O Mundo Em Calções

Silêncio na Trafaria...

Há quem diga que Os Belenenses cumpriram finalmente o seu destino: divididos em dois, como estão, obedecem à regra do plural que marcou o seu baptismo. O meu querido amigo Luís Alberto Ferreira, que escreve maravilhosamente de fazer inveja, com cujas prosas muito aprendi da habilidade de dominar os adjectivos, chamava aos azuis de Belém «o clube dos muitos infortúnios». 

Nunca ninguém esquecerá Pepe: por extenso, José Manuel Soares Louro. Tinha apenas 23 anos quando se encantou, como diria Guimarães Rosa. Na noite de 22 de Outubro de 1931, um jantar de família na sua casa modesta da Rua do Embaixador, em frente ao Mercado de Belém, onde a mãe tinha uma banca de fruta, ser-lhe-ia fatal. Uma intoxicação alimentar, muito provavelmente provocada por uma sopa de grão temperada com chouriço, atirou com a sua mãe, Maria José, e os seus irmãos, Rogério e Suzana para as camas do Hospital de São José. Pepe, deu entrada no Hospital da Marinha. Contorcia-se com dores, queria vomitar e não conseguia, começou a sofrer de hemorragias. Morreu às dez e meia do dia 24 de Outubro. Tinha 23 anos e fora, durante a sua carreira fulgurante, a imagem de conto de fadas do menino pobre que chegara ao vértice do sucesso. A morte prematura, como geralmente acontece, guardou-o no livro sempre misterioso dos mitos. Morrem cedo aqueles que os deuses amam. Viveu depressa, foi um cadáver bonito.

Sobre a morte de Pepe há muitas versões, deixei aqui apenas uma delas. Tantos dramas viveram muitos dos que vestiram a camisola azul com a cruz de Cristo ao peito que o clube devia usar no equipamento oficial o fumo negro do luto na manga do lado direito. Ou melhor, na manga do braço esquerdo. Porque também caminhou sempre pelo lado esquerdo da vida.

 

Nem sempre o drama termina na morte. Há dramas que se prolongam no tempo como uma maldição de Macbeth. Houve António Eloy, que depois de sair do clube e ter passado uns anos em Moçambique, viria morrer, de cancro, em Lisboa, no Hospital Pulido Valente. E houve, sobretudo, Rafael: Rafael Correia.

Se a morte de Pepe, operário nas docas de Lisboa, involuntariamente envenenado por excesso de sódio, ganhou aura de mistério, a morte de Rafael ganhou laivos de G.K. Chesterton em a Inocência do Padre Brown. Um enigma nunca esclarecido de estranhíssimas circunstâncias.

Escrevia o grande Luís Alberto Ferreira no seu estilo incomum de elegância requintada: «Em 1945/1946, as Salésias insuflavam-se do nome da artéria em que se situava o estádio: Rua das Casas de Trabalho. Rua de casas térreas, aos domingos a vizinhança à janela para ver chegar os jogadores do Belenenses. Alguns deles vinham do centro de Lisboa nos mesmíssimos carros eléctricos pejados de adeptos. Um tempo em que os futebolistas exerciam, durante a semana, profissões diversas. Fatinho engomado, gravata, uns cavalheiros que a miudagem interpelava, no carro eléctrico: “Senhor Mariano Amaro, vamos ganhar?!”. Lá vinha o sorriso complacente e cúmplice do jogador». 

1945/46 não vem ao acaso. Os Belenenses sagravam-se pela primeira e única vez campeões nacionais. Que equipa! Que equipa! Deixo que o Luís a descreva. Fá-lo bem melhor do que eu: «As “Torres de Belém”, Manuel Capela, guarda-redes, de Angeja, distrito de Aveiro;  Vasco de Oliveira, defesa-direito, lisboeta, e António Feliciano, defesa-esquerdo, natural da Covilhã. Constituíam a linha média Mariano Amaro, Gomes e Serafim das Neves, leiriense, labutador, esquerdino. A linha avançada era de composição variável, podendo ser, por exemplo, Mário Coelho, extremo-direito, mais tarde funcionário da Carris, onde foi colega de Homero Serpa, probo jornalista de “A Bola”, ou Armando, também extremo-direito ou avançado-centro; António Eloy, extremamente habilidoso, como interior-direito, posto também ocupado, quando necessário, por Artur Quaresma, barreirense. O mesmo Quaresma, outro artista da bola, foi, por vezes, avançado-centro. Os de pedra e cal, no ataque de Belém, eram José Pedro, interior-esquerdo, e Rafael Correia, ponta-esquerda, também da Outra Margem do Tejo». 

 

Rafael Correia já vivia da reforma, na Trafaria, quando foi encontrado sem vida em sua casa. Conheciam-se-lhe antipatias perante o Regime, tal como acontecia com Mariano Amaro. A polícia reportou a presença recente e frequente no local de um antigo guarda nacional republicano. Convenientemente, não identificado. O povo murmurava. Os jornais ignoraram o assunto. Em eco, parecia escutar-se a infame frase de Salazar sobre o assassinato de Humberto Delgado : «A nós convinha que falasse. A outros conviria mais o silêncio que só a morte poderia com segurança guardar». O fascismo era como os lobos de Aquilino e atacava pela calada.

afonso.melo@newsplex.pt