Politica

48 horas de caos na geringonça

PS aproveita caso Robles e arrasa parceiro. Ninguém está interessado numa crise política e orçamento não está ameaçado.


Durante quase 48 horas a confusão instalou-se na geringonça com o PS e o Bloco de Esquerda a desmentirem-se mutuamente devido à proposta do BE para combater a especulação imobiliária. Os socialistas foram duros com o BE numa altura em que está a ser negociado o orçamento do Estado para o próximo ano. Ninguém quer, porém, provocar uma crise política. Os dois partidos esperam que o orçamento seja aprovado.

Carlos César foi o primeiro a falar, na manhã de terça-feira, para afastar qualquer hipótese de viabilizar a proposta - que ficou conhecida como taxa Robles - nas negociações do Orçamento do Estado para 2019. Os socialistas não gostaram da forma como o BE tornou pública a proposta e o líder parlamentar deixou claro que «não há qualquer intenção do Grupo Parlamentar do PS aprovar a proposta do Bloco de Esquerda».

António Costa foi ainda mais duro e rejeitou tratar o problema da habitação com propostas «feitas à pressa». A questão não é irrelevante porque ficou a dúvida sobre se a proposta foi lançada antes ou depois da polémica com Ricardo Robles. Carlos César ajudou a alimentar a tese do CDS de que esta medida serve para afastar o «fantasma» do caso Robles. 

O Bloco reagiu ao mais alto nível. Catarina Martins, umas horas depois de ouvir o primeiro-ministro, garantiu que está a trabalhar desde maio nesta ideia e «desde julho que o senhor ministro das Finanças a conhece». E mais: «as negociações com a equipa das finanças têm corrido bastante bem». 

A confusão ficou instalada com com Catarina Martins a afirmar que estava a negociar com Centeno uma proposta que Costa e César já tinham afastado. A coordenadora do BE lançou uma explicação: Costa não falou com o seu ministro das Finanças e não estava informado sobre as negociações. 

Carlos César voltou a entrar em cena, no dia seguinte, para desmentir Catarina. «O Governo não está a negociar com o Bloco de Esquerda essa medida, isso não é verdade», disse, na TSF, o líder parlamentar do PS. Os socialistas admitem que Costa e César foram duros com o BE. «Foi quase bullying», diz um dirigente socialista.

E o Bloco voltou a responder ao PS para tentar encerrar a polémica. Coube a Filipe Soares apresentar todos os detalhes das negociações para desmontar os argumentos do PS. «Queremos terminar o enredo de equívocos dos últimos dias que decorre de declarações factualmente erradas do Primeiro-Ministro e do líder parlamentar do PS». Filipe Soares recordou que a medida foi apresentada publicamente a 25 de julho, uns dias depois de ter sido apresentada ao Governo. Nesse encontro, a 19 de julho, estiveram Mário Centeno e os seus secretários de Estado, bem como Pedro Nuno Santos, dos Assuntos Parlamentares. «Nenhum deles desmentirá que esta reunião se realizou e que este tema foi debatido». O Bloco congratula-se por ter conseguido colocar o combate à especulação imobiliária na agenda política e espera que desta discussão possa sair alguma medida concreta. 

Os dois partidos estão empenhados em ultrapassar as divergências na praça pública e aprovar o último orçamento da geringonça. «Passemos adiante e centremos atenções no essencial», escreveu a líder do BE, na sua página do facebook. O Bloco não está interessado em aprovar uma crise política. O PS também não.