Economia

Queiroz Pereira: Das corridas ao sucesso nos negócios

Amigo de Ayrton Senna, queria dedicar-se à velocidade, ao rali. Mas acabou por pegar nos negócios da família e tornou-se um dos maiores industriais do país.

A maioria recordá-lo-á como um dos maiores industriais portugueses, e um dos homens mais ricos do país. Amante dos prazeres da vida, Pedro Queiroz Pereira morreu no sábado passado no seu iate, aos 69 anos, em Ibiza. No entanto, quem o conheceu noutros tempos, guarda-lhe também a generosidade e o gosto pelas corridas e pelos carros.

Já há muito que tinha deixado as corridas, mas não as memórias que ficaram desses tempos. A atração pela velocidade começou cedo e desenvolveu-se quando, no seguimento do 25 de Abril, Pedro Queiroz Pereira foi viver com a família para o Brasil. Ali começou a correr e adquiriu o nome que os mais próximos lhe deram: PêQêPê. As corridas apenas terminaram quando, em 1984, ao disputar o primeiro lugar no rali de Portugal, na Cabreira, sofreu um acidente em que o seu automóvel voou vários metros. A violência foi tal que a Polícia achava que não havia sobreviventes. Queiroz Pereira chegou a ser campeão de stock car no Brasil, onde conheceu e ficou amigo de Ayrton Senna.

«Conheci-o ainda no tempo dos treinos noturnos em Sintra e foi ele que me apresentou o Ayrton Senna [piloto brasileiro que viria a ser uma das maiores lendas de Fórmula 1]. Conheceram-se quando o Senna estava ainda em início de carreira e eram mesmo muito amigos. Recordo-me da primeira que entraram juntos no restaurante Rampoldi, ainda o Senna era corredor de Fórmula 3, em Inglaterra», recorda Gigi, dono de um dos restaurantes mais icónicos do país. «Os carros do Senna [em Portugal] até estavam em nome dele, estavam aqui na Quinta do Lago. Um Mercedes e um Subaru».

Na paixão pelas corridas, como na vida e, mais tarde, nos negócios, Queiroz Pereira não gostava de perder. Foram várias as guerras que travou. Atacava quando se sentia atacado e a verdade é que, sem a intervenção do empresário, o universo GES não teria tido o desfecho que teve em 2014.

Foi Queiroz Pereira que descobriu as contas que revelaram o esquema na origem da ruína do grupo liderado por Ricardo Salgado. Homem de força, guardava poucos nomes na lista de inimigos, mas com os que lá estavam travou duras batalhas. Com Ricardo Salgado acabou por vencer a guerra. 

Embora muitos não se tenham dado conta do protagonismo de Pedro Queiroz Pereira na derrocada do GES, foi ele quem contratou uma equipa de advogados que investigaram a tempo inteiro as contas do grupo. Não foram preciso meses, nem anos, bastaram semanas. O empresário juntou todas as informações e fez com que seguissem para o Banco de Portugal. 
O industrial não fez tudo sozinho. Outros nomes pesaram na queda de Ricardo Salgado, mas foi determinante. E o motivo foi simples e fácil de explicar: Pedro Queiroz Pereira quis defender o que era seu. Ainda que já existisse um historial de problemas entre os dois, terá sido o ataque de Salgado a gota de água. Queiroz Pereira teve conhecimento de que, ao contrário do que diziam, havia uma aliança entre Ricardo Salgado, os primos Carrelhas e Maude Queiroz Pereira, sua irmã. Ficou convencido de que o objetivo final de Salgado era ficar com o controlo da Semapa.

Maude sempre acusou Pedro de ter ficado com o controlo do grupo de forma ilegal. Oirmão defendeu sempre que a operação era legítima e que Maude deixara de ter a confiança dos acionistas porque não assinou as contas. Seja como for, conseguiu tirar poder à irmã e conseguiu separar os dois grupos. Trocou as ações que o grupo Espírito Santo tinha na Semapa (40%) pelas ações que os Queiroz Pereira tinham no GES (7,67%). Depois de ter o controlo da Semapa e de ter conseguido afastado a ameaça de Salgado, deixou que o império caísse por si mesmo.

A verdade é que, apesar de as duas famílias terem tido ligação durante várias décadas, o que incluía alguns negócios, Pedro Queiroz Pereira e Ricardo Salgado tiveram vários choques, principalmente, depois de, em 2000, na OPA da Cimpor, Queiroz Pereira ter ficado com a certeza de que Ricardo Salgado tinha um objetivo muito definido: entrar na Semapa.

Ficou também conhecida, entre outras, a guerra com o Governo de António Guterres, em 2011, por causa da Cimpor que tentou controlar, sem sucesso. Pedro Queiroz Pereira chegou a chamar mentiroso a Joaquim Pina Moura, então ministro das Finanças. Há quem garanta que esta operação fracassada foi uma das maiores mágoas do empresário. 
Ainda assim, apesar de temperamental, «tinha qualidades extraordinárias. As pessoas que trabalhavam com ele, por exemplo, eram sempre as melhores do mundo. Valorizava sempre o pessoal dele e é difícil um empresário ser assim». Quem o garante é Gigi, que destaca ainda a generosidade. «Era um grande amigo dos seus amigos».amigos».