O mundo em calções

Para lá da curva do meio-campo

Talvez a morte seja apenas a curva da estrada, como dizia pessoa. Só não se ser  visto e continuar por lá, atrás do horizonte. Ou mereça a festa do seu amigo Sá Carneiro que se enfrascou com arseniato e estricnina no tempo em que o absinto era a fada verde: «Quando eu morrer batam em latas/Rompam aos saltos e aos pinotes/Façam estalar no ar chicotes/Chamem palhaços e acrobatas!». Ou não seja nada disso e somente a planície de Verlaine, um tédio interminável.

Abdón Porte e Jacobo Urso morreram com três anos de diferença. O primeiro em março de 1918, o segundo em julho de 1922. Ambos no centro de um campo de futebol, o lugar mais límpido para um jogador atravessar o passeio que fica para lá da curva e deixar de se ver. Para mim, Abdón Porte e Jacobo Urso ficarão para sempre correndo juntos na planície verde da saudade eterna. Que todos batam em latas, portanto.

Abdón era uruguaio, de Libertad, Departamento de Durazno; Jacobo era argentino, de Dolores, Buenos Aires. Abdón era cinco anos mais velho do que Jacobo.

Há quem chame ao Nacional de Montevidéu o Rei de Copas. Abdón Porte chegou ao clube em 1911, depois de passar pelo Colón e pelo Libertad. Era um médio talentoso, de pés meigos, carinhoso com a bola. O público tinha uma devoção por ele. Mas ninguém sabia que era um homem sofrido. Calava-se. O silêncio tomou conta dele por dentro como um cancro.

No dia 5 de março de 1918, o Nacional bateu o Charley por 3-1. Abdón jogou os 90 minutos e foi ele próprio: tranquilo, gentil. Os seus passes ternos respeitavam companheiros e adversários: corretos mas nunca traiçoeiros. Toda a equipa saiu para festejar no final da partida. Folia pela madrugada. à uma hora da manhã, Abdón Porte desaparecera.

Há vários meses que sabia que o seu lugar no meio-campo do Nacional tinha outro dono: Alfredo Zibechi. A tristeza batia-lhe diretamente no coração e ele não aguentava mais aquele ritmo doloroso a 70 vezes por minutos. Ao mesmo tempo que a euforia tomava conta das ruas em redor de Punta de Las Carretas, Abdón apanhou um elétrico para Parque Central, entrou nas instalações do Nacional, foi até ao centro do campo e deu um tiro no coração.

No da seguinte, o corpo de Abdón Porte foi encontrado pelo cachorro do tratador da relva. Mal nascia o sol já este uivava no desespero do luto. Encontraram duas cartas de despedida: uma para o presidente do Nacional, José Maria Delgado; outra para a sua noiva - tinham casamento marcado para daí a um mês.

Jacob o Urso era filho de italianos e tinha nove irmãos e três irmãs. Tal como Abdón Porte jogava no meio do campo, mas não tinha a afabilidade do uruguaio: gostava de ser agressivo, puxar pelo grito, enfrentar adversários de peito mais enfunado do que vela de galeão, como diria o inesquecível Raposão de A Relíquia. Chegou ao San Lorenzo de Almagro com apenas 15 anos e foi o primeiro jogador do clube a ser internacional pela Argentina. Inevitavelmente estreou-se contra o Uruguai, em Montevidéu. Estreou-se e não voltou a ser chamado.

O dia 30 de julho de 1922 calhou a um domingo. O San Lorenzo recebia, em Boedo, no Estádio Gasómetro, o Estudiantes. Não o Estudiantes de La Plata; o Estudiantes de Buenos Aires. Em certos jogos, Urso comportava-se como tal: abria os braços e levava todos na sua frente, expulsando opositores da metade do campo da sua equipa, acuando-os para o lado de lá da linha branca horizontal de giz. Esse jogo era um jogo para o urso. Esbravejava e o povo gritava o seu nome. Lançava-se sobre a bola com uma fome selvagem, às vezes parecia não distinguir a cor das camisolas na sua azáfama irredutível. O Gasómetro tornava-se infernal e ele era um furacão de chamas no centro do inferno.

No início da segunda parte, Comolli e Van Kammenade juntaram forças para o derrubar. O choque foi de uma violência inaudita. Nem o Urso foi capaz de suportar aquela montanha dupla de carne, músculos, ossos e tendões.

Quando Jacobo se levantou, decidido a regressar à batalha, respirava com dificuldade. E começou a cuspir sangue a cada arrancada mais vigorosa. Não se queixou. Não era homem para se queixar. Aguentava e nada mais.

Mais tarde disse-se que deveria ter saído de campo naquele momento. Mas Sá Carneiro tinha razão: «A um morto nada se recusa!». E Jacobo Urso era um morto, embora ainda sem o saber.

No final do encontro foi internado no Hospital Ramos Mejía. Diagnóstico duro: duas costelas partidas, um pulmão perfurado, um rasgão num rim. Seis dias mais tarde dobrava a curva da estrada e deixava de se ver. Tinha 23 anos. Pessoa outra vez: «Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos».

Abdón Porte e Jacobo Urso atravessaram juntos o meio-campo da vida...

afonso.melo@newsplex.pt