Política a sério

A estratégia política para os incêndios

A estratégia definida este ano pelo Governo para enfrentar os fogos florestais assentou em dois pilares:

1- Como medida preventiva, obrigar os proprietários a limparem os terrenos;

2- Como medida reativa, evacuar as áreas em risco, para evitar a ocorrência de mortes.

A primeira parte desta estratégia é utópica e a segunda é muito discutível.

A tentativa de prevenir os incêndios através da limpeza dos terrenos esbarra na realidade: 97 ou 98% da floresta portuguesa pertence a particulares, muitos terrenos não se sabe de quem são e, dos que se conhecem os donos, muitos deles não têm possibilidades económicas para os mandarem limpar. 

As pesadas multas com que se ameaçaram os incumpridores conduziram, aliás, a situações chocantes.

Com medo de serem multados, e sem meios para pagar a limpeza, muitos pequenos proprietários meteram-se a fazer queimadas e alguns ficaram lá.

Se é verdade que não houve mortos em Monchique, três ou quatro pessoas morreram nesta Primavera a tentar limpar as suas terras.

 

Acresce que a limpeza é um trabalho que nunca está feito: pode fazer-se em Maio, mas se em Junho chover, como aconteceu este ano, é preciso voltar a fazer tudo de novo.

É um esforço muitas vezes inglório. 

E que parece frequentemente inútil: um proprietário pode limpar o seu terreno, mas se o vizinho do lado o não fizer, o fogo passa na mesma. 

Aliás, muitas pessoas que limparam as suas terras este ano e elas arderam, que motivação têm para o voltarem a fazer no futuro?

A limpeza dos terrenos é uma prática louvável, em que é preciso insistir, mas é uma ilusão pensar que por aí se conseguirá reduzir significativamente os incêndios.

Mesmo com muito esforço, apenas uma ínfima parte do território nacional estará limpa ano após ano. 

A prevenção assente na limpeza é uma miragem - e um assunto tão sério não pode assentar em miragens.

 

PASSEMOS agora à evacuação das populações.

Tendo em conta que, para o poder político, a ocorrência de mortes é sempre o mais penalizador, o Governo deu ordens terminantes para se evacuarem as populações, nem que fosse à bruta.

Pensando no que aconteceu há um ano, António Costa não quis correr nenhuns riscos.

Só que, se é muito bonito o primeiro-ministro ou o ministro da Administração Interna poderem dizer no fim de um incêndio que não morreu ninguém (e ouvimo-los dizer isso dezenas de vezes), a evacuação significa em muitos casos entregar os bens das pessoas às chamas.

Os bombeiros não chegam para tudo.

Como se viu em Monchique, muitas coisas só não arderam porque os populares as salvaram. 

Assim, sendo obviamente necessário evacuar velhos, crianças e doentes, seria razoável aproveitar os homens e as mulheres válidos para o combate ao fogo. 

Se as populações que vivem nas vilas e aldeias tivessem uma formação básica no sentido de saberem como atuar em caso de incêndio, poderiam ser utilíssimas na ajuda aos bombeiros ou mesmo na defesa de locais onde os bombeiros não vão. 

 

A posição do Governo foi mais ou menos esta: desde que se salvem as vidas, o resto é secundário. 

Ora, é preciso ver que, para quem perde tudo num incêndio, a vida perde em boa parte o sentido.

Uma pessoa de certa idade, que vê a sua casa queimada, que vê os seus animais mortos, as árvores ardidas, as alfaias destruídas, que perde tudo o que tinha, todas as economias, todos os haveres amealhados durante a vida, que motivação tem para continuar a viver?

Nenhuma.

Aliás, por isso, após o grande incêndio de 2003 muita gente morreu desta e daquela doença - mas, de facto, morreu de desânimo.

Não tinha forças para recomeçar.

E, já agora, o que pensarão as pessoas que foram evacuadas e que, no regresso às suas terras, viram as casas destruídas - sabendo que outras ficaram de pé porque os seus donos se recusaram a sair e as defenderam?

Pensarão naturalmente que, se lá tivessem ficado, também conseguiriam proteger o que era seu.

E culparão a GNR que os expulsou.

 

Tudo somado, tendo em conta que a limpeza dos terrenos não chega para evitar os incêndios, longe disso, e que a evacuação sem critério, entregando tudo às chamas, também faz pouco sentido - que fazer?

Venho de há muito a defender a deteção precoce dos fogos.

E com o imenso arsenal tecnológico que hoje possuímos, julgo que criar um sistema de deteção precoce não seria difícil.

Com satélites, meios aéreos, drones, câmaras de vídeo, GPS - sem esquecer as velhas torres de vigia - será relativamente fácil montar um sistema de vigilância que sinalize os incêndios à nascença.

E isso permitirá um ataque rápido, não deixando que as chamas alastrem.

Note-se que um sistema destes tem a vantagem de se instalar e ficar feito - ao contrário da limpeza, que nunca está acabada. 

 

Apostou-se muito na prevenção, apostou-se tudo na evacuação - mas não se fez aquilo que seria mais racional e que o Governo pode fazer sem ter de pedir nada a ninguém: apostar fortíssimo na deteção precoce.

Sendo os fogos detetados na primeira meia hora, e havendo aceiros que permitam a circulação dos bombeiros na floresta, os fogos poderão ser abafados à nascença, nunca assumindo proporções dramáticas.

É aqui que vale a pena apostar forte.

Estar sempre a falar do mesmo - desde os ‘meios’ à disposição dos bombeiros, que são sempre ‘insuficientes’, ao reordenamento da floresta, que demorará décadas a fazer (se se fizer) - não conduz a nada.

A mudança que se impõe não está na prevenção nem na Proteção Civil - está simplesmente na vigilância rigorosa da floresta e no ataque imediato às ignições.

 

P.S. - O PR propôs uma comissão permanente para investigar os incêndios. O primeiro-ministro criou uma nova empresa para prevenir os incêndios e promover a floresta (a FloresGal). Uma vez mais, em lugar de agirem com os instrumentos que têm à disposição, as autoridades criam novos organismos… Assim, nunca chegaremos a lado nenhum.