Opiniao

Recordando João Semedo...

Pôs-me a mão no ombro e tranquilizou-me com as suas palavras: «Estive a ouvir a sua entrevista e gostei do que disse»

Já não sei há quanto tempo foi, mas lembro-me perfeitamente de, num programa televisivo, o conhecido encenador Filipe La Féria ter dito, recordando alguns atores já desaparecidos: «Os atores portugueses só morrem quando o público se esquecer deles». O que vale por dizer que há pessoas, por tudo o que fizeram, pelo exemplo que deram e pelo testemunho que deixaram, ‘se vão da lei da morte libertando’.

João Semedo é um deles. Não era ator, apesar de ter raízes na família, mas era um político sério e de convicções, um homem bom, bem formado, tolerante e que respeitava as ideias dos outros, mesmo quando elas não coincidiam com as suas. Daí poder aplicar-se também a ele a expressão utilizada por Filipe La Féria.

Tenho dele uma recordação simpática e que me marcou. Pouca gente a sabe, e parece-me agora a altura certa para a revelar.

Mário Crespo tinha-me convidado para uma entrevista televisiva no Jornal das 9 da SIC Notícias, e no dia marcado acompanhou-me ao estúdio – logo aparecendo o seu staff para me orientar, pois era a minha estreia num ‘direto’. Respondi ao que ele me perguntou e tentei fazer o meu melhor, não obstante o nervosismo próprio de uma primeira vez.

Quando a entrevista terminou fui cercado pelo pessoal técnico, que me tirou o microfone da lapela, entre outras coisas, e de repente aparece junto a mim João Semedo, o convidado para o programa seguinte.

Mário Crespo, sem tempo sequer para se levantar, apenas disse: «Ainda não se conhecem?». O meu colega João Semedo pôs-me a mão no ombro e tranquilizou-me com as suas palavras: «Estive a ouvir a sua entrevista e gostei do que disse». Foi a primeira pessoa a dar-me o feedback da minha primeira entrevista televisiva e, talvez por isso, nunca mais o esqueci.

Não tínhamos as mesmas ideias, é certo, mas havia pontos em comum, nomeadamente a defesa do Serviço Nacional de Saúde e o direito a morrer com dignidade.

O SNS, cuja defesa ambos defendíamos, embora por caminhos diferentes, era para ele uma questão fundamental. A sua evidente preocupação em não deixar cair a saúde, transformando-a num negócio para alguns, é um assunto a ter em conta. Percebo bem o seu ponto de vista, e, com a minha experiência, reconheço que há coisas a evitar. Não se pode passar do oito para o oitenta, sendo necessário o meio-termo de modo a não fazer do ‘lucro’ o único objetivo a atingir. Morrer com dignidade é uma área que sempre privilegiei, não podendo estar mais de acordo, apesar de o caminho que defendo para lá chegar ser totalmente diferente do que ele defendia.

Ao ler a reportagem do SOL de 21 de julho (cujo título particularmente feliz – O gentleman dos consensos – me chamou à atenção) duas coisas gostaria de destacar.

A primeira diz respeito ao seu reconhecimento de que tinha sido feliz ao longo da vida: «Tive a vida que escolhi. Não tenho nada que me arrependa. Sim, fui muito feliz». Fez-me lembrar o meu pai, cuja ‘imagem de marca’ era dizer em público ou em privado que era «um homem feliz». É o mesmo que olhar para um copo de água e vê-lo meio cheio ou meio vazio. Hoje em dia, não faltam pessoas que, nas mesmas condições, olhando para o copo, veem-no meio vazio… Tanto ele como o meu pai eram dos que pautaram a sua vida por verem sempre o copo meio cheio!

Outra coisa para mim muito curiosa foi saber, através dessa notícia, que João Semedo se tinha batizado na pré-adolescência contra a vontade do pai. Porquê? Não o sabemos. São desígnios de Deus. Ele lá está para nos receber e a todos quantos batem à Sua porta, independentemente dos motivos que levam cada um a procurá-Lo. Continuando nessa linha de pensamento – e mesmo reconhecendo que não tínhamos exatamente a mesma maneira de ver as coisas –, presto-lhe aqui a minha homenagem, pedindo a Deus que o recompense pelo seu trabalho realizado e o receba na Sua Glória.