Opiniao

A greve dos táxis só beneficiou os ‘electrónicos’


Passei um destes dias dias na Avenida da Liberdade e lá vi os táxis parados. Depois ouvi falar os seus dirigentes na televisão, após terem sido recebidos na Presidência da República por um qualquer assessor. E reivindicam agora ser recebidos por António Costa, entre impropérios dirigidos a um dos seus ministros, acusado de mentir. 

A chamada lei das plataformas eletrónicas vai entrar em vigor a 2 de novembro. Lendo aqui, ouvindo ali, parece haver duas coisas essenciais nas reivindicações dos táxis: 

1. A contingentação ser também exigida aos seus concorrentes ‘eletrónicos’;

2. Ser revista a dicotomia de preços entre os táxis e os ‘eletrónicos’. Pelo meio, entre festas gastronómicas de convívio de famílias e ‘juras’ de que não temem a concorrência, ouço falar no pedido de subsídios para a modernização dos táxis. 

Para melhor perceber o que estes profissionais reivindicavam fui ler um artigo no Observador que faz 12 comparações entre os táxis e os ‘eletrónicos’ - e não me pareceu que os táxis estejam assim tão desfavorecidos. Há claríssimos benefícios fiscais que usufruem em relação à concorrência. E a idade-limite permitida aos veículos também é superior no caso dos táxis. Ou seja, o problema dos táxis é outro: durante anos estiveram sozinhos no mercado, com alvarás a protegerem quem lá estava, cerceando novas entradas de concorrentes.

As guerras movidas contra tudo que seja modernidade são tão antigas que todos conhecemos casos. Ainda bem recentemente, na Web Summit de 2017, um robô disse que iam substituir empregos mais rapidamente do que alguém pensaria. No fundo, estes ‘eletrónicos’ são os robôs dos táxis - que, apanhados na velocidade da modernização, continuam a «construir muros quando o vento é forte, em vez de moinhos aproveitando o vento»!

Os ‘eletrónicos’ estão ilegais? Estão, pelo menos até 2 de Novembro! Alguém nota? Não! Alguém os combate? Não! Segundo me constou, até haverá duas decisões de tribunal que, perante a ilegalidade dos ‘eletrónicos’, se confessaram incapazes de julgar porque não há lei em vigor! Neste aspeto, os táxis têm razão? Toda! A permissividade da autoridade mina este tema, como tantos outros neste país.

Mas há algo que muito ajuda a que isto suceda: os táxis e os taxistas! Os táxis porque, sendo na maioria dos modelos demasiado antigos ou desconfortáveis, não conseguem concorrer com a modernidade confortável dos ‘eletrónicos’. Os taxistas porque, com algumas exceções, como os da MyTaxi, são capazes de tirar do sério qualquer cidadão, tanta é a sua agressividade a conduzir ou no trato com os clientes. Um exemplo? Experimentem entrar num táxi no aeroporto de Lisboa e pedir para fazer um trajeto curto...

Estar na Avenida da Liberdade em protesto pode ter visibilidade. Mas uma coisa eu sei: neste período, nunca tantos utilizaram os ‘eletrónicos’. E garanto que uma percentagem alta ficará facilmente ‘viciada’.

 

P.S. 1 - Não atribuir o prémio de ‘golo do ano’ a Cristiano Ronaldo mostrou bem a mediocridade de quem atribui os prémios. CR não precisa, porque está na história do futebol, qualquer que seja o seu rendimento na Juventus. Mas alguém conhece o nome desses medíocres?

 

P.S. 2 - Este caso da PGR ficou lamentavelmente politizado, num setor que devia estar acima das políticas comezinhas. Aliás, como se viu na reação intempestiva mas eufórica de Sócrates, antes de se perceber o significado real desta decisão - como aconselharia a mais elementar prudência. O tempo irá trazer a verdade ao de cima, como sucede com o azeite e a água. Desde há muito defensor da independência real da Justiça face ao poder político, aqui deixo um pedido final: Dra. Lucília Gago, honre a Justiça e, sobretudo, nunca tire a venda!

 

P.S. 3 - Estive na IV Cimeira do Turismo Português, uma iniciativa louvável da Confederação do Turismo de Portugal e do seu presidente, Francisco Calheiros. Painéis super interessantes, sobretudo sobre os problemas reais do atual aeroporto de Lisboa que se encontra super congestionado, com níveis de ocupação que só podem gerar atrasos no movimento dos aviões. Fiquei preocupado quando se diz que só em 2022 teremos a alternativa do Montijo, ainda pendente de pareceres ambientais. Mas para mim, de um outro painel em que intervieram diversos autarcas nacionais, retive as ideias clarividentes de Paulo Cafofo, presidente do Município do Funchal, e fiquei com a convicção de que irá a breve trecho acabar com a hegemonia laranja na Madeira.

Manuel Boto 

Economista