Opiniao

Entre mãe e bebé não se mete a colher

Um dia destes num restaurante assisti a uma situação que é recorrente. Uma mãe de bebé ao colo num almoço com familiares e amigos era assoberbada com opiniões, conselhos e críticas acerca da forma de cuidar do filho.

Parece que para muitas pessoas é irresistível não mandar um ou outro bitaite quando veem uma recente mãe. Acredito que na maioria das vezes a intenção seja ótima, mas muitas vezes o resultado não é o melhor.

O bebé não recebe uma só visita, nem é visto por uma só pessoa, seja na rua seja noutra ocasião. Pelo contrário, normalmente os bebés trazem mel e todos se aproximam para o ver, o que se traduz numas boas dezenas de sugestões e críticas que vão chegando diariamente. Ora, se uma mãe não estiver muito segura do caminho que está a seguir, estas opiniões, muitas vezes contraditórias, só irão gerar uma enorme confusão na sua cabeça:

- É uma pena mas não tens leite. Olha como ele chora. Está cheio de fome.

- Não dês suplemento que faz mal. Todas as mães têm leite, ele chora porque tem sono.

- Estás sempre fechada em casa? Tens de ir para a rua com o bebé!

- Não vás para a rua que ele apanha uma pneumonia.

- Olha que ele tem frio.

- Olha que ele tem calor. 

- Não o podes deitar de barriga para cima porque se bolçar sufoca.

-Não deites de barriga para baixo que não respira.

- Não ponhas de lado que rebola.

 

Enfim. As sugestões são tantas quanto a imaginação e empenho de cada um. E muitas vezes as mais difíceis de receber e capazes de provocar verdadeiros cataclismos são as dadas pelas mães e sogras do casal. Há uma luta pelo título da melhor mãe e ambas têm pontos a favor: se a geração anterior tem mais experiência, a sucessora tem um conhecimento mais atual. Este é um assunto muito delicado e quando provoca desconforto tem de ser gerido com algum tato. Conheço demasiados casos em que familiares muito interventivos ajudaram a provocar grandes desarmonias entre o casal, que está também numa fase mais sensível e de afirmação. Curiosamente não só com as mães do novo bebé, mas sobretudo com o pai, a quem é passado um atestado de incompetência perante o qual se revolta ou se demite.

Não quero com isto dizer que a ajuda dos outros não seja importante, ainda mais de quem é próximo. A ajuda é essencial mas deve ser dada quando é necessária. Os pais precisam de espaço para as suas descobertas e de se sentirem seguros no seu papel. Poucos erros trarão consequências graves e, em geral, não há fórmulas certas nem erradas. Cada um tem a sua. Muitas vezes vejo coisas que faria de outra forma e tenho de me conter para não dizer nada. Penso que provavelmente a minha opinião, sendo uma entre mil, fará mais ruído do que trará vantagens. E lembro-me da história do velho, do rapaz e do burro: as possibilidades poderão ser várias, mas a mais certa será provavelmente a que é tomada pelos próprios. E estes também deverão selecionar a informação chegada com tranquilidade, partindo do princípio que a intenção é sempre a melhor: contribuir para o bem-estar do novo bebé.

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