O mundo em calções

Dois velhos eternos

O documentário realizado por Leni Riefenstahl sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, pode ser um panegírico ao nazismo mas é, igualmente, um filme notável em muitos aspetos. Dividido em duas partes - Olympia 1. Teil - Fest der Völker e Olympia 2. Teil - Fest der Schönheit, que se podem traduzir por Festival dos Povos e Festival da Beleza -, tem imagens inéditas recolhidas do ar, no Graf Zeppelin, filmagens de câmaras que se deslocavam sobre carris para acompanharem os movimentos dos altletas, cenas sub-aquáticas, close-ups extremos e exigiu trincheiras ou covas para manter baixos os ângulos, tal como se passou a fazer frequentemente no cinema anos mais tarde. Há nele, portanto, uma brisa de modernidade que choca de frente com a eterna velhice de dois personagens sinistros. O primeiro é Adolf Hitler, o tipo do bigodinho à Charlot que Charlot transformou no tipo de bigodinho à Hitler em O Grande Ditador. O outro é Hans-Otto Wöllke, um militar soturno que teve, no primeiro dia dos Jogos, os olhos do mundo sobre o seu braço direito.

A cerimónia de abertura levou cerca de cento e dez mil espectadores ao Estádio Olímpico. Riefenstahl não esqueceu o pormenor de captar o grande compositor Richard Strauss na função menor de reger a orquestra em ‘Deutschland Über Alles’, algo que lhe valeu a acusação de ser um simpatizante das causas nacionais-socialistas reforçada por uma dispensável cançoneta que dedicou a Joseph Goebbles, o homem da propaganda do III Reich dos Mil Anos. Também não se esqueceu de gastar vários metros de película com os pormenores da vitória do negro Jesse Owens, coisa que não caiu muito bem no estômago do mesmo Goebbles, bem mais entusiasmado com as cenas banais e entediantes de Triumph des Willens, de 1934, sobre o gigantesco comício nazi de Nuremberga.

 

Ninguém pode acusar Hitler de não ter exagerado na imagem que quis fazer passar da Alemanha renascida das cinzas da I Grande Guerra. Não se limitou a contratar Richard Strauss, o autor do poema sinfónico Also Spracht Zarathustra, tão celebrado no Espaço no ano da graça de 2001, e Carl Orf, o homem da cantata Carmina Burana, para lhe comporem o hino dos Jogos. Arranjou um grupo de homens para transportar, a pé, a chama olímpica de Olímpia, na Grécia, até Berlim, e forrou autenticamente a berma das estradas por onde passaram com milhares e milhares de crianças fazendo drapejar entusiasticamente ao vento bandeirinhas vermelhas e negras com a cruz gamada. Acrescentou o impacto de fazer desfilar em frente à tribuna, no dia 1 de agosto, quarenta mil soldados das SA ao mesmo tempo que um coro de três mil gargantas entoava canções nazis como Die Fahne Hoch (A Bandeira Erguida), a ode do partido Nacional Socialista, ou a ligeiramente mais macabra Es Zittern die morschen Knochen (Tremem os Ossos Pútridos) - «Hoje a Alemanha é nossa/Amanhã seremos donos do mundo!». Finalmente, esteve-se nas tintas para o protocolo olímpico e, perante grande irritação de uns poucos que se sentaram a seu lado na cerimónia, desceu ao relvado para cumprimentar solenemente Hans Wöllke, lançador do peso.

 

Durante uma semana, a comunidade judaica de Berlim teve um pouco de sossego. Os cartazes anti-semitas foram retirados das ruas e até o jornal Der Stürmer, uma miserável publicação xenófoba, viu a sua venda proibida nos arredores do Estádio Olímpico. O som de um sino gigante fazia-se ouvir. Nele estava inscrita uma frase pacificadora: ‘Ich rufe die Jugend der Welt’ - Chamo os jovens do mundo.

Wöllke podia ser um soldado carrancudo do fundo da hierarquia da Polícia de Berlim, mas alargou o sorriso quando à quinta tentativa atingiu a marca de 16 metros e 20 no lançamento do peso garantindo a primeira medalha de ouro olímpica para o atletismo alemão, batendo o finlandês Sulo Bärlund e o seu compatriota Gerhard Stöck. Quando viu o führer caminhar na sua direcção para lhe conceder a honra de um tremendo shake-hands estendeu o braço na saudação inevitável: «Seig Heil!».

Nada de escandaloso na Alemanha de 1936, como é evidente. Aliás, no dia anterior, as delegações francesa e inglesa também marcharam sob a tribuna presidencial de braço erguido e debaixo dos aplausos da multidão.

Adolf Hitler, por seu lado, não gostou que lhe tivessem sugerido que não insistisse em cumprimentar todos os medalhados alemães, uma decisão essencialmente pratica se nos recordarmos das 89 medalhas conquistadas nesses Jogos - 33 de ouro - deixando os Estados Unidos bem em segundo com 56. Como nem sequer ligava muito ao desporto, deixou de aparecer no estádio. Já Hans Wöllke foi promovido a capitão das Waffen-SS e sujeitou-se a uma morte ominosa às mãos dos partisans em Kathyn, em 1943. Só foi dono do mundo por breves e doirados instantes.