Internacional

Venezuela. Futuro virtual

O plano macroeconómico posto em marcha esta semana pelo governo de Nicolás Maduro depende muito do petro, a criptomoeda que vale o preço de um barril de petróleo.

Anova moeda do país, o bolívar soberano veio tirar cinco zeros à moeda antiga, tornada impraticável pela hiperinflação. Com o país numa «dolarização induzida», como lhe chamou o Presidente Nicolás Maduro, pelos agentes económicos que não confiam na divisa venezuelana, o governo também criou uma criptomoeda, o petro, para servir de referência: por exemplo, o novo salário mínimo é de 1800 bolívares soberanos ou meio petro (equivalente a 30 dólares).

É uma medida ousada esta de colocar uma divisa digital como referência não só para o salário mínimo, também para as taxas de câmbio do bolívar e o preço dos produtos. Com a hiperinflação transformando a economia num caos, Caracas procura no mundo virtual a âncora que não consegue na realidade para começar a inverter a sangria económica em que vive atualmente – o FMI calcula que a inflação na Venezuela chegue a 1 000 000% este ano.

«Ancorei o salário mínimo dos trabalhadores no petro, unidade de conta monetária venezuelana e criptomoeda venezuelana que tem um preço internacional e está apoiada na riqueza petrolífera venezuelana, não está no vazio, a nossa moeda petro está apoiada em cinco mil milhões de barris de petróleo», afirmou o chefe de Estado venezuelano na reunião de trabalho, de quarta-feira, com movimentos e organizações sindicais.

Entre o planeado pelo Governo e as expectativas está o mercado ilegal de divisas para lhe dar um choque de realidade. Antes de pôr o novo bolívar soberano a circular, e além de cortar cinco zeros em relação à moeda antiga, o Governo também desvalorizou a moeda em 95%, numa tentativa de deter a especulação. Debalde. Está a nova moeda a dar os primeiros passos e o câmbio paralelo já anda a flutuar muito para lá dos 60 bolívares por dólar do câmbio oficial. Há quem troca dólares a 90, mas também quem tenha ido até aos 120 bolívares soberanos por dólar. Sinal de falta de credibilidade do valor oficial e perspetiva de que a hiperinflação acabará por deitar por terra o valor da nova moeda.

O Governo de Maduro procura combater a queda da nova moeda com medidas políticas e a força policial. Por um lado, publicou o preço acordado com os produtores de 25 produtos do cabaz, por outro deteve Alejandro Quintana e Graziano La Rosa, gestores da loja PlanSuárez, por açambarcamento e cálculo fraudulento da nova moeda. O Executivo ameaça com mão dura os comerciantes que não respeitem os preços estabelecidos.

O procurador-geral, Tarek William Saab, mostrou-se disponível para colaborar com o poder executivo para lutar contra os «delitos económicos», disponibilizando mais de uma centena de delegados do Ministério Público para auxiliar a polícia nessa tarefa. Maduro disse-o, em discurso à nação, «o povo tem que respeitar os preços que acordamos. Se alguém os viola, avisam-nos e nós vamos prendê-lo».

No entanto, há quem questione a credibilidade do Governo para tentar impor estas restrições: «Este projeto tem sérios problemas de credibilidade: vem de um Governo que há anos vem imprimindo dinheiro sem base de sustentação e produziu grandes distorções fiscais e orçamentais», afirma ao El País Francisco Rodríguez, presidente da Torino Capital. «O Governo promete disciplina fiscal, mas poucos acreditam», acrescenta.

Na quinta-feira, o Executivo assumiu o controlo da multinacional irlandesa Smurfit Kappa – que fabrica embalagens de papel – e deteve dois funcionários por «delitos de especulação, boicote, desestabilização da economia, contrabando». A Superintendência Nacional para a Defesa dos Direitos Socioeconómicos anunciou a «ocupação temporária» da fábrica da empresa no estado de Carabobo por tentar «sabotar a produção nacional», não querendo vender à Industrias Diana, empresa de alimentos expropriada em 2008.

Lavagem de dinheiro da empresa petrolífera do Estado

Numa semana em que a Venezuela foi atingida pelo pior terramoto num século, com 7,3 na escala de Richter (por sorte o epicentro foi a grande profundidade e não há notícias de vítimas), um banqueiro admitiu ter ajudado a lavar dinheiro desviado da empresa pública de petróleos da Venezuela. Mathhias Krull, um alemão residente no Panamá, usou o seu cargo de vice-presidente do banco suíço Julius Bär para lavar 1,2 mil milhões de dólares de subornos e fraudes da PDVSA, única fonte de divisas da Venezuela. O grupo tentou comprar propriedades em Miami, usando esquemas de investimento complexos para esconder a proveniência do dinheiro. O banqueiro declarou-se culpado no processo atualmente a decorrer nos Estados Unidos.

Um êxodo de 2,3 milhões de pessoas

É um dos maiores movimentos de população da história da América Latina. Desde junho, 2,3 milhões de venezuelanos deixaram o país, principalmente para a Colômbia, Equador, Peru e Brasil, diz a ONU. Dessa massa humana que representa 7% da população, 1,3 milhões «sofrem de malnutrição», de acordo com o porta-voz de António Guterres, Stéphane Dujarric.

A carência de medicamentos está a deixar os hospitais e os centros de saúde sem forma de responder aos problemas das populações e doenças anteriormente erradicadas do país, como sarampo, malária, tuberculose e difteria, voltaram «e estão a crescer», acrescenta Dujarric.

O Governo do estado brasileiro de Roraima, por onde estão a entrar muitos venezuelanos, exigiu ao Executivo federal que imponha um cordão sanitário, solicitando na fronteira o boletim de vacinas.

Muitos venezuelanos cruzam as fronteiras dos países vizinhos para conseguir medicamentos ou para vacinar os filhos. O Governo colombiano abriu um posto de vacinação na pequena cidade de Villa del Rosário só para atender os venezuelanos que cruzam a ponte desde San Antonio del Táchira. Calcula-se que cerca de 1 milhão de crianças não conseguiram ser imunizadas por falta de vacinas na Venezuela.

A reportagem da BBC encontra Laura Castellanos a cortar o cabelo numa banca de rua. Aos 25 anos, mãe de três filhos, um deles a bebé de dois meses que está ao seu colo, está a vender pela primeira vez o seu cabelo para angariar dinheiro para comprar insulina para a filha mais velha, de oito anos, que é diabética. Pagam-lhe 30 mil pesos colombianos (8,72 euros), o que lhe permite comprar duas canetas no mercado paralelo (bancas de ruas que vendem remédios em frascos de plástico), mais arriscado, mas substancialmente mais barato que nas farmácias. «As pessoas estão a morrer na Venezuela porque não conseguem os medicamentos», conta Laura à repórter da BBC.

De acordo com a Cruz Vermelha Internacional, um milhão de venezuelanos foi para a Colômbia nos últimos quatro anos. No vizinho Peru, o anúncio de que a partir de hoje passa a ser exigido passaporte na fronteira (o Governo peruano suspendeu o acordo fronteiriço), levou a uma corrida aos pedidos de asilo – os 90 mil do primeiro trimestre são quase o triplo das solicitações em todo o ano de 2017.

A odisseia de um novo passaporte

As filas à porta dos serviços centrais de Imigração e Estrangeiros em Caracas parecem um entrelaçar de cobras intermináveis. A vontade de fugir à crise económica assoberbou a máquina burocrática, ineficiente e vítima da corrupção, e há quem chegue a esperar até dois anos por um passaporte.

Em junho, o diário ABC dava conta de funcionários que pediam até mil dólares para renovar um passaporte e entregá-lo em três dias. Em julho, o Governo reconheceu que havia máfias a funcionar dentro dos serviços e ordenou uma reestruturação.

«Vamos declarar a guerra contra a corrupção e a burocracia no SAIME [sigla oficial do serviço]», afirmou o ministro do Interior e da Justiça, Néstor Reverol. Ao todo, foram detidas 321 pessoas durante o primeiro semestre deste ano, acusadas de extorsão. Ao assumir funções, a nova administração garantiu que tem como objetivo principal atualizar a plataforma digital do SAIME para agilizar a tramitação de passaportes e outros documentos.

Com cada vez mais venezuelanos a pensar em emigrar – numa sondagem do final de 2017, metade da população entre 18 e 29 anos disse que queria deixar o país –, é natural que os serviços estejam a rebentar pelas costuras. Daí que entre as medidas que estão a ser estudadas está a possibilidade de prolongar o documento por mais cinco anos – até agora, só se permite por dois anos –, o que aliviaria a necessidade de emitir novos documentos e agilizar o processo.

Até agora, os venezuelanos têm aproveitado os acordos de livre circulação com os países vizinhos para deixarem o seu país, mas os Governos das nações limítrofes começam a colocar entraves à livre circulação, desbordados por um fluxo de refugiados que está a provocar problemas de relacionamento com as populações. Como aconteceu no fim de semana passado em Paracaima, no Brasil, quando uma multidão de brasileiros enfurecida, depois de um taxista ter sido alegadamente roubado e agredido por venezuelanos, ter deitado fogo aos bairros improvisados dos imigrantes, que tiveram de se pôr em fuga – 1200 cruzaram a fronteira de volta à Venezuela. O Equador decretou o estado de emergência em três províncias – todos os dias, quatro mil venezuelanos chegam ao país. A ONU diz que os migrantes precisam de estatuto legal, documentação, abrigo e acesso a cuidados de saúde.