Crónica

«És 1 estrela»

DR  

Este grafito, de grandes dimensões, foi fotografado no Porto pelo Paulo, e nele lê-se: «És 1 estrela». A dimensão e o colorido chamam a atenção para esta homenagem prestada a alguém de quem a pessoa que fez a pintura gosta muito e que admira, como uma estrela brilhante no firmamento.

Ser uma estrela é ser alguém especial, que se destaca pelo talento que tem. Ser uma estrela é revelar características únicas, que fazem com que a pessoa se destaque daquelas que a rodeiam. Ser uma estrela é ter um brilho tão intenso que é impossível não notar a sua singularidade. E ser considerado uma estrela por aqueles de quem mais gostamos é algo que nos faz sentir únicos, valorizados e amados. Um amigo capaz de escrever tal declaração na parede é alguém que não se pode perder, que deve ser acarinhado como o melhor amigo do mundo, como uma pessoa especial, que vê em nós aquilo que talvez mais ninguém veja e que acredita no que somos capazes de fazer.

Poder contar com alguém assim é uma bênção, é como se fôssemos tocados por pó de estrelas, num mágico retorno à infância, em que seres maravilhosos conviviam com todos os seres reais, numa harmonia que nunca mais encontramos ao longo da vida. E a infância é um período fértil em acontecimentos mágicos e surpreendentes. Felizes os que, em adultos, podemos recordar a infância como um período feliz, em que o «faz de conta» era real e o mundo todo fluía e conspirava para que fôssemos felizes.

Felizes, pois, os que são capazes, como diz Miguel Torga, de pegar numa estrela de papel e vê-la tornar-se estrela de verdade: «O menino tinha lançado a estrela / Com ar de quem semeia uma ilusão / E a estrela ia subindo, azul e amarela, / Presa pelo cordel à sua mão. // Mas tão alto subiu / Que deixou de ser estrela de papel. / E o menino, ao vê-la assim, sorriu / E cortou-lhe o cordel».

É esta recordação de uma infância feliz que nos permite crescer como adultos fortes e estruturados, capazes de aproveitar todas as oportunidades para sermos felizes e para tornarmos felizes aqueles que estão à nossa volta.

Pena é que algumas pessoas queiram ser «estrelas» apenas para serem conhecidas e reconhecidas na rua, gozando a fama. E é isso que alguns procuram nas redes sociais, onde colocam fotografias suas tiradas em todos os locais que visitam, com todas as pessoas que conhecem, documentando, passo a passo, os seus dias. Diz Tolentino Mendonça a propósito: «Um texto recente da psicanalista Elsa Godart, “Faço selfies, logo existo”, mostra bem o que está em jogo, de forma declarada ou latente, nesta enxurrada de imagens que quotidianamente nos submerge; um desesperado desejo de ser, mesmo que não saibamos o quê; uma compulsiva vontade de partilhar que estivemos ali, naquela situação e naquele lugar, sobrepondo-se esse exibicionismo a qualquer outra partilha de razões ou de sentido. Recebemos e emitimos imagens que pretensamente ampliam, em rede, a realidade. Mas a verdade é que o seu resultado, na maior parte das vezes, redunda num imenso empobrecimento comunicativo. Quando reduzimos o mundo a uma acumulação de imagens simplificadoras, as imagens simplificadoras substituem-se ao mundo».

Pena é que assim seja. O mundo exterior e o mundo interior são tão mais vastos e cheios de sentido. É este o motivo de também haver pessoas que partilham, nas redes sociais, textos que escrevem, fotografias artísticas que tiram, quadros que pintam ou, mesmo, fotografias que captam em locais que consideram belos e merecedores de serem partilhados. Há, pois, boas e más utilizações dos meios de comunicação ao nosso dispor; tudo depende, enfim, do propósito que temos quando os utilizamos e dos objetivos que escolhemos quando o fazemos. Tudo depende também da vontade que temos de aprisionar o tempo em imagens estáticas, tentando que não passe, procurando que não vá…

 

Maria Eugénia Leitão

Escrito em parceria com o blogue da Letrário, Translation Services