o facto de ter dinheiros públicos envolvidos», explicou Marisa Matias. «Marine Le Pen encontrará sempre o seu espaço, não precisa que seja o Estado português a promovê-lo», remata a eurodeputada.

 

Extremismos em debate

A discussão nas redes sociais acabou por extrapolar. «O que tem havido muito é aquela questão ‘quem é mais extremista? A esquerda ou a direita’», afirma Rubina Berardo, vice-presidente da bancada parlamentar do PSD. «Neste caso também é preciso sublinhar que não foi convidado Nicolas Maduro para falar no Web Summit, mas foi convidada Marine Le Pen. Até tendo em conta a nossa inserção na União Europeia, temos de questionar a realização deste género de eventos no nosso território», acrescentou.

Para a deputada socialista Isabel Moreira a questão vai mais longe do que isso: «Eu penso que é gravíssimo que tenha ocorrido aos organizadores da Web Summit convidar Le Pen porque, no fundo, é normalizar o fascismo e a extrema-direita.» Nuno Sá, também deputado do PS, não se sente à vontade com a utilização do termo ‘fascista’, defendendo que a Frente Nacional não é um partido «antidemocrático que faz a apologia da prática de crimes, de racismo, de xenofobia, de extermínio, de homicídio... Penso que não é disso que se trata». 

Outro deputado socialista, Miranda Calha, considera que «só partidos totalitários é que podem defender que aquela senhora seja afastada da organização do evento» defendendo que «a democracia tem uma fraqueza que é deixar em liberdade aqueles que são contra a liberdade», mas «essa  é também a força da democracia».

 

Pingue-pongue de responsabilidade

Confrontado com a polémica, Paddy Cosgrave passou para o Governo a responsabilidade de decidir se Le Pen poderia vir ou não ao evento. Numa carta publicada, o CEO da Web Summit afirmou que «a paz veio, em parte, porque as pessoas falaram e as pessoas ouviram todas as visões, sem importar quão cheias de ódio estavam», deixando a porta aberta ao Governo de António Costa para tomar a decisão complicada. «Se os nossos anfitriões em Portugal, o governo português, nos pedir para cancelar o convite a Marine Le Pen, iremos respeitar o pedido e fá-lo-emos imediatamente», pode ler-se na missiva.

João Paulo Correia, deputado do PS, considera esta posição assumida por Cosgrave uma «chico espertice». «Quando decidiu convidar Marine Le Pen para a Web Summit, não pediu autorização ao Governo nem opinião. Mas quando se tratou de desconvidar procurou empurrar a ‘responsabilidade do convite’ para o Governo», disse ao SOL, acrescentando que esta atitude «não fica bem a quem exerce uma responsabilidade tão elevada num evento à escala mundial».

Porém, em comunicado, o Governo garantiu que não iria tomar essa decisão porque, «estando, pelo seu impacto, empenhado no acolhimento deste evento privado, [o Executivo] não tem, como em outros eventos, intervenção na seleção de oradores». A Web Summit é «um fórum alargado de discussão de tendências de mercado, cujo alinhamento - oradores e programa - é da exclusiva responsabilidade da organização».

Paddy Cosgrave acabou por assumir a responsabilidade da retirada do convite à política francesa. «É claro agora para mim que a decisão correta para a Web Summit é rescindir o convite a Marine Le Pen», escreveu o CEO na sua página oficial do Twitter, acrescentando que, «com base no aconselhamento recebido e na enorme reação online», a presença da eurodeputada «é desrespeitosa, em particular no país anfitrião».

Para o CDS, a decisão de retirar o convite acabou por dar uma vitória a Marine Le Pen. «A forma certa de combater e ganhar a estas ideias radicais é precisamente através do debate de ideias e não evitando ou calando», afirma a deputada Ana Rita Bessa. Depois de ter sido avançado o convite, estar a voltar atrás «é quase como dizer que as nossas ideias não têm força suficiente para serem debatidas» com as da líder da Frente Nacional.

 

Governo não pode passar ‘cheques em branco’

A proposta defendida pelo PSD antes da organização ter anunciado a decisão de retirar Le Pen da lista de oradores era a de pôr fim ao apoio dado ao evento, tanto pelo Governo como pela Câmara Municipal de Lisboa.

A importância e o retorno da Web Summit para Portugal não é colocada em causa por nenhum dos políticos contactados pelo SOL, no entanto há quem questione o «cheque em branco» que é passado pelo Governo à organização.

«O que me parece muito estranho é não haver um protocolo, regras escritas, um acordo, sobre a definição dos oradores participantes na Web Summit», critica Nuno Sá. O deputado considera importante que o Governo e a autarquia de Lisboa apoiem o evento, tendo, porém, o cuidado de saber anteriormente quem são os oradores. «O que me parece é que houve aqui um cheque em branco», afirma.

Uma opinião partilhada por Ana Rita Bessa: «A partir do momento que haja um investimento público, é estranho que não haja previamente um alinhamento e que seja na praça pública que se use um lápis vermelho para decidir - e de forma bastante opaca - quem é que pode ou não pode ser passível de ser convidado para o Web Summit».

Por outro lado, tanto Rubina Berardo como António Topa, ambos do PSD, consideram que o Estado fez bem em não se envolver na decisão de desconvidar Marine Le Pen. «Se o Governo não interferiu, isso é uma opção das pessoas que lideram o processo, é normal. Elas podem convidar e depois desconvidar», disse Topa.

 

Convites polémicos

O de Marine Le Pen não é o primeiro convite que gera polémica a nível político na Web Summit. Na edição do ano passado, foram convidados como oradores Brad Parscale, estratega da campanha digital de Donald Trump, e Nigel Farage, antigo líder do partido nacionalista britânico UKIP e um dos principais defensores do Brexit.

«É essencial que quem esteja a trabalhar em empresas tecnológicas saiba que a tecnologia também pode ser usada por estes movimentos», afirmou João Vasconcelos, lembrando que a intervenção de Brad Parscale em nada lhe agradou.

Também Manuel Agostinho Magalhães, conselheiro político do partido europeu ALDE, recorda que «ninguém reagiu à presença de Farage», ressalvando que as ideologias defendidas pelo eurodeputado são diferentes das defendidas por Le Pen. «Inevitavelmente ela teria um palco. Pela notoriedade que tem seria por si só foco de atenção na Web Summit e isso seguramente não é pretendido pelas forças políticas e pelo próprio Governo».