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Não deixe que tomem conta dos seus dados por si

O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) entrou em vigor a 28 de maio. Devem ser muito poucas as pessoas que não foram contactadas por empresas a pedir a atualização ou validação dos seus dados pessoais e que declarassem o seu consentimento para a utilização dessa informação para vários fins, nomeadamente publicitários. Desta forma, tenta-se garantir que as pessoas ficam a saber quem tem os seus dados, quais são e de que forma os podem utilizar. 

Os dados pessoais são uma informação preciosa para a execução das estratégias de comunicação. Se, cada vez mais, exigimos que a comunicação seja personalizada, mesmo quando é feita em grande escala, é importante que estejamos conscientes que tal só é possível se se conhecerem as pessoas: o que gostam e o que rejeitam, o que fazem e o que deixam de fazer. Quanto mais se souber maior será, pelo menos em teoria, a capacidade de vender o produto, serviço ou empresa à pessoa certa no momento em que está mais disponível para comprar. 

 

O fenómeno da digitalização tem impulsionado não só a importância dos dados, mas também a capacidade de os recolher. Quão melhor conseguirão os médicos diagnosticar e tratar um sintoma tendo acesso a mais dados sobre o seu paciente, por exemplo? O que é curioso, talvez seja mesmo um contrassenso ridículo, é que recolhemos cada vez mais dados pessoais (observe quantas pessoas à sua volta têm um smartphone, smartwatch ou a uma pulseira para monitorizar as suas atividades diárias). Mas ainda não conheço casos de doentes que tenham entrado na urgência de um hospital e a quem tenham analisado os registos do seu smartphone para perceber as suas atividades recentes. 

A recolha, acesso, processamento e partilha de dados é um fenómeno com o qual as marcas e a sociedade em geral não estão, ainda, preparadas para lidar. O RGPD é um passo fundamental, uma tentativa de proteger o cidadão dando-lhe um maior controlo sobre os seus dados. Mas não acredito que chegue. Quando há tecnologia democratizada que permite a recolha de informação e vontade de uns em saberem mais, tudo se possível, sobre os outros, dificilmente um regulamento terá capacidade para conter o fenómeno. Pelo lado da tecnologia é provável que, sob o pretexto de servirem outras funcionalidades, seja cada vez mais fácil obter dados de outros pessoas ou entidades.  

 

A grande barreira à utilização não consentida dos dados pessoais têm de ser as pessoas, que têm de estar mais atentas ao fenómeno e impedir situações de abuso. O debate sobre o tema da proteção de dados pessoais trouxe um maior conhecimento sobre as implicações de os cedermos a qualquer um. Mais informação irá certamente aumentar a nossa consciência da sua importância. Conhecendo melhor as implicações daquilo com que estamos a lidar seremos mais cautelosos quando preenchemos um formulário, além de que teremos mais interesse em saber porque é que nos estão a solicitar determinada informação e o que pretendem fazer com ela. 

Mas a maior questão é a educação para gestão dos dados. Podemos criar leis e definir sanções, mas se as pessoas não entenderem a gravidade da utilização indevida de dados pessoais dificilmente estarão protegidas. O grande desafio é pedagógico e consiste em fazer com que as pessoas percebam que os dados são pessoais, não são públicos, que se trata de informação sensível mesmo que, aparentemente, não tenha qualquer valor. Mas acima de tudo, é fundamental que todos entendam e aceitem que temos direito à nossa privacidade. A minha geração felizmente nunca sentiu isso na pele, mas é fácil perceber uma relação entre ausência de privacidade e falta de liberdade. E certamente não é esse o caminho que queremos fazer.

*Responsável Planeamento Estratégico do Grupo Havas Media