Internacional

Rússia. Jogos de guerra

Moscovo anunciou o maior exercício militar dos últimos 40 anos. Mostra de força que vai ter companhia de tropas chineses e mongóis. NATO diz que a Rússia continua a focar-se em ‘conflitos em larga escala’.

Omedo perpétuo de uma invasão tem sido sempre um dos fatores centrais no delineamento da política externa da Rússia. A expansão da NATO para leste, ocupando territórios que antes pertenciam à União Soviética e a integração de países que antes faziam parte do Pacto de Varsóvia fez aumentar o sentimento de insegurança russo e a sua hostilidade agressiva para com os movimentos da Aliança Atlântica. A invasão da Geórgia em 2008 (ver caixa) e o conflito na Ucrânia (com a anexação da Crimeia) são dois exemplos de reação musculada destinados a travar a influência Ocidental até perto das suas fronteiras.

O maior exercício militar russo dos últimos 40 anos, anunciado esta semana, integra-se dentro dessa necessidade política de Vladimir Putin e do Governo russo de responder assertivamente ao planeado aumento de despesas militares da Aliança Atlântica.

O Vostok-2018 vai decorrer entre 11 e 15 de setembro e envolverá 300 mil militares, mil aviões, duas esquadras navais e todas as forças aerotransportadas russas. 

«Imaginem que 36 mil peças de equipamento militar são colocadas simultaneamente em movimento: tanques, veículos blindados de transporte, veículos de combate de infantaria e, tudo isto, naturalmente, testado em condições próximas do ambiente de combate», afirmou esta semana o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, na apresentação do exercício.
É preciso recuar até ao tempo da Guerra Fria, ainda a União Soviética existia, para encontrar uma tamanha exibição bélica ordenada por Moscovo. Mesmo assim, garante Shoigu, há semelhanças com o Zapad-81, «mas a escala será maior» agora.

Numa altura em que os Estados Unidos se voltam mais para dentro das fronteiras, em que assumem posições hostis para com aqueles que têm sido os seus tradicionais aliados – Donald Trump chegou a colocar a União Europeia como o principal inimigo dos EUA atualmente –, a Rússia quer demonstrar ao mundo o seu poder militar e recuperar a influência que perdeu depois da desagregação da URSS.

É «uma Rússia mais assertiva, ao aumentar significativamente o seu orçamento para a Defesa e a sua presença militar», afirmou o porta-voz da NATO, Dylan White.

«A capacidade de defesa do país na atual situação internacional, que é com frequência muito agressiva e hostil para o nosso país, é justificada, necessária e não tem alternativa», afirmou o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov. O Governo russo critica muitas vezes as atividades militares da NATO e a sua política de expansão para leste. «ANATO está a levar a sério as suas capacidades de combate e os seus níveis de prontidão. Trump pode atacar a NATO e os seus aliados europeus, mas são as capacidades que interessam e essas têm vindo a aumentar com Trump», afirmou o analista político Vladimir Frolov à Defense News.

Participação chinesa

Um dado importantíssimo deste exercício é que conta com a participação da China (e da Mongólia). Pequim enviou 3200 soldados, 30 helicópteros e caças e mais de 900 peças de equipamento militar. O que demonstra «a expansão da interação dos dois aliados em todas as esferas», sublinha Peskov citado pela agência Tass.

Trump classificou a Rússia e a China como «potências revisionistas» que «procuram criar um mundo consistente com os seus modelos autoritários», e está envolvido numa guerra comercial com Pequim e aplicou sanções a Moscovo.

O China Daily sublinhava, ontem, que não se devia, no entanto, interpretar este exercício militar conjunto como uma aliança de defesa sino-russa. «O próximo exercício militar chinês conjunto com a Rússia e a Mongólia não é nada sinistro», escreve o jornal oficial chinês, garantindo que China e Rússia participam habitualmente em exercícios militares numa escala mais reduzida, bem como em exercícios multilaterais no quadro da Organização de Cooperação de Xangai (onde está também a Índia). A única diferença, admite a publicação, é a escala, substancialmente maior.

Peter Apps, num artigo de opinião para a Reuters, lembra que este exercício chega seis meses depois de a China ter levado a cabo o maior exercício militar naval da sua história, demonstrando a importância do setor militar na estratégia das duas grandes potências. «Embora nenhum deles tenha desejo ou esteja à espera de uma guerra com os EUA ou os seus aliados, tanto Pequim como Moscovo querem dar a impressão de que estão cada vez mais preparados» e mostrar a Washington que se a NATO quiser aumentar a sua influência a leste ou os EUA expandirem-se para o mar da China Meridional «arriscam-se a sofrer perdas graves».