Biblioteca Pessoal

A matança dos pardais e outras tragédias chinesas

Não sei se foi aquilo a que, na altura, eu e o meu irmão chamávamos na brincadeira o ‘presente inteligente’ (um estratagema que consistia em oferecer a alguém próximo uma coisa que nós próprios gostaríamos de ter) ou se achei realmente que o livro iria agradar ao destinatário.

Uma coisa é certa: depois de o ter oferecido, fui o primeiro lá em casa a lê-lo de uma ponta à outra.

A biografia de Mao por Jung Chang não apenas reconstitui o percurso desta figura controversa como conta a história de um dos mais pavorosos crimes contra a humanidade alguma vez cometidos.

Se o leitor pensa que estou a exagerar, leia a seguinte passagem: «Perto de 38 milhões de pessoas morreram de fome e excesso de trabalho no Grande Salto em Frente e no período de fome que durou quatro anos [1958-1961]. Este número é confirmado pelo próprio n.º 2 de Mao, Liu Shao-Chi». Uma obra posterior (A Grande Fome de Mao, de Frank Dikötter, vencedor do prémio Samuel Johnson para não-ficção) arredondou esse valor para 40 milhões de vítimas. A autora continua: «Foi o maior período de fome do século XX - e de toda a história humana registada. Mao intencionalmente pôs a passar fome e a trabalhar em excesso estas dezenas de milhões de pessoas levando-as à morte». Ao mesmo tempo que isto acontecia, a China exportava preciosas toneladas e toneladas de comida para o exterior.

O que provocou tamanha hecatombe não foi maldade pura, mas antes medidas voluntaristas e metas megalómanas. Um exemplo quase caricatural: Mao «designou os pardais como uma das ‘Quatro Pragas’, e mobilizou a população inteira para abanar paus e vassouras para criar um barulho gigantesco que espantasse os pardais impedindo-os de posarem para que caíssem de fadiga e fossem apanhados e mortos pelas multidões». Pouco tempo depois da matança, a China estava a pedir 200 mil pardais à URSS, porque «as pragas outrora controladas pelos pardais e outros pássaros floresceram então, com resultados catastróficos».

Mao: A História Desconhecida está cheio de exemplos destes de delírio e tragédia.

Julgo no entanto, que apesar de toda a sua riqueza, a autora falha em não reconhecer que o reinado de terror de Mao transformou de facto a China de uma sociedade arcaica, pouco produtiva e incapaz de se defender, numa temível potência moderna. Essa transformação foi operada à custa de sacrifícios inimagináveis. Se valeu a pena ou não, não sei dizer. Na verdade talvez nem os próprios chineses saibam. Mas o retrato de Mao continua a dominar a Praça de Tiananmen. Pior: todos os anos, desde 1977, é colocado um novo retrato pintado de fresco para que a imagem do ditador não envelheça.