Economia

Elon Musk. Depois de 'salvar' a Tesla, pode agora destruí-la

Em 2004, o agora CEO da empresa norte-americana foi autor do primeiro grande financiamento da Tesla. Hoje, enfrenta a maior crise de sempre da empresa - e as publicações no Twitter, da sua própria autoria, parecem ser as suas maiores inimigas. Um momento que Elon Misk define como 'angustiante'.

Foi através de um tweet que o CEO da Tesla confirmou a vontade de querer tirar a empresa da bolsa a 360 euros por ação. O problema é que privatizar a empresa de catros elétricos não é tão fácil quanto partilhar uma mensagem no Twitter, até porque afinal os investidores sauditas que Musk afirmou estarem seguros estão também interessados em investir na empresa concorrente. Numa entrevista que concedeu recentemente ao New York Times, Elon Musk confessou o uso de fármacos para dormir e reconheceu que este foi o «ano mais difícil da carreira».

O início daquela que parece ser a maior crise da empresa começou nos primeiros dias do mês de agosto - curiosamente, quando foram registadas receitas recorde -, mas a empresa voltava a apresentar prejuízos, desta vez de 717,5 milhões, o dobro do ano passado. 

Até junho, a Tesla perdeu milhões com a produção de cinco mil exemplares por semana do Modelo 3, mas Musk afirmou no final desse mês que a produção estaria a aumentar e que o objetivo passaria pela produção de seis mil exemplares por semana até final de agosto. 

No entanto, duas semanas depois, o CEO partilhou com os seguidores que estava a considerar a hipótese de tirar a empresa da bolsa, com o valor de 360 euros por ação, garantindo que tinha financiamento assegurado para o fazer.

A possibilidade caiu como uma bomba dentro da empresa, até porque os próprios administradores não tinham conhecimento do plano de Musk. O feitiço virou-se contra o feiticeiro, as ações da empresa acabaram por cair devido à desconfiança e insegurança dos investidores e o conselho de administração ponderou uma revisão formal à proposta do CEO.

Depois de fazer os mercados tremer, Musk usou de novo a rede social Twitter, desta vez para partilhar uma mensagem interna que revelava que os sauditas estariam interessados em privatizar a empresa desde o ano passado. O CEO da Tesla fez ainda questão de afirmar que a Arábia Saudita reconhece ser necessário diversificar as fontes energéticas para lá do petróleo e adiantou que estes têm capital suficiente para efetuar a transação, sobre a qual já teriam pedido, inclusive, detalhes adicionais. 

Na sequência dos acontecimentos, a pedido do conselho de administração, o supervisor dos mercados norte-americanos (SEC) enviou uma intimação à Tesla para se certificar de que a empresa tem um fundo de emergência para garantir que os investidores não são penalizados com o que possa acontecer no futuro. Caso se descubra que este fundo não existe, Musk pode ser acusado de manipulação de mercado ou fraude. 

Tudo parecia estar alinhados de acordo com o plano de Musk, até que os investidores sauditas que o CEO identificara como seguros financiadores da saída de bolsa da Tesla estariam também interessado em investir na empresa rival, a Lucid Motors.

Um balde de água fria para Elon Musk e para o rumo que queria dar à empresa, até porque a aposta na Lucid Motors, também californiana, parece agora mais adequada aos recursos que os investidores têm disponíveis. Segundo fontes da Reuters, o investimento de 874 milhões de euros pela participação na Lucid Motors contrasta com os cerca de 63 mil milhões de euros necessários para a privatização da Tesla. 

O futuro da empresa é incerto, mas a verdade é que os investidores que apostam contra a Tesla estão a ver as apostas valorizadas em cerca de 900 milhões de euros.

 

Uma história de altos e baixos 

Fundada em 2003, a Tesla Motors conheceu o atual diretor executivo, e primeiro grande investidor, Elon Musk, em 2004. A Tesla começou por se dedicar à produção de carros ecologicamente sustentáveis, com visual e desempenho de primeira qualidade e com tecnologias testadas em laboratórios próprios. O primeiro modelo produzido foi o Roadster, ao qual se seguiu o Model S, em 2008, ano em que Musk se apresentou como CEO da Tesla. Em fevereiro de 2009, a empresa regista lucro pela primeira vez e em 2010 a Tesla entra na bolsa e lança o Model X dois anos depois. 

A Tesla atravessou de novo uma crise, em 2013, e quase foi vendida à Google, mas o negócio não se concretizou e passados dois anos apresenta um novo produto: a Powerwall, um conjunto de baterias domésticas, e o sistema de piloto automático. O bom ritmo continuou e, em 2016, é lançado o Tesla Model 3 e as vendas do Model X e S dispararam.

Mas a onda positiva parece ter-se dissipado. Na mesma entrevista New York Times, o CEO descreve o último ano como «angustiante», revelou estar exausto e admitiu o uso de fármacos para dormir, algo que assusta os amigos e membros do conselho que temem as consequências que o uso de drogas recreativas e ansiolíticos possa ter na tomada de decisões. Para Musk, em termos operacionais o pior já passou, mas «em termos de dor pessoal, o pior está para vir».