OPINIÃO

F… de Franqueza

Começo com uma tripla igualdade: Franqueza = Sinceridade = Lealdade.

Não há muito tempo, escrevi uma crónica em que denunciava falhas clamorosas do Ministério Público e dos Tribunais mas, por cautela, submeti-a ao crivo de nove juristas amigos: cinco advogados, dois magistrados do MP e dois magistrados judiciais. 

O resultado não poderia ser mais esclarecedor: dois nada disseram; dois responderam de imediato, um a aplaudir, outro a sugerir um pequeníssimo acrescento; os últimos cinco não pouparam nos alertas, sugestões e, até, reprimendas. Prudentemente, acolhi todas as sugestões, que só pretendiam proteger o amigo.

 

Habituei-me a acreditar mais nos que discordam do que naqueles que abanam a cabeça, seja o que lhes é dito coisa acertada ou rematado disparate. 

Por comodismo, dizem sempre ‘Sim’, sem acrescentarem um grama de utilidade, lembrando os cavalheiros Dupond e Dupont, que em nada ajudavam o herói Tintin e a cadela Milu. 

Com a experiência, e os erros, aprendemos que os amigos confiáveis são os que dizem na cara o que têm a dizer, nada ficando para comentar pelas costas. A franqueza pode ferir, mas tem o selo de garantia da amizade. Infelizmente, não é este o padrão nos países do Sul da Europa. 

 

A sul cultiva-se a aparência, que é a face menos virtuosa de um Vaticano incapaz de expulsar os ‘sepulcros caiados de branco’, que Cristo condenou sem rodeios; já no norte, prevalece a influência luterana, que incita a respeitar a substância e a subalternizar a forma. 

Uma tradição de valorizar mais a embalagem que o conteúdo explica a tendência para o comentário superficial, no geral ignorante, que fez nascer essa coisa formidável que é o ‘achismo’. Não há quem não ‘ache’ alguma coisa, não importa a que respeito…

Felizmente, os domínios onde mais abundam os profissionais do palpite são a política e o futebol. Irritam, maçam, mas as consequências ficam-se pelo ruído. 

A coisa muda de figura quando os árbitros da sabedoria aterram no ambiente profissional, no círculo de amigos ou, pior que tudo, na família. Aí, fia mais fino, porque é posto em causa o essencial da vida em sociedade, que é a segurança nas relações pessoais. Quando a palavra deixa de valer, sobram a desconfiança e a suspeita, que fragilizam as estruturas humanas, tanto quanto a ferrugem corrói as metálicas.

 

Num mundo de ‘faz de conta’, de que valem os partidos e os seus programas? Onde está a fidelidade às promessas que valeram votos? Quando Governo e oposições debatem no Parlamento, como distinguir a sinceridade da demagogia ou, mesmo, do mais cínico dos embustes? 

Que crédito podem merecer proclamações e juras feitas nas televisões e nas entrevistas aos jornais? Mostrem-me alguém que confie no Parlamento, no Governo, ou nas oposições e eu retiro tudo o que acima escrevi. 

Mal por mal, antes os sábios do futebol, que prepararam a nova época com a paixão habitual. Em Setembro, teremos de volta as encenações da Assembleia da República. E há quem diga que o teatro está em crise…