Sociedade

Tudo sobre a investigação “forjada” da PJ Militar ao caso de Tancos

Ministério Público e PJ consideram que PJ Militar quis estragar investigação em curso, fazendo um acordo com o líder do grupo que roubou o material de guerra. Para disfarçar até terá inventado a chamada anónima em que se avisou que o material estaria na Chamusca  

O caso já tinha tudo para ser único: um grupo consegue roubar material de guerra dos paióis de Tancos em junho de 2017. Mas a própria investigação ao crime tornou-o ainda mais quente, com o clima de tensão que se instalou entre a Polícia Judiciária Militar e a Polícia Judiciária. O material acabou por aparecer em outubro, mas a investigação continuou. E continuou em duas frentes: no inquérito inicial, para apurar as circunstâncias do roubo; e num outro inquérito em que se pretendia passar a pente fino a forma como a Polícia Judiciária Militar recuperou o material.

É neste segunda investigação que se enquadram as diligências levadas a cabo ontem - quatro elementos da PJ Militar (entre os quais o diretor-geral, o coronel Luís Augusto Vieira), três elementos da GNR de Loulé (incluindo o comandante Lima Santos) e um civil foram detidos.

Segundo o i apurou junto da investigação, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e a Unidade Nacional Contra-Terrorismo da Polícia Judiciária consideram que a PJ Militar quis matar a investigação inicial a Tancos e ficar com os crédito da descoberta das armas, desviando as atenções dos criminosos que em troca negociaram a entrega do armamento.

Segundo foi tornado público na altura, pouco antes do “achamento” do material a PJ Militar teria recebido uma chamada anónima, dando conta de que o mesmo se encontrava na Chamusca.

 

Os informadores dos dois lados da barricada

Mas a tese levantou desde o início algumas dúvidas. Isto porque os elementos da PJ Militar se tinham deslocado ao terreno quase em segredo - sem informar quem tinha o inquérito em mãos - auxiliados pela GNR de Loulé e não pelo posto da área, neste caso a de Santarém.

Uma fonte próxima da investigação explicou ao i que tudo não passou de uma manobra de diversão e que a PJ Militar terá negociado com o cabecilha do grupo que roubou o material a sua devolução, forjando depois a chamada anónima para o piquete. 

E mais. “Logo após quatro ou cinco dias do roubo saíram notícias relativas à investigação que estava a ser levada a cabo pela PJ e pelo MP com o objetivo de destruir essa linha de investigação e ganhar tempo para a negociação que estava a ser feita com quem tinha as armas”, explica uma fonte conhecedora do processo, admitindo que a lógica da PJ Militar seria: “Não chegamos nós, não chega ninguém”.

Com essas notícias, que já davam conta de que a investigação da PJ contava com um informador - um homem que tinha sido convidado para fazer o assalto, mas que recusou - o principal responsável pelo assalto, que reside no Algarve, terá percebido que estava encurralado e terá aí tentado junto da PJ Militar que a devolução fosse feita de uma forma em que as duas partes saíssem a ganhar: A PJ Militar, porque ficaria com os louros de resolver um caso que estava a parar o país, os criminosos porque nunca ninguém saberia que teriam sido eles se tudo fosse feito mediante uma chamada anónima. E assim foi, segundo a investigação da Polícia Judiciária e do DCIAP. E o civil ontem detido é o líder do grupo que terá negociado tudo com a PJ Militar - este elemento é o único considerado perigoso, sendo que os restantes serão pouco experientes.

Fontes da PJ explicam mesmo que os elementos ontem detidos “agiram com sentimento de impunidade e tentaram inviabilizar que a Justiça fosse feita”.

As guerras entre os dois órgãos de polícia criminal não são de agora e a PJ Militar tinha, segundo a investigação, várias motivações para ter agido desta forma: além de destruir a investigação da PJ que parecia estar a ir ao encontro dos criminosos, queria dar uma “chapada de luva branca” aos militares, que tanto estavam a apertar a PJ Militar no caso dos dois jovens que morreram num curso de Comandos - e cujo julgamento começa esta quinta-feira.

As detenções não deverão ficar por aqui, uma vez que existe pelo menos mais um elemento da PJ Militar que ontem foi alvo de buscas e que poderá não ter sido detido apenas por estar atualmente na República Centro Africana. Trata-se de Vasco Brazão e é o ex-porta-voz da PJ Militar. Importa referir que após o achamento foi feito um comunicado de imprensa da PJM onde se narrava o telefonema anónimo que segundo a PJ foi uma farsa.

 

Os crimes

Segundo informou ontem a Procuradoria-geral da República, além das detenções - que no caso dos militares tiveram de ser requisitadas aos superiores hierárquicos pelas autoridades - foram “realizadas buscas em vários locais nas zonas da Grande Lisboa, Algarve, Porto e Santarém”. Nesta operação participaram cinco magistrados do MP e uma centena de investigadores e peritos da PJ. A PGR esclareceu ontem que “o diretor do DCIAP e a Procuradora-Geral da República procederam à entrega formal ao ministro da Defesa da notificação da diligência pretendida, a qual foi concretizada posteriormente, nos termos da lei, por militar de patente superior.”

O Ministério Público reforçou ainda que em causa não está a investigação ao assalto, mas sim “as circunstâncias em que ocorreu o aparecimento em 18 de outubro de 2017, na região da Chamusca, de material de guerra furtado em Tancos”.

“Em causa estão factos suscetíveis de integrarem crimes de associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas”, continuou ainda a PGR.

Hoje os detidos serão presentes ao Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa para aplicação de medidas de coação.