Opiniao

«Porque aqui, após um erro ter sido perdoado, aconteceu de novo»

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Captada na zona do Marquês de Pombal, em Lisboa, esta frase diz: «Porque aqui, após um erro ter sido perdoado, aconteceu de novo».

Há erros que se repetem, erros com os quais aprendemos e que não voltamos a repetir, sobretudo se esses erros nos fazem sofrer. Como diz Tolentino Mendonça: «Não vemos que o mesmo sofrimento que nos fere também nos torna mestres em relação à vida e permite-nos dizer com outra propriedade o que é que nos dá e retira vida, o que é que a nutre, o que é que a apaga». Ora, é esta capacidade que temos para encarar o sofrimento de frente que faz de nós especialistas na nossa própria vida e nos confere a possibilidade de evitar sofrimento idêntico ou de repetir ações que, mesmo implicando dor, queremos experienciar de novo.

A questão complicada associada ao sofrimento, e que deriva do facto natural de vivermos com os outros, é que o nosso sofrimento pode também implicar o sofrimento deles. E, quando assim é, mais difícil se torna suportar essa mágoa, por transportar também o sentimento de culpa por aquilo que causamos nos outros. Obviamente, há erros e erros, há sofrimento e sofrimento. Mas, repetir erros e repetir sofrimento não parece, à partida, algo muito lógico. O próprio termo «erro» implica engano. Ora, se é um erro, um engano, não há motivo aparente para que o voltemos a repetir, pelo menos de forma consistente ou voluntária.

A frase escrita na parede refere ainda que o erro foi perdoado, o que implica que o outro conheça o nosso erro e decida perdoar-nos, decida dar-nos o seu perdão. E o perdão implica compaixão, implica compreensão. No uso da palavra ou no silêncio, implica aceitar aquilo que o outro fez, mas implica, sobretudo, aceitar que o outro, tal como eu, é um ser humano imperfeito, o que o leva a cometer erros, como qualquer pessoa.

Esperar a perfeição é estar de olhos fechados, é não querer ver que um dos aspetos mais interessantes da vida é o erro, a falha, porque é através da tentativa e erro que vamos experimentando, caindo, pondo-nos de pé e recomeçando. E esta é uma realidade que, por vezes, não queremos aceitar e enfrentar. Assim, exigimos dos outros aquilo que nós próprios não podemos alcançar – a perfeição. Muitas vezes essa exigência em relação aos outros esconde a nossa própria incapacidade para aceitar, como diz Fernando Pessoa, que nascemos «sujeito[s] como os outros a erros e a defeitos», para enfrentar os desafios que a vida nos coloca e para os ultrapassar da forma como gostaríamos.

Há momentos em que uma dificuldade, pequena ou grande, não representa um grande problema e somos capazes de aceitar e de encontrar solução para ela. Mas, há outras ocasiões em que mesmo um pequeno problema se torna uma gigantesca «Matrioska de problemas» (para utilizar a expressão de Ana Cristina Carvalho em Pequenos Delírios Domésticos), e acabamos por sofrer por antecipação e sucumbir perante a adversidade, sem entender que, como diz Tolentino Mendonça: «Esta coisa a que chamamos vida requer de nós a força de não soçobrar ao crepúsculo só porque não vemos logo, ou não vemos como, de tamanha escuridão, possam irromper os improváveis traços da aurora». Importa, pois, afastarmo-nos e ganhar distância crítica para não tropeçarmos na armadilha e não cairmos no buraco.

 

Maria Eugénia Leitão

Nota: Após 125 textos escritos em parceria com o blogue da Letrário, Translation Services, deixarei de contar com o apoio de revisão da Ângela Santos, a quem quero publicamente agradecer, pelo seu profissionalismo, competência e rigor.